Em novembro de 2020, os mercados celebraram a iminência das vacinas e o fim da incerteza eleitoral americana, mas especialistas pedem cautela: a recuperação econômica, embora mais veloz que o esperado, ainda carrega as marcas de uma crise comparável à Grande Depressão. O mundo que emergirá da pandemia não será o mesmo que entrou nela — alguns setores foram transformados de forma permanente, e as dívidas acumuladas pelos governos para sustentar a economia cobrarão seu preço. Para investidores e nações, especialmente as emergentes, o verdadeiro teste ainda está por vir.
Crise pandêmica seguirá em 2021; especialistas alertam para oportunidades de investimento
A crise afeta grandes e pequenas empresas em todos os setores
Se a recuperação está mais rápida que o previsto, por que os especialistas ainda soam tão cautelosos?
Porque a velocidade da recuperação econômica não é a mesma coisa que o fim da crise. Os números podem estar melhorando, mas setores inteiros — aviação, hotelaria — estão enfrentando mudanças permanentes que não se revertem com uma vacina.
Mas quanto dessa "recuperação mais rápida" é real e quanto é apenas comparação com previsões que eram muito pessimistas? O artigo não diz quem fez essas previsões originais.
Ótima pergunta. O que sabemos é que os bancos não foram tão impactados quanto em 2008, e o crédito está fluindo. Isso é verificável.
Gordon diz que a verdadeira recuperação só começa no terceiro ou quarto trimestre de 2021. Isso é uma previsão dele ou há consenso nisso?
É a visão dele, um acadêmico respeitado, mas o artigo não apresenta outras previsões de timeline para comparar.
E quando ele fala que a inflação voltará antes de 2023 — isso é baseado em modelos econômicos ou é mais uma intuição?
O artigo não detalha a metodologia. É uma opinião de um especialista, não uma projeção de modelo.
Para o Brasil especificamente, Rostagno coloca tudo nas reformas fiscais. Mas quão realista é isso politicamente?
Essa é a questão que o artigo deixa em aberto. Ele mapeia o cenário binário, mas não avalia a probabilidade de cada caminho.
Exatamente. O artigo diz o que pode acontecer, mas não diz o que provavelmente vai acontecer.
El Pulso
- As bolsas viveram novembro de 2020 com euforia — o Dow Jones registrou seu melhor mês desde 1987 —, mas essa alegria mascara uma crise que ainda não terminou.
- Setores como aviação e hotelaria enfrentam mudanças estruturais irreversíveis: executivos descobriram que viagens de negócios eram caras e desnecessárias, alterando permanentemente o mix de receita das companhias aéreas.
- A destruição criativa está em pleno curso — enquanto cinemas fecham, o streaming e o entretenimento doméstico aceleram uma transformação de hábitos que gera novas cadeias de oportunidades.
- Governos dos EUA e Europa preparam novos estímulos bilionários, mas a conta chegará: inflação, corte de gastos ou calote são os caminhos possíveis quando a pandemia virar passado.
- Para o Brasil, o cenário é binário e delicado — sem avanço nas reformas fiscais, os ativos domésticos podem se deteriorar mesmo com um ambiente externo favorável; com disciplina, há espaço para superar outros emergentes.
Em novembro de 2020, os mercados celebraram a iminência das vacinas e o fim da incerteza eleitoral americana, mas especialistas pedem cautela: a recuperação econômica, embora mais veloz que o esperado, ainda carrega as marcas de uma crise comparável à Grande Depressão. O mundo que emergirá da pandemia não será o mesmo que entrou nela — alguns setores foram transformados de forma permanente, e as dívidas acumuladas pelos governos para sustentar a economia cobrarão seu preço. Para investidores e nações, especialmente as emergentes, o verdadeiro teste ainda está por vir.
Novembro de 2020 trouxe alívio aos mercados globais. A iminência das vacinas contra a covid-19 e o fim da incerteza eleitoral americana empurraram o Dow Jones ao seu melhor desempenho mensal desde 1987. Mas especialistas pedem que a euforia seja temperada pela realidade: a crise pandêmica está longe de encerrada, e a verdadeira recuperação econômica só deve ganhar corpo no terceiro ou quarto trimestre de 2021, quando as vacinas estiverem amplamente distribuídas e a população imunizada.
Eric Gordon, professor de economia da Universidade de Michigan, compara a severidade da crise atual à Grande Depressão de 1929 — e a coloca acima da crise financeira de 2008 em amplitude. Desta vez, não foram apenas os bancos que sofreram: empresas de todos os tamanhos, em todos os setores e geografias, foram atingidas diretamente. Alguns desses impactos são permanentes. A aviação civil, por exemplo, não voltará ao que era: os executivos que voavam a negócios descobriram que muitos deslocamentos eram desnecessários, alterando de forma definitiva o mix de receita das companhias aéreas.
Ao mesmo tempo, a crise acelera o que o economista Joseph Schumpeter chamou de destruição criativa. O fechamento dos cinemas, por exemplo, impulsionou o streaming e criou uma cadeia inteira de oportunidades em entretenimento doméstico — uma transformação que já havia ocorrido com o surgimento da televisão e agora se repete em nova escala.
Michael Strobaek, do Credit Suisse, reforça que mudanças permanentes na forma de trabalhar, aprender e viver abrirão espaço para novos arranjos econômicos. Mas alerta para as consequências macroeconômicas dos estímulos sem precedentes: novos pacotes monetários e fiscais estão a caminho nos EUA e na Europa, e toda essa injeção de recursos públicos criará um problema futuro de dívida. Gordon é direto — não há saída mágica. Inflação, corte de gastos ou calote são os destinos possíveis, e o Federal Reserve pode ser forçado a elevar os juros antes de 2023.
Para o Brasil, o desafio é ainda mais agudo. Com margem fiscal já reduzida, o país enfrenta um cenário binário: avançar nas reformas e no controle dos gastos para que os ativos domésticos superem outros emergentes, ou deixar os problemas fiscais sem resposta e ver os preços se deteriorarem mesmo em um ambiente externo favorável. A recuperação é encorajadora, mas o caminho adiante depende de escolhas políticas que ainda estão por ser feitas.
Novembro de 2020 trouxe alívio aos mercados. A aprovação iminente de vacinas contra a covid-19 e a redução da incerteza política nos Estados Unidos fizeram as bolsas de Nova York registrarem um desempenho excepcional — o Dow Jones marcou seu melhor mês desde 1987. Mas por trás dessa euforia, especialistas veem uma realidade mais complexa: a crise pandêmica está longe de terminar, e o que virá a seguir exigirá atenção cuidadosa de quem investe.
A recuperação econômica nos EUA e Brasil está acontecendo mais rápido do que muitos previram no início da crise. Diferentemente de 2008, os bancos não foram devastados desta vez — as regulações posteriores àquela crise financeira os protegeram — e o crédito continua fluindo. Mas especialistas alertam que ainda é cedo para comemorar. Eric Gordon, professor de economia e negócios da Universidade de Michigan, oferece uma perspectiva sóbria: a verdadeira fase pós-crise deve começar apenas no terceiro ou quarto trimestre de 2021. As vacinas, uma vez aprovadas, ainda precisam ser massivamente distribuídas e a população imunizada antes que a economia mundial possa realmente deixar a pandemia para trás.
Gordon compara a severidade da crise atual à Grande Depressão iniciada em 1929, que se estendeu pela década de 1930 — e a coloca como ainda mais grave que a crise financeira de 2008. A diferença crucial está na amplitude do impacto. Em 2008, a maioria das pessoas fora do setor financeiro manteve seus empregos e observou a crise como espectadores. Desta vez, grandes e pequenas empresas em praticamente todos os setores e em todas as regiões geográficas foram atingidas diretamente. Alguns setores não voltarão ao que eram antes. A aviação civil e a hotelaria enfrentam mudanças estruturais profundas. Gordon prevê movimentos de fusões que podem mascarar a gravidade das consequências, mas deixarão menos empregos no mercado. As companhias aéreas não retornarão ao normal porque a mudança não é apenas quantitativa — é qualitativa. Os viajantes de férias, que pagam as passagens mais baratas, continuarão viajando, mas os executivos que voavam a negócios descobriram que muitos desses deslocamentos eram caros e desnecessários. Essa mudança no mix de receita é permanente.
Mas há também destruição criativa em andamento — o conceito que o economista austríaco Joseph Schumpeter usou para descrever como as economias de mercado se destroem e se reconstroem, gerando progresso. O setor de entretenimento exemplifica isso perfeitamente. Os cinemas estão fechados nos Estados Unidos, mas as pessoas assistem Netflix, plataformas de streaming e outros tipos de entretenimento em casa. Essa aceleração da mudança de hábitos cria uma cadeia inteira de oportunidades para produtos e serviços relacionados. O setor de entretenimento já passou por destruição criativa antes — quando a televisão emergiu — e está passando novamente agora.
Michael Strobaek, chefe global de investimentos do Credit Suisse, compartilha essa visão de oportunidades emergentes. Ele reconhece que a pandemia continuará ocupando a atenção em 2021, com governos enfrentando novos surtos e precisando distribuir vacinas. Mas à medida que avançamos, mudanças permanentes na forma como trabalhamos, aprendemos e vivemos criarão espaço para novos arranjos econômicos. Os investidores precisam estar atentos não apenas a quais empresas sobreviverão em boas condições, mas também às consequências macroeconômicas que virão após os esforços sem precedentes dos governos para sustentar a economia.
Essas consequências são substanciais. Novos estímulos monetários do Federal Reserve e do Banco Central Europeu são esperados para dezembro de 2020, e Joe Biden, eleito presidente dos EUA, promete um segundo grande pacote fiscal assim que assumir em janeiro. Toda essa injeção de dinheiro público cria um problema futuro: a dívida. Gordon é direto: não existe maneira mágica de lidar com tanta dívida. Depois que a pandemia passar, os governos terão de cortar gastos ou dar calote. Ele acredita que a inflação voltará a subir nos EUA quando a crise virar passado, e que o Federal Reserve será obrigado a elevar os juros antes de 2023.
Para países emergentes como o Brasil, a situação é ainda mais delicada. O país já tem margem de manobra fiscal reduzida. Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Mizuho Bank para Brasil e América Latina, descreve um cenário binário à frente: se o Brasil não conseguir endereçar seus problemas fiscais, os preços dos ativos brasileiros podem se deteriorar mesmo em um ambiente externo mais favorável. Mas se o país avançar na agenda de reformas e controle dos gastos públicos, os ativos domésticos têm espaço para uma performance melhor que a de outros pares emergentes. A recuperação econômica é encorajadora, mas o caminho adiante depende de escolhas políticas e fiscais que ainda estão por ser feitas.
Citas Notables
A fase pós-crise deve começar somente no terceiro ou quarto trimestre de 2021, após distribuição massiva de vacinas e imunização da população— Eric Gordon, professor de economia da Universidade de Michigan
Se o Brasil não conseguir endereçar problemas fiscais, os preços dos ativos podem se deteriorar mesmo em ambiente externo favorável— Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Mizuho Bank para Brasil e América Latina