Num país que guarda uma das maiores reservas de urânio do mundo, mas ainda depende de serviços estrangeiros para transformar o minério em combustível, uma corrida silenciosa se organiza antes mesmo de existirem as regras do jogo. Ex-dirigentes do governo Bolsonaro, empresas nacionais e grupos estrangeiros, alguns com laços com a Rússia, mapeiam áreas onde o urânio aparece junto às terras raras, enquanto o decreto que definiria como o setor poderá receber parceiros privados segue sem data. O que se desenha é uma disputa sobre quem controlará uma riqueza estratégica de longo prazo, e o silêncio
Corrida pelo urânio brasileiro atrai grupos estrangeiros e ex-integrantes do governo Bolsonaro
Cinco grupos se posicionam antes de existir regra para o urânio
Por que cinco grupos se mexem se nem existe decreto?
Porque quem chega primeiro às áreas e à relação com a INB ganha posição. A Atlas diz isso abertamente: avalia áreas antecipando mudanças na lei.
E o peso dos nomes ligados ao governo Bolsonaro?
A Diamante tem Bento Albuquerque e Ney Zanella, que conhecem o setor por dentro, e fez sociedade com a russa Rosatom na Nadina Minerals.
Vale separar: a reportagem mostra a associação e a viagem à Rússia em maio, mas não diz que haja contrato ou vantagem concedida.
E os números de produção?
A BRE projeta 466 toneladas anuais de concentrado.
É projeção de estudo preliminar, e a própria empresa diz que se refere a uma operação futura integrada, não à planta-piloto. O memorando com a INB também é não vinculante.
E os irmãos Batista?
Isso é especulação de mercado. Eles negam interesse em exploração mineral; o fato confirmado é o contrato de R$ 535 milhões pela fatia na Eletronuclear.
O que falta é o decreto. O governo diz que segue em análise, e o BNDES só prevê propostas até o segundo trimestre de 2027.
E a maioria das empresas não respondeu à Folha, então as intenções vêm sobretudo de comunicados próprios.
Il Polso
- Cinco grupos nacionais e estrangeiros já disputam áreas com potencial de urânio, muitas vezes sobrepostas a projetos de terras raras.
- Ex-ministro e ex-presidente da ENBPar aparecem ao lado de uma associação com a russa Rosatom, levantando questões sensíveis de soberania.
- A Atlas declara 39 processos minerários com 143,7 mil hectares, registrados para outros minerais e avaliados, segundo a própria empresa, por antecipação a mudanças legislativas.
- O decreto regulador segue sem definição e a Casa Civil confirma apenas que o tema está em discussão, enquanto o BNDES só deve receber propostas de modelagem até o segundo trimestre de 2027.
Num país que guarda uma das maiores reservas de urânio do mundo, mas ainda depende de serviços estrangeiros para transformar o minério em combustível, uma corrida silenciosa se organiza antes mesmo de existirem as regras do jogo. Ex-dirigentes do governo Bolsonaro, empresas nacionais e grupos estrangeiros, alguns com laços com a Rússia, mapeiam áreas onde o urânio aparece junto às terras raras, enquanto o decreto que definiria como o setor poderá receber parceiros privados segue sem data. O que se desenha é uma disputa sobre quem controlará uma riqueza estratégica de longo prazo, e o silêncio normativo deixa esse destino em aberto.
Em maio, dois ex-dirigentes do governo Jair Bolsonaro, Bento Albuquerque, ex-ministro de Minas e Energia, e Ney Zanella dos Santos, ex-presidente da ENBPar, visitaram uma unidade de produção de concentrado de urânio na Rússia. Com eles estava Pedro Kassab, vice-presidente do grupo Diamante. A viagem sinaliza uma disputa que começa antes que as regras estejam prontas.
Uma apuração da Folha identificou ao menos cinco grupos posicionados no negócio: Diamante, Atlas Critical Minerals, Core Energy Minerals, BRE e Energy Fuels. Hoje a exploração é monopólio da União, exercido pela INB, e uma lei de 2022 abriu espaço para parcerias privadas, mas o decreto que detalharia essas parcerias nunca saiu. A Diamante, por meio da NBEPar, associou-se à russa Rosatom na Nadina Minerals, que pretende recuperar urânio com soluções químicas injetadas em depósitos subterrâneos.
A Atlas declarou 39 processos com potencial de urânio, registrados originalmente para outros minerais. A BRE quer aproveitar o urânio do projeto Monte Alto, na Bahia, e prevê produção indicativa para depois de 2027, sem contrato de venda com a INB. Já a INB, que extrai urânio em Caetité, ainda depende do exterior para conversão e parte do enriquecimento, e o material só retorna para virar combustível de Angra.
O decreto segue sem data. O ministro prometeu uma política em 2026, promessa que não se cumpriu. Enquanto isso, o BNDES conduz estudos do Pró-Urânio, e a parceria com a Galvani em Itataia, no Ceará, aguarda licenciamento. O futuro do urânio brasileiro segue sendo desenhado por quem chega primeiro.
Em maio, dois ex-dirigentes do governo Jair Bolsonaro visitaram uma unidade de produção de concentrado de urânio na Rússia. Eram Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia de 2019 a 2022, e Ney Zanella dos Santos, ex-presidente da ENBPar, estatal que controla a INB e representa a União na Eletronuclear. Com eles estava Pedro Kassab, vice-presidente do grupo Diamante e sobrinho de Gilberto Kassab, presidente do PSD. A viagem é um dos sinais de uma disputa que se organiza antes mesmo de as regras existirem.
Um levantamento da Folha, feito com dados da Agência Nacional de Mineração, informações das empresas e comunicados que elas divulgaram no exterior, identificou ao menos cinco grupos nacionais e estrangeiros posicionados no negócio do urânio: Diamante, Atlas Critical Minerals, Core Energy Minerals, BRE (Brazilian Rare Earths) e Energy Fuels. Os projetos vão da pesquisa mineral à recuperação de urânio associado às terras raras, passando por microrreatores e geração de eletricidade.
Hoje a exploração do urânio é monopólio da União, exercido pela INB (Indústrias Nucleares do Brasil). Uma lei sancionada em dezembro de 2022 ampliou a possibilidade de parcerias com empresas privadas, sem acabar com o monopólio. O setor aguarda um decreto federal que detalhe como esses negócios funcionarão.
A Diamante reuniu Albuquerque, que preside o conselho, e Zanella, que comanda a NBEPar, empresa criada em 2024 para organizar os negócios nucleares do grupo. Por meio dela, associou-se à russa Rosatom para formar a Nadina Minerals, voltada a projetos de mineração no Brasil, urânio incluído. A ideia é trazer uma tecnologia que recupera o minério com soluções químicas injetadas em depósitos subterrâneos. O grupo também controla desde 2025 a Terminus, que desenvolve um microrreator nuclear com apoio da Finep, de universidades e de instituições de pesquisa.
A Atlas Critical Minerals, constituída nas Ilhas Marshall, com sede operacional em Belo Horizonte e ações na Nasdaq, declarou em fevereiro ter 39 processos minerários com potencial de urânio, que somam 143,7 mil hectares. As áreas estavam registradas para outros minerais, como terras raras, cobre, grafita e fosfato. A própria empresa afirma, em comunicado, que avalia essas áreas "antecipando potenciais mudanças legislativas". A australiana Core Energy Minerals tem três projetos de urânio, em Amorinópolis (GO), São José (PB) e Grande (RS), com cerca de 320 km² no primeiro e 364,5 km² no último, e faz reconhecimento geológico, coleta de amostras e medições de radioatividade.
A BRE quer aproveitar o urânio encontrado junto às terras raras do projeto Monte Alto, na região de Ubaíra e Jiquiriçá (BA), com processamento em Camaçari. Pretende produzir yellowcake, concentrado que ainda precisa de outras etapas para virar combustível. O estudo preliminar projeta média de 466 toneladas anuais, chegando a 540 nos cinco primeiros anos de produção estável. A empresa diz que esses volumes se referem à futura operação integrada, não à planta-piloto, e que o segundo trimestre de 2027 é prazo indicativo para a segunda etapa, não para produção comercial. Afirma ainda que o memorando de maio de 2024 com a INB é não vinculante e não equivale a contrato de venda. A canadense Energy Fuels, com operações nos EUA, descreve seu Projeto Bahia, iniciado em 2023, como pesquisa em estágio inicial de areias minerais pesadas, interessada em monazita com terras raras e urânio. No mercado, especula-se sobre os irmãos Joesley e Wesley Batista, que anunciaram em outubro de 2025 contrato de R$ 535 milhões para comprar a fatia da Eletrobras na Eletronuclear. Joesley visitou a planta da INB em Caetité (BA), mas eles negam interesse em exploração mineral.
Todos miram uma cadeia em que o país depende de serviço externo. A INB extrai urânio em Caetité e produz o concentrado, mas contrata no exterior a conversão em gás e parte do enriquecimento. Resende (RJ) enriquece, sem atender toda a demanda. O material volta à INB para virar pó, pastilhas e conjuntos de combustível para Angra.
O decreto segue sem data. O ministro Alexandre Silveira prometeu em outubro de 2025 uma nova política e debate público em 2026, o que não ocorreu. Em fevereiro, o ministério dizia que o texto iria à Casa Civil; em agosto, ainda era discutido entre áreas técnicas, e a Casa Civil reitera que está em discussão. Paralelamente, a INB, a ENBPar e o BNDES tocam o Pró-Urânio: o banco escolheu em agosto o consórcio dos estudos, com propostas previstas até o segundo trimestre de 2027, e só depois poderá haver seleção de parceiros privados. Já existe a parceria com a Galvani, via Fosnor, em Itataia (CE), que combina fosfato e urânio, ainda sem licenciamento; a meta da INB é 2.300 toneladas anuais de concentrado.
Citazioni salienti
A proposta relacionada ao setor de urânio segue em discussão entre áreas técnicas do governo.— Casa Civil da Presidência da República
O memorando não vinculante não equivale a contrato definitivo de venda ou autorização para produção comercial.— BRE (Brazilian Rare Earths)