No Complexo da Maré, onde mais de 124 mil pessoas vivem sob o peso cruzado do tráfico, da milícia e das operações policiais, crianças entre 10 e 14 anos foram convidadas a desenhar seus sonhos — e desenharam paz. O gesto simples revela uma verdade que os números confirmam: 34 dias sem aulas neste ano, 82% dos alunos afetados pela violência, gerações inteiras aprendendo a sobreviver antes de aprender a ler. É o retrato de uma infância que pede, com lápis de cor, aquilo que o Estado ainda não soube garantir.
Crianças da Maré pedem paz em desenhos: 'Queremos uma comunidade normal'
Vou morrer, vou morrer, vou morrer
Por que você acha que essas crianças escolheram desenhar em vez de apenas falar sobre seus sonhos?
Porque desenho é uma linguagem que não exige as mesmas palavras que a gente usa todo dia. Quando você desenha, você coloca no papel aquilo que seu corpo sente, não só aquilo que sua mente consegue explicar. Essas crianças vivem cercadas por barulho — helicópteros, tiros, sirenes. O desenho é um silêncio que fala.
A menina que foi dada como morta — como é possível que isso aconteça em uma cidade grande como o Rio?
Porque em um dia de operação, tudo vira caos. Não há comunicação. Ela desapareceu por algumas horas, e ninguém sabia onde ela estava. As redes sociais funcionam mais rápido que a polícia, que a prefeitura, que qualquer instituição. O medo preencheu o vazio de informação.
Você acha que a prefeitura está realmente tentando resolver isso?
A prefeitura fala em prioridades, em psicólogos e assistentes sociais disponíveis. Mas as escolas fecham 34 dias por ano por causa de operações. Como você oferece educação de qualidade quando as crianças não conseguem ir à escola? É como oferecer um remédio enquanto continua ferindo a pessoa.
O que mais te chocou nos relatos dessas crianças?
A normalidade com que elas falam sobre coisas que deveriam ser anormais. Uma menina de 10 anos descrevendo estar paralisada de medo, pensando que ia morrer, como quem relata o que comeu no café da manhã. Isso é o que a violência crônica faz: transforma o extraordinário em rotina.
Essas crianças têm alguma esperança?
Sim. No final, quando perguntaram o que elas gostavam de fazer, todas disseram: brincar. Elas ainda querem brincar. Elas ainda acreditam que é possível ter uma comunidade normal. A esperança delas é simples e devastadora ao mesmo tempo.
E os professores? Como eles lidam com isso?
Com ansiedade. Com mensagens às 5 da manhã. Com planejamentos que precisam ser refeitos toda semana porque não sabem se haverá aula. Mas também com uma teimosia silenciosa de continuar tentando. Jane Trajano está lá há 35 anos. Isso diz algo.
Le Pouls
- Crianças de 10 a 14 anos descrevem helicópteros, tiros e o pânico de acreditar que vão morrer — não como pesadelos, mas como memórias de dias comuns.
- Em 2024, 37 operações policiais fecharam escolas e postos de saúde por 34 dias, deixando alunos sem aulas e doentes sem atendimento no meio de confrontos.
- Uma menina de 12 anos sumiu durante uma operação e sua foto circulou nas redes como se ela tivesse morrido; outra ficou paralisada na rua enquanto repetia para si mesma 'vou morrer'.
- Pesquisa da ONG Redes da Maré aponta que 78% dos alunos perdem concentração, 62% sofrem de estresse e 61% de ansiedade por causa da violência armada.
- Professores, psicólogos e moradores pedem uma política de segurança que não destrua o calendário escolar — e as crianças pedem, nos desenhos e nos livros que escrevem, simplesmente menos violência e mais amor.
No Complexo da Maré, onde mais de 124 mil pessoas vivem sob o peso cruzado do tráfico, da milícia e das operações policiais, crianças entre 10 e 14 anos foram convidadas a desenhar seus sonhos — e desenharam paz. O gesto simples revela uma verdade que os números confirmam: 34 dias sem aulas neste ano, 82% dos alunos afetados pela violência, gerações inteiras aprendendo a sobreviver antes de aprender a ler. É o retrato de uma infância que pede, com lápis de cor, aquilo que o Estado ainda não soube garantir.
Numa tarde de quinta-feira, dez crianças e adolescentes se reuniram na Biblioteca Lima Barreto, dentro do Complexo da Maré, para falar sobre sonhos. O que emergiu foram histórias de tiros, correria e medo. Quando pediram que desenhassem a Maré que gostariam de ter, oito dos dez trabalhos pediam a mesma coisa: paz e fim dos tiroteios.
O Complexo da Maré abriga mais de 124 mil pessoas em 16 favelas dominadas por duas facções do tráfico e uma milícia. Neste ano, 37 operações policiais resultaram em 34 dias sem aulas — 14 deles consecutivos só em agosto. Escolas e postos de saúde fecham durante os confrontos. As crianças ficam em casa. Os doentes ficam sem atendimento.
Uma das meninas contou sobre o Dia das Crianças de três anos atrás: havia festa, brinquedos, um parquinho. Quando os tiros começaram, ela correu para a casa de uma amiga. Sem celular, não conseguiu avisar a família. Sua foto circulou nos grupos de WhatsApp como se ela tivesse morrido. Outra menina de 10 anos descreveu o dia em que um caveirão entrou em alta velocidade na rua onde ela e a mãe caminhavam. Ela ficou paralisada, o coração acelerado, repetindo para si mesma: vou morrer, vou morrer, vou morrer.
Uma pesquisa da ONG Redes da Maré revelou que 82% dos alunos acreditam que a violência impacta sua vida escolar, 78% relatam perda de concentração, 62% estresse e 61% ansiedade. A professora de psicologia clínica Laura Quadros, que analisou os desenhos, viu neles um pedido explícito por momentos melhores — alguns sem cores, sem alegria, outros expressando o sonho de uma vida diferente.
Jane Trajano, professora na Maré há 35 anos, recebe mensagens sobre o clima da região às 5 da manhã. Os cancelamentos sucessivos prejudicam a frequência, o estímulo e o planejamento pedagógico. Mesmo assim, ela afirma que os professores fazem o possível e precisam acreditar que a mudança é viável. No fim do encontro, uma das meninas mostrou um livro feito pelas crianças intitulado 'Se eu governasse a Maré'. As respostas se repetiam, como nos desenhos: menos violência, mais amor e felicidade.
No fim da tarde de uma quinta-feira, dez crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos se sentaram em círculo na Biblioteca Lima Barreto, dentro do Complexo da Maré, para falar sobre seus sonhos. O que saiu de suas bocas, porém, foram histórias de helicópteros e tiros, de correria e pânico, de um dia em que uma menina de 12 anos foi dada como morta por sua comunidade porque desapareceu durante uma operação policial. Quando lhe pediram que desenhassem a Maré dos seus sonhos, oito dos dez trabalhos pediam a mesma coisa: paz. Fim dos tiroteios. Uma comunidade normal.
Mais de 124 mil pessoas vivem nas 16 favelas que compõem o Complexo da Maré, cercadas pela Avenida Brasil e pelas linhas Amarela e Vermelha do metrô. A região tem 49 escolas públicas e sete unidades de saúde, mas é dominada por duas facções do tráfico de drogas e uma milícia. Neste ano, foram 37 operações policiais que resultaram em 34 dias sem aulas — 14 deles consecutivos apenas em agosto. Dezenas de escolas e postos de saúde fecham as portas quando há confrontos. As crianças não aprendem. Os doentes não recebem atendimento.
A menina que foi puxada pelos cabelos para se proteger dos tiros contou sobre o Dia das Crianças, três anos atrás. Um cantor faria uma festa, haveria distribuição de brinquedos, um parquinho montado. Ela saiu com amigas enquanto seus pais trabalhavam. Quando os tiros começaram, correu para a casa de uma amiga. Sem celular, não conseguiu avisar ninguém. Sua foto circulou nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp. Todos achavam que ela tinha morrido. Quando voltou para casa, encontrou a rua agitada, as pessoas querendo saber dela. Sua irmã lhe deu uma bronca. Ela também falou sobre a merenda escolar: ovo com cabelo, arroz queimado, frango cru, feijão duro. Pediu que isso mudasse.
Outra menina de 10 anos, quase sussurrando, compartilhou experiências de racismo que presenciou — uma mulher negra impedida de pegar uma fruta na feira porque desconfiaram dela. Falou sobre o lixo nas ruas, sobre a falta de árvores, sobre respirar ar que parece vir do lixo em vez das folhas. Pediu espaços melhores, com árvores bonitas para brincar. Uma menina de 12 anos desenhou um prédio que reunia hospital e escola. Ela não tinha hospital perto, só uma clínica da família. Quando algo mais sério acontecia, precisava ir para outros bairros. Sua escola ficava longe, do outro lado da Maré, e nem sempre era seguro andar até lá.
Outra menina de 10 anos contou sobre o dia em que estava indo para o trabalho da mãe. Acordaram cedo, começaram a andar para pegar o ônibus. De repente, um carro preto entrou na rua em alta velocidade, um caveirão atrás dele. A polícia desceu com muitos policiais. Os bandidos sumiram. Sua mãe começou a puxá-la. Ela ficou paralisada. Seu coração acelerou. Ela só pensava: vou morrer, vou morrer, vou morrer. No fim do encontro, quando lhe perguntaram sobre as atividades que gostavam de fazer, todas disseram a mesma coisa: brincar.
Uma pesquisa da ONG Redes da Maré revelou que 82% dos alunos acreditam que a violência armada impacta suas vidas na escola. Cerca de 83% sentem medo de ir para a escola por causa disso. Setenta e oito por cento relatam perda de concentração, 62% relatam estresse, 61% relatam ansiedade. Laura Quadros, professora de psicologia clínica da Uerj, analisou alguns dos desenhos. Para ela, é nítido um pedido explícito por momentos melhores. São desenhos de crianças que percebem sua rotina, sua segurança e estabilidade comprometidas. Alguns apontam uma realidade sombria, sem cores, sem alegria. Outros falam de ansiedades e temores, do sonho de uma vida melhor. A professora reforça que é importante proporcionar vivências amorosas, para que as crianças possam aprender a lidar com as consequências internas que a violência provoca.
Jane Trajano, professora da rede municipal na Maré há 35 anos, recebe mensagens sobre o clima da região às 5 da manhã, antes de seu horário de trabalho. Isso cria uma ansiedade imensa, tanto nela quanto nos alunos. Os cancelamentos sucessivos atrapalham a frequência, o estímulo, o planejamento pedagógico. Mas ela afirma que os professores fazem o possível, dentro de sua realidade, para oferecer o melhor. Precisam acreditar que a mudança é possível. No fim do encontro, uma das meninas mostrou um livro feito pelas crianças como parte de uma atividade da ONG. O título era "Se eu governasse a Maré". As respostas se repetiam, tal qual nos desenhos: menos violência, mais amor e felicidade.
Citations marquantes
Nós, professores, começamos a receber mensagens sobre o clima na Maré às 5h, antes do nosso horário de trabalho. Isso já cria uma ansiedade imensa, tanto na gente, quanto nos alunos.— Jane Trajano, professora da rede municipal na Maré há 35 anos
São desenhos de crianças que percebem sua rotina, sua segurança e estabilidade comprometidas pela violência. Há um pedido explícito por momentos melhores.— Laura Quadros, professora de psicologia clínica da Uerj