Em conversas reservadas, o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, defende a redução do poder do Congresso sobre o Orçamento — uma posição que ecoa, paradoxalmente, as queixas do presidente Lula sobre o mesmo tema. A ironia é densa: foi justamente durante o governo de Jair Bolsonaro que esse poder legislativo sobre os recursos federais mais se expandiu. Há, nesse movimento, uma verdade antiga sobre o poder: quem está fora do Executivo sempre enxerga o Congresso como obstáculo; quem está dentro do Legislativo jamais abre mão de suas ferramentas.
Coordenador de Flávio Bolsonaro defende redução do poder do Congresso sobre Orçamento
Nada como a perspectiva de assumir o governo
Por que um coordenador de campanha estaria falando sobre isso agora, em conversas privadas? Não é estranho vazar esse tipo de posição?
Não é exatamente um vazamento — é mais como sinalizar. Quando você está construindo uma candidatura, precisa mostrar que tem ideias sobre como governar. Isso chega aos jornalistas porque faz parte do jogo.
Mas a gente sabe que Marinho está tendo essas conversas? Quem confirmou isso? O texto diz que ele "anda defendendo em conversas reservadas", mas não cita fonte.
Boa pergunta. A coluna não especifica quem ouviu isso. É o tipo de informação que circula nos bastidores de Brasília.
E por que isso importa agora? Flávio nem é candidato confirmado ainda.
Importa porque mostra como ele está pensando. E porque toca em um ponto que divide até Lula e Bolsonaro — o poder sobre o dinheiro público.
Espera — o texto diz que isso é "ponto em comum com Lula", mas Lula está no governo agora. Ele conseguiu reduzir o poder do Congresso sobre o Orçamento?
Não, na verdade não. Lula se queixa disso, mas o Congresso mantém o poder. É por isso que é tão sensível — ninguém conseguiu resolver.
Então Marinho está prometendo algo que até o presidente não conseguiu fazer?
Exatamente. É uma promessa fácil de fazer quando você está fora do poder.
E os números? Quanto as emendas representam do Orçamento? Quantos parlamentares dependem delas?
O texto não diz. Só deixa claro que é um tema que os parlamentares não vão largar fácil.
Il Polso
- Marinho defende nos bastidores o encolhimento das emendas parlamentares, proposta que coloca em rota de colisão a campanha de Flávio Bolsonaro com os próprios aliados no Congresso.
- A convergência com a posição de Lula cria um paradoxo político incômodo: o campo bolsonarista criticando uma estrutura que o próprio governo Bolsonaro ajudou a construir.
- Parlamentares de todos os partidos resistirão ferozmente a qualquer tentativa de reduzir emendas, pois elas são a principal moeda de poder, lealdade e reeleição no Legislativo.
- A sinalização de Marinho funciona como mensagem eleitoral sobre eficiência e centralização, mas a promessa esbarra num obstáculo estrutural: convencer o Congresso a votar contra si mesmo.
Em conversas reservadas, o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, defende a redução do poder do Congresso sobre o Orçamento — uma posição que ecoa, paradoxalmente, as queixas do presidente Lula sobre o mesmo tema. A ironia é densa: foi justamente durante o governo de Jair Bolsonaro que esse poder legislativo sobre os recursos federais mais se expandiu. Há, nesse movimento, uma verdade antiga sobre o poder: quem está fora do Executivo sempre enxerga o Congresso como obstáculo; quem está dentro do Legislativo jamais abre mão de suas ferramentas.
Rogério Marinho, senador e coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, tem circulado nos bastidores com uma ideia politicamente explosiva: reduzir o poder do Congresso sobre o Orçamento, diminuindo as emendas parlamentares e devolvendo ao Executivo o controle sobre esses recursos.
A ironia é difícil de ignorar. A posição de Marinho converge com as queixas que o presidente Lula faz há anos sobre o avanço do Legislativo sobre o Orçamento — avanço que se aprofundou, precisamente, durante o governo de Jair Bolsonaro, padrinho político de Flávio. O timing revela uma lógica conhecida: quem está no Executivo vê o Congresso como uma força que consome recursos; quem está no Legislativo enxerga as emendas como instrumento essencial de poder e sobrevivência política.
O problema prático é considerável. Deputados e senadores de qualquer partido dificilmente abrirão mão das verbas conquistadas nos últimos anos — elas são a ferramenta com que atendem suas bases, financiam campanhas e garantem reeleição. Nenhum legislador votará contra esse interesse sem resistência.
Ao defender essa posição, Marinho envia uma mensagem ao eleitorado sobre como Flávio governaria: de forma mais centralizada, menos dependente das negociações fragmentadas do Congresso. É uma promessa de eficiência — mas que só poderia ser cumprida com a cooperação do mesmo Congresso que a proposta pretende limitar.
Rogério Marinho, o senador que coordena a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, tem defendido nos bastidores uma ideia que parece simples em teoria mas é explosiva na prática: tirar do Congresso parte do poder que conquistou sobre o Orçamento. Em conversas privadas, ele argumenta que as emendas parlamentares — aquela fatia das verbas federais que cada deputado e senador consegue direcionar — deveriam encolher, devolvendo ao Executivo o controle sobre esses recursos.
Há algo de irônico nisso. Marinho fala como quem está prestes a assumir o governo, e de fato essa é uma posição que Lula também defende. O presidente se queixa há tempos do avanço do Legislativo sobre o Orçamento, uma reclamação que começou na campanha de 2022 e só cresceu desde então. A diferença é que esse avanço do Congresso se aprofundou justamente durante o governo de Jair Bolsonaro — o antecessor de Lula e o padrinho político de Flávio.
O timing revela algo sobre como os candidatos pensam quando estão fora do poder. Quando você está no Executivo, o Congresso parece uma fera incontrolável que devora recursos que você gostaria de gastar. Quando você está no Legislativo, aquelas emendas são o seu instrumento de poder, a moeda com a qual você compra lealdade, financia campanhas, atende sua base. Marinho conhece bem os dois lados dessa moeda.
Mas há um problema político real aqui. Os parlamentares — todos eles, de qualquer partido — dificilmente vão abrir mão das verbas que conseguiram nos últimos anos. Essas emendas se tornaram parte da estrutura de poder no Congresso. Um deputado que perde a capacidade de trazer recursos para sua região perde também uma ferramenta fundamental de reeleição. Nenhum legislador vai aceitar isso sem uma luta.
O que Marinho está fazendo é sinalizar para o eleitorado que, se eleito, Flávio teria uma visão diferente sobre como o governo federal deveria funcionar — mais centralizado, menos disperso entre as negociações do Congresso. É uma mensagem sobre eficiência, sobre quem manda. Mas é também uma promessa que será muito difícil cumprir, porque depende de convencer o mesmo Congresso que ele está criticando a votar contra seus próprios interesses.
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Rogério Marinho defende em conversas reservadas a redução do poder do Congresso sobre o Orçamento— Lauro Jardim, O Globo