Messi fica aqui, mas ninguém vai vê-lo
Cristiano Ronaldo e Lionel Messi chegam ao Qatar para o que pode ser sua última Copa do Mundo separados não apenas por quilômetros, mas por mundos simbólicos distintos: um encontra refúgio no silêncio do deserto, entre camelos e luxo discreto; o outro habita um campus universitário vibrante, onde estudantes sussurram seu nome nos corredores. A escolha de onde descansar antes da batalha revela, como sempre no futebol, algo mais profundo do que logística — revela o estado de espírito de cada homem e de cada nação.
- Ronaldo chega ao Qatar carregando o peso de uma crise pública no Manchester United, com críticas abertas ao clube e ao técnico, e um futuro incerto no futebol inglês.
- A Portugal optou por Al Shahaniya, a quarenta quilômetros de Doha, onde o silêncio do deserto e uma pista de corridas de camelos funcionam como antídoto para a turbulência que cerca seu astro.
- Messi, por sua vez, instalou-se num campus universitário no extremo norte de Doha, onde torcedores argentinos cantaram até de madrugada na chegada da delegação, quebrando a paz do lugar.
- A Argentina aprendeu com os erros de concentrações anteriores — o isolamento excessivo de 2018 e a euforia de 2014 — e desta vez buscou um equilíbrio, chegando a instalar uma churrasqueira para recriar o ambiente de Ezeiza.
- Os dois maiores jogadores da geração se encaminham para sua provável despedida dos Mundiais em cenários opostos, como se o próprio futebol quisesse sublinhar que nunca foram iguais em nada.
Cristiano Ronaldo e Lionel Messi chegaram ao Qatar para o que pode ser sua última Copa do Mundo em cenários radicalmente distintos. Portugal escolheu Al Shahaniya, cidade a quarenta quilômetros de Doha, onde funciona uma das principais pistas de corridas de camelos do país. Os animais pastam a dez quilômetros do centro de treinamento, cedido pelo Al Shahaniya Club, equipe da segunda divisão local. Nas proximidades, um hotel de cinco estrelas com sessenta e dois quartos, vilas, spa e restaurante oferece o luxo discreto que combina com o momento de Ronaldo — que chegou ao torneio em meio ao caos criado no Manchester United, com críticas públicas ao clube e ao técnico Erik ten Hag, e futuro incerto no futebol inglês.
Messi, por sua vez, está hospedado na Universidade do Qatar, um campus de oito quilômetros quadrados no extremo norte de Doha. A Argentina reservou um prédio inteiro com noventa quartos na ala masculina. Quando a delegação chegou, na madrugada de quinta-feira, torcedores argentinos cantaram músicas de incentivo até as primeiras horas da manhã. Um segurança próximo à biblioteca resumiu bem a situação: Messi está ali, mas ninguém vai vê-lo.
A escolha do local reflete aprendizados dolorosos. A federação argentina ainda lamentava a estadia isolada nos arredores de Moscou em 2018, quando os jogadores reclamavam da falta de contato humano. Em 2014, o ambiente da Cidade do Galo, em Vespasiano, foi adorado pelo elenco a caminho da final. Desta vez, a federação financiou adaptações no prédio universitário para imitar o centro de treinamento de Ezeiza — incluindo a instalação de uma churrasqueira. O complexo oferece campos oficiais, piscinas olímpicas, sauna e o estádio da universidade com capacidade para dez mil pessoas.
O campus abriga cerca de vinte mil estudantes e é um dos principais centros de pesquisa do Qatar. Um estudante de economia lembrou que quando o Liverpool treinou ali em 2019, todos queriam ver Salah — e que com Messi seria igual. A Espanha também se hospedará no mesmo complexo. Enquanto isso, Ronaldo estreia contra Gana no coração de Doha. Os dois astros que definiram uma era se despedem dos Mundiais em mundos completamente diferentes.
Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, os dois nomes que definiram o futebol mundial nos últimos quinze anos, chegaram ao Qatar para o que pode ser sua última Copa do Mundo em cenários radicalmente distintos. Um deles terá camelos como vizinhos. O outro, estudantes universitários.
A seleção portuguesa escolheu Al Shahaniya, uma cidade a quarenta quilômetros do centro de Doha, onde funciona a Camel Race Track, uma das principais pistas de corridas de camelos do país. As provas continuarão acontecendo durante todo o torneio. Os animais, dóceis e acostumados com a presença humana, pastam e correm a dez quilômetros de distância, bem no meio do deserto qatari, ao lado da sede do Al Shahaniya Club, equipe da segunda divisão que cede suas instalações para os portugueses treinarem. Portugal é uma das cinco seleções que optou por se afastar do centro urbano; Alemanha, Bélgica, México e Arábia Saudita fizeram a mesma escolha. A decisão casou bem com o momento turbulento de Ronaldo, que chegou ao Qatar em meio ao caos que criou no Manchester United, com críticas públicas ao clube e ao treinador Erik ten Hag. Seu futuro no futebol inglês é incerto. Pelo menos terá sossego: a menos de dez quilômetros fica o Al Samriya Autograph Collection Hotel, um luxuoso estabelecimento de cinco estrelas construído com materiais da fazenda vizinha, com sessenta e dois quartos, vinte e seis vilas, spa e restaurante. Ao redor, apenas museus, um centro equestre e uma reserva de órix.
Messi, por sua vez, está hospedado na Universidade do Qatar, um campus de oito quilômetros quadrados no extremo norte de Doha. A Argentina reservou um prédio inteiro com noventa quartos na ala masculina da universidade. Quando a delegação chegou, na madrugada de quinta-feira, a paz do campus foi quebrada. Torcedores argentinos se concentraram na entrada principal e cantaram músicas de incentivo até as primeiras horas da manhã. Emissoras de televisão também estavam presentes, embora sem contato direto com os atletas. Um segurança que trabalha perto da biblioteca da universidade explicou: Messi fica aqui, mas ninguém vai vê-lo. A Argentina está em uma parte isolada. Nas últimas semanas, vários estudantes não tinham outro assunto que não fosse Messi estar aqui.
A escolha do local de concentração reflete aprendizados dolorosos. A federação argentina lamentava até hoje a estadia em Bronchitis, nos arredores de Moscou, durante a Copa de 2018. O complexo era isolado demais, distante de tudo, e os jogadores reclamavam da falta de contato com outras pessoas. O oposto aconteceu em 2014, quando a Argentina se hospedou na Cidade do Galo, em Vespasiano, a trinta e sete quilômetros de Belo Horizonte. Os jogadores adoraram o local a caminho da decisão do Mundial. Desta vez, a federação financiou adaptações no prédio universitário para imitar o ambiente do centro de treinamento em Ezeiza, nos arredores de Buenos Aires. Um dos itens mais importantes foi remodelar um espaço para instalar uma churrasqueira. O complexo oferece dois campos de dimensões oficiais com iluminação artificial, piscinas olímpicas, sala de musculação com sauna, o estádio da universidade com capacidade para dez mil pessoas e trinta campos menores ao ar livre ou cobertos.
A Universidade do Qatar é um centro público de pesquisa que abriga dez faculdades com cursos em árabe e inglês, um dos principais locais do país para estudo de questões ambientais e da indústria de energia. Cerca de vinte mil estudantes frequentam o campus, setenta por cento deles nascidos no país e trinta por cento estrangeiros. Um estudante de economia e finanças chamado Sunil Faisal observou que quando o Liverpool treinou ali em 2019, durante o Mundial de Clubes, foi uma febre porque todos queriam ver Salah. Se houvesse a possibilidade de ver Messi, seria a mesma coisa. A Argentina não será a única seleção no complexo; a Espanha também vai se hospedar na área. Enquanto isso, Ronaldo faz sua estreia contra Gana no estádio 974, no coração de Doha, cercado pela agitação urbana que seus rivais enfrentam. Os dois astros que dominaram o futebol mundial se despedem em mundos completamente diferentes.
Citas Notables
Messi fica aqui, mas ninguém vai vê-lo. A Argentina está em uma parte isolada.— Fahad, segurança da Universidade do Qatar
Se houvesse a possibilidade de ver Messi, seria a mesma coisa que quando Salah treinou aqui em 2019 — uma febre.— Sunil Faisal, estudante de economia e finanças
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Portugal escolheu um lugar tão afastado, perto de uma pista de corridas de camelos?
Parece ter sido uma decisão pensada para dar paz a Ronaldo. Ele chegou ao Qatar em plena crise no Manchester United, com críticas públicas ao clube. O isolamento no deserto oferecia exatamente o que ele precisava naquele momento.
E Messi? Ele também buscava isolamento?
Não exatamente. A Argentina aprendeu com erros passados. Em 2018, ficaram em um lugar tão isolado que os jogadores reclamavam de falta de contato humano. Desta vez, escolheram uma universidade, um lugar vivo, com estudantes, infraestrutura completa.
Mas os torcedores argentinos apareceram na entrada da universidade cantando.
Sim, mas a Argentina conseguiu o que queria: isolamento controlado. Os torcedores ficaram do lado de fora. Os jogadores tinham paz dentro do campus, mas também tinham a sensação de estar em um lugar com vida, não em um bunker no deserto.
Qual é a diferença real entre essas duas escolhas?
Ronaldo está fugindo de algo. Messi está se preparando para algo. Uma é sobre sossego pessoal, a outra é sobre criar o ambiente ideal para o time competir. São filosofias opostas de como se concentrar para uma Copa.
Os estudantes da universidade realmente não conseguem ver Messi?
Oficialmente, não. A Argentina reservou um prédio separado. Mas a presença dele ali é inegável. Um estudante disse que seria como quando Salah treinou lá em 2019 — uma febre, uma chance única que provavelmente nunca vai se repetir.