Às vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, a corrupção deixou de ser apenas um lamento de bastidor e passou a ocupar o centro da disputa. Em Clearwater, na Flórida, um eleitor republicano decidiu votar contra o próprio partido, convencido de que o poder havia se tornado um pântano, como tantas vezes ocorre quando promessas de moralidade se desgastam na prática. Democratas e republicanos, ambos, recorrem agora a anúncios que associam o enriquecimento de políticos ao custo de vida, embora o conceito se estique para abarcar até disputas de distritos e acordos empresariais. Re
Corrupção ganha força como tema eleitoral nos EUA, mas pesa menos que inflação e guerra para eleitores
"Trump disse que iria acabar com a corrupção, e ele se tornou um pântano"
Por que o caso de Michael Nave chama tanta atenção?
Ele é republicano e votou contra todos os republicanos da cédula, inclusive Anna Paulina Luna. Disse que Trump prometeu acabar com a corrupção e virou um pântano.
Isso indica uma virada geral?
Não. É um eleitor, e a matéria não traz pesquisa que meça o tamanho do movimento. É um sinal, não uma prova.
Outros entrevistados reforçam isso. Juan Pino não se convenceu e vota sempre nos democratas.
E Steve Wiegard, do Mississippi?
Ele diz que está mais às claras e que pensa nisso todos os dias. Para ele, o tema ganhou presença.
Mas é a percepção dele. Não sabemos quantos pensam igual.
Os dois partidos usam o tema, certo?
Sim. Democratas atacam Victoria Spartz por negociações de ações; republicanos chamam Troy Jackson de corrupto demais por causa do filho lobista.
Repare que o conceito se amplia: guerra no Irã, redistritamento, acordos com centros de dados. Quando tudo vira corrupção, a palavra fica difícil de medir.
Então o que observar?
Se o tema pesa nas disputas da Flórida, do Maine e do Alasca, onde inflação e guerra também competem pela atenção do eleitor.
Le Pouls
- Os anúncios de ataque dos dois partidos transformaram a corrupção em tema central, com acusações que vão de negociações de ações a lobby familiar.
- Eleitores republicanos como Michael Nave já cruzam a fronteira partidária e votam contra candidatos do próprio campo.
- O rótulo de corrupção se expande para cobrir redesenho de distritos, acordos de confidencialidade com centros de dados e a guerra no Irã, gerando disputa sobre o próprio sentido da palavra.
- A cédula do Alasca virou campo de manobra, com homônimos de Dan Sullivan que podem dispersar votos.
- Na prática, o tema divide opiniões: parte dos eleitores o considera decisivo, enquanto outros seguem fiéis ao partido ou priorizam imigração e outras questões.
- O desfecho em Flórida, Maine e Alasca dirá se a corrupção, de fato, pesa nas urnas.
Às vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, a corrupção deixou de ser apenas um lamento de bastidor e passou a ocupar o centro da disputa. Em Clearwater, na Flórida, um eleitor republicano decidiu votar contra o próprio partido, convencido de que o poder havia se tornado um pântano, como tantas vezes ocorre quando promessas de moralidade se desgastam na prática. Democratas e republicanos, ambos, recorrem agora a anúncios que associam o enriquecimento de políticos ao custo de vida, embora o conceito se estique para abarcar até disputas de distritos e acordos empresariais. Resta saber se essa inquietação antiga, que atravessa gerações de cidadãos, será suficiente para se sobrepor às preocupações cotidianas com preços, guerra e segurança.
Na quarta-feira, 29 de outubro, Michael Nave, republicano de 61 anos morador de Dunedin, votou antecipadamente em Clearwater, na Flórida, e marcou a cédula contra todos os candidatos do seu partido, inclusive a deputada Anna Paulina Luna. Ele já desconfiava de que políticos dos dois partidos enriqueciam enquanto a classe trabalhadora lutava para pagar as contas. Naquele dia, concluiu que o governo havia ficado corrupto demais. "Trump disse que iria acabar com a corrupção, e ele se tornou um pântano", afirmou.
Na região de Tampa Bay, a corrupção virou eixo da disputa entre Luna e Leela Gray, democrata e general de brigada aposentada do Exército. Os dois lados passaram a usar o tema em anúncios, às vezes esticando o conceito. Um comitê democrata atacou a deputada Victoria Spartz, de Indiana, e sua família por negociações de ações, ligando-as ao custo de vida. Já um comitê republicano chamou Troy Jackson, adversário de Susan Collins no Maine, de "corrupto demais" por causa do filho lobista.
O termo também passou a abranger acordos de confidencialidade com centros de dados, a guerra no Irã e o redesenho de distritos de maioria negra após a Suprema Corte enfraquecer a Lei dos Direitos de Voto. Chaz Molder, prefeito democrata de Columbia, no Tennessee, perdeu seu distrito e resumiu o problema: "Temos políticos tentando escolher os eleitores em vez de os eleitores escolherem os políticos." No Alasca, democratas tentam congestionar a cédula com candidatos de nomes parecidos ao senador Dan Sullivan.
Para alguns eleitores, a mensagem ganhou força. Steve Wiegard, de Mississippi, disse pensar no assunto todos os dias. Outros não se deixaram convencer. Juan Pino, na Flórida, votou em democratas por hábito; James Shively preferiu republicanos e desconfia dos dois partidos; Jonathan Castro, sem partido, votou democrata por discordar da política migratória de Trump. Nenhum deles disse que a corrupção decidiu o voto.
O tema ganhou espaço, mas disputa a atenção com inflação, guerra e segurança pessoal. Resta ver se pesará o bastante em Flórida, Maine e Alasca.
Na quarta-feira, 29 de outubro, Michael Nave votou antecipadamente em Clearwater, na Flórida, e marcou a cédula contra todos os republicanos, inclusive a deputada Anna Paulina Luna. Nave, de 61 anos, morador de Dunedin, é republicano. Como muitos americanos, ele já desconfiava de que políticos dos dois partidos enriquecem enquanto a classe trabalhadora luta para pagar as contas. Naquele dia, concluiu que o partido no poder havia ficado corrupto demais. "Trump disse que iria acabar com a corrupção, e ele se tornou um pântano", afirmou.
Luna é justamente a candidata que seu oponente descreve como símbolo de um partido marcado por enriquecimento ilícito e nepotismo sob o presidente Donald Trump. Na região de Tampa Bay, a corrupção virou ponto central da disputa entre ela e Leela Gray, democrata e general de brigada aposentada do Exército. Os republicanos, Luna entre eles, também tentam usar o tema a seu favor.
A corrupção se tornou presença constante nos anúncios de campanha dos dois partidos, ainda que o conceito tenha sido esticado em alguns casos. Na semana passada, um comitê de ação política que apoia os democratas lançou novos anúncios de ataque. Um deles destaca as negociações de ações da deputada Victoria Spartz, republicana de Indiana, e de sua família, que, segundo a peça, acompanharam "políticas que encarecem a vida" dos eleitores. A estratégia democrata liga o enriquecimento de políticos e o uso de informações privilegiadas ao custo de vida.
Do outro lado, um comitê que apoia os republicanos veiculou um anúncio chamando Troy Jackson, democrata que desafia a senadora Susan Collins, do Maine, de "corrupto demais" para o Estado, porque seu filho é lobista.
O rótulo hoje abrange acordos secretos de confidencialidade com centros de dados, a guerra no Irã e a redefinição de distritos de maioria negra depois que a Suprema Corte enfraqueceu a Lei dos Direitos de Voto. Chaz Molder, prefeito democrata de Columbia, no Tennessee, e candidato à Câmara, teve seu distrito retirado da região central do estado onde concorria. "Temos políticos tentando escolher os eleitores em vez de os eleitores escolherem os políticos", disse. "Isso é corrupção." A novidade mais recente é a tentativa de democratas de congestionar a cédula do Alasca, que traz quatro candidatos com nomes capazes de desviar votos do senador republicano Dan Sullivan, entre eles um desafiante chamado Dan Sullivan.
Para alguns eleitores, a mensagem parece pegar mais do que antes. Steve Wiegard, de 46 anos, que trabalha numa empresa de segurança contra incêndio em Olive Branch, no Mississippi, disse que a questão está mais explícita. "Penso nisso todos os dias", contou.
Outros não se deixaram mover. Juan Pino, cozinheiro de 51 anos na Flórida, disse que o argumento não o convenceu; votou em todos os democratas porque, segundo ele, sempre vota assim. James Shively, dono de uma empresa de paisagismo, considera os dois partidos pouco confiáveis e votou nos republicanos porque, nas palavras dele, "os democratas são socialistas". Jonathan Castro, especialista em recursos humanos sem filiação partidária, votou nos democratas por achar as políticas de imigração de Trump draconianas demais. Nenhum dos dois disse que o voto dependeu da corrupção.
O retrato é de um tema que ganhou espaço, mas disputa a atenção com inflação, guerra e segurança pessoal. Resta ver se pesará o bastante em disputas como as da Flórida, do Maine e do Alasca.
Citations marquantes
Agora está mais às claras. Penso nisso todos os dias.— Steve Wiegard, 46, eleitor de Olive Branch, Mississippi
Temos políticos tentando escolher os eleitores em vez de os eleitores escolherem os políticos.— Chaz Molder, prefeito democrata de Columbia, Tennessee