Em ano eleitoral, o economista José Sergio Gabrielli, coordenador do programa de governo de Lula, propõe que o Tesouro Nacional recompre títulos públicos para conter juros de longo prazo e defende alíquotas mais altas para os super-ricos — posições que revelam uma tensão antiga entre a lógica do mercado financeiro e a visão de que a dívida brasileira é alimentada não pelo gasto, mas pelo próprio custo do dinheiro. Suas declarações provocaram o chamado 'efeito Gabrielli', obrigando o ministério da Fazenda a intervir para acalmar os mercados, e expõem as fraturas internas de uma campanha que ain
Coordenador de Lula defende recompra de títulos e aumento de imposto para super-ricos
O problema não é gasto descontrolado, é juros que sufocam
Por que Gabrielli insiste em recompra de títulos se o mercado resiste tanto a essa ideia?
Porque ele vê o problema diferente. Para o mercado, a dívida é um sintoma de gastos altos. Para Gabrielli, é um sintoma de juros altos. Se você acredita na segunda versão, a recompra faz sentido — você está tratando a causa, não o sintoma.
Mas por que o governo não fala isso publicamente, se acredita nisso?
Porque o mercado tem poder. Quando Gabrielli fala, as coisas se mexem — não para melhor, do ponto de vista dos investidores. O ministério da Fazenda precisa consertar o estrago. É mais fácil deixá-lo falar baixo.
Então a campanha está dividida?
Não dividida. Mais como... em tensão. Gabrielli representa uma ala que quer mudar a estrutura. O resto do governo precisa conviver com o mercado todos os dias.
E o imposto para super-ricos? Isso é consenso?
Parece ser. Ninguém está discordando publicamente. Mas é fácil concordar com algo que só vai acontecer depois da eleição.
O que muda se Gabrielli conseguir o que quer?
Os juros caem, a dívida fica mais sustentável, e a narrativa muda de "o governo gasta demais" para "o governo paga demais por dinheiro". É uma reescrita completa da história.
Der Puls
- Gabrielli defende que o Tesouro compre seus próprios títulos para forçar a queda dos juros longos — uma aposta de que o problema fiscal brasileiro é de custo da dívida, não de excesso de gasto.
- A proposta colide frontalmente com o setor privado e com a mídia financeira, que exigem corte de despesas como condição para estabilidade — criando um campo de batalha narrativo em plena campanha eleitoral.
- A campanha de Lula já discute internamente elevar ainda mais o imposto de renda dos super-ricos além das mudanças que entraram em vigor em 2026, sinalizando uma agenda redistributiva para um eventual terceiro mandato.
- O 'efeito Gabrielli' — o impacto de suas falas sobre o mercado — forçou o ministro Dario Durigan a agir para conter danos, revelando que o coordenador do programa fala mais alto do que a campanha gostaria.
- Desde junho, Gabrielli não é escalado para falar oficialmente pela campanha, mas continua influenciando o debate público, tornando visível a fratura entre o que o governo pensa e o que ousa dizer.
Em ano eleitoral, o economista José Sergio Gabrielli, coordenador do programa de governo de Lula, propõe que o Tesouro Nacional recompre títulos públicos para conter juros de longo prazo e defende alíquotas mais altas para os super-ricos — posições que revelam uma tensão antiga entre a lógica do mercado financeiro e a visão de que a dívida brasileira é alimentada não pelo gasto, mas pelo próprio custo do dinheiro. Suas declarações provocaram o chamado 'efeito Gabrielli', obrigando o ministério da Fazenda a intervir para acalmar os mercados, e expõem as fraturas internas de uma campanha que ainda busca equilibrar convicções heterodoxas com a confiança do setor privado.
José Sergio Gabrielli, economista que coordena o programa de governo para a reeleição de Lula, propõe que o Tesouro Nacional entre no mercado de títulos públicos para pressionar os juros de longo prazo para baixo. A estratégia não é inédita: em março deste ano, o Tesouro comprou quase R$ 30 bilhões em títulos na maior operação do tipo desde a pandemia. Gabrielli cita ainda o exemplo recente dos Estados Unidos, que adotou movimento semelhante. Para ele, o verdadeiro motor da dívida brasileira não são os gastos, mas os encargos de juros que a alimentam — uma leitura que o coloca em rota de colisão com o mercado financeiro e com a narrativa dominante na mídia.
Além da recompra de títulos, o economista defende que a campanha prepare o terreno para elevar novamente o imposto de renda dos super-ricos em um eventual próximo mandato. Mudanças já entraram em vigor em 2026, mas Gabrielli sugere ir além, aumentando as alíquotas para as maiores rendas. Segundo ele, a campanha já discute essas possibilidades internamente.
O que torna o cenário mais complexo é o rastro político que suas declarações deixam. Suas críticas ao arcabouço fiscal provocaram o chamado 'efeito Gabrielli', forçando o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a intervir para conter os danos no mercado. Desde uma entrevista à Folha em junho, Gabrielli não tem sido escalado para falar oficialmente pela campanha — mas continua moldando o debate. A tensão entre o que ele defende e o que o governo comunica oficialmente revela as fraturas de uma campanha que ainda busca conciliar convicções heterodoxas com a confiança do setor privado em ano eleitoral.
José Sergio Gabrielli, o economista que coordena o programa de governo para a reeleição do presidente Lula, está propondo que o Tesouro Nacional entre no mercado de títulos públicos para pressionar para baixo os juros de longo prazo. A ideia não é nova no Brasil — é uma ferramenta de estabilização usada quando o mercado funciona mal. Em março deste ano, o Tesouro comprou quase R$ 30 bilhões em títulos justamente por isso, a maior operação dessa natureza desde 2020, quando a pandemia foi declarada. Gabrielli, que presidiu a Petrobras, vê nessa estratégia um caminho para conter a escalada de custos financeiros que, em sua visão, está sufocando as contas públicas.
Ele cita o exemplo recente dos Estados Unidos, que anunciou uma operação semelhante na semana anterior. A lógica é simples: quando o governo compra seus próprios títulos, reduz a oferta no mercado e, teoricamente, faz os juros caírem. Para Gabrielli, o problema da dívida brasileira não está em gastos descontrolados, mas nos encargos de juros que a alimentam — uma posição que o coloca em rota de colisão com o setor privado, que insiste em austeridade fiscal como solução.
Além da recompra de títulos, Gabrielli defende que a campanha de Lula prepare o terreno para elevar novamente o imposto de renda dos super-ricos em um eventual próximo mandato. Mudanças já entraram em vigor em 2026, mas ele sugere ir além, aumentando as alíquotas para as maiores rendas. A campanha, segundo ele, já discute essas possibilidades internamente.
O economista não poupou críticas a um editorial publicado pela Folha na capa de 16 de agosto, que cobrava medidas urgentes de redução de despesas federais para evitar uma crise fiscal. Gabrielli afirmou que o texto colocava o Brasil "à beira do caos", uma resposta que revela a tensão entre sua visão de política econômica e a narrativa dominante no mercado financeiro e na mídia.
O que torna essa história particularmente interessante é o que aconteceu depois. Embora Gabrielli seja o coordenador do programa de governo, ele não tem sido escalado para falar em nome da campanha desde uma entrevista à Folha em junho. Suas críticas ao arcabouço fiscal — o regime de limites de gastos do governo — provocaram o que ficou conhecido como "efeito Gabrielli", forçando o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a tentar conter os danos no mercado. A tensão entre o que o economista defende e o que o governo oficialmente comunica revela fraturas na forma como Lula e sua equipe estão navegando a economia em ano de campanha.
Bemerkenswerte Zitate
Gabrielli afirmou que editorial da Folha colocava o Brasil à beira do caos— José Sergio Gabrielli, coordenador do programa de governo de Lula