Há uma tensão antiga entre o que aceitamos como inevitável e o que escolhemos transformar — e o sofrimento humano vive exatamente nessa fronteira. O psicanalista Christian Dunker observa que, ao contrário de uma pedra, a experiência do adoecimento mental é moldada pelas narrativas que a descrevem, tornando a política inseparável da saúde. No Brasil, o projeto constitucional de bem-estar universal enfrenta não apenas escassez de recursos, mas uma inversão filosófica: o neoliberalismo converteu o sofrimento de algo a ser evitado em ferramenta de produtividade. Diante disso, a pergunta que perman
Como teorias da transformação moldam nosso sofrimento e política
A narrativa que construo sobre mim altera quem eu sou e como sofro
Como uma descrição de sofrimento pode alterar o próprio sofrimento? Isso não parece um pouco místico?
Não é místico, é constitutivo. Quando você diz "tenho depressão", essa narrativa muda como você experimenta seus dias, quem você se torna, o que espera de si mesmo. Diferentemente de uma pedra, que é pedra independentemente do nome que lhe damos.
Mas então o sofrimento é só linguagem? Só narrativa?
Não só. É que na saúde mental a narrativa não descreve uma realidade pré-existente — ela a cria. A linguagem e a experiência estão entrelaçadas de um jeito que não acontece em outras áreas médicas.
E o que isso tem a ver com política?
Tudo. Os discursos políticos contêm teorias sobre como as coisas mudam. Se você acredita que o problema é uma "maçã podre" que precisa ser eliminada, você sofre de um jeito. Se acredita que o problema é estrutural, você sofre de outro. A política molda o sofrimento.
Você está dizendo que o neoliberalismo não apenas explora o sofrimento, mas o cultiva deliberadamente?
Exatamente. O Estado de Bem-Estar Social tentava proteger as pessoas do sofrimento. O neoliberalismo inverte isso: estimula o sofrimento como ferramenta de produtividade. Cria competição, precariedade, humilhação — tudo para extrair mais trabalho.
Como saímos disso?
Começando pelo comum. Pela escuta. Pela intimidade compartilhada. Não por mais leis ou líderes mais fortes, mas por recuperar a capacidade de reconhecer que o sofrimento nos torna comuns, não diferentes.
Der Puls
- O sofrimento psíquico no Brasil não é apenas um problema clínico — é uma epidemia alimentada por estruturas de trabalho precário, humilhação sistemática e abandono institucional.
- O desmanche planejado do SUS não é acidente fiscal: representa a reversão deliberada de um projeto que tratava o sofrimento como algo a ser protegido, não explorado.
- Discursos políticos como a teoria das 'maçãs podres' produzem uma relação específica com o próprio sofrimento — projetando o mal para fora e bloqueando qualquer transformação real.
- O circuito afetivo da sociedade brasileira migrou do medo e da inveja para o ódio e a intolerância, empobrecendo a imaginação coletiva e alimentando demandas por líderes mais duros.
- Uma saída possível emerge não das grandes instituições, mas de uma política menor: a recuperação da escuta, da fala e da intimidade como formas de reconhecer o que é comum a todos.
Há uma tensão antiga entre o que aceitamos como inevitável e o que escolhemos transformar — e o sofrimento humano vive exatamente nessa fronteira. O psicanalista Christian Dunker observa que, ao contrário de uma pedra, a experiência do adoecimento mental é moldada pelas narrativas que a descrevem, tornando a política inseparável da saúde. No Brasil, o projeto constitucional de bem-estar universal enfrenta não apenas escassez de recursos, mas uma inversão filosófica: o neoliberalismo converteu o sofrimento de algo a ser evitado em ferramenta de produtividade. Diante disso, a pergunta que permanece é se ainda é possível construir uma política fundada no reconhecimento do comum — e não na exploração da dor.
Existe uma conexão antiga entre o ambiente e o estado mental — e ela revela algo essencial: há coisas que devemos aceitar e coisas que podemos transformar. O psicanalista Christian Dunker parte dessa tensão para mostrar que a saúde mental obedece a uma lógica distinta da medicina física. Uma pedra permanece pedra independentemente de como a descrevemos. Mas o sofrimento humano muda conforme a narrativa que o envolve — quem pode sofrer, como, e por quê. A descrição não apenas nomeia a experiência: ela a constitui.
Quando a OMS redefiniu saúde como "o mais completo estado de bem-estar bio-psico-social", não criou apenas uma convenção — inventou uma nova experiência. E os discursos políticos operam da mesma forma: não apenas convencem, mas produzem teorias de transformação. A teoria das "maçãs podres", por exemplo, não é só uma tese sobre corrupção — é uma relação com o próprio sofrimento, que localiza o mal fora de nós e aposta na cura pela exclusão.
O Brasil construiu, com a Constituição de 1988 e o SUS, um projeto ambicioso de saúde universal. Mas esse projeto sempre conviveu com subfinanciamento grave — entre 3% e 5% do PIB, enquanto países europeus chegam a 20%. E desde os anos 1970, com o neoliberalismo implantado no Chile de Pinochet, infiltrou-se uma inversão silenciosa: em vez de proteger a população do sofrimento, passou-se a estimulá-lo como motor de produtividade. Demissões periódicas para criar clima paranoico, metas impossíveis, trabalhos precários e intermitentes — tudo isso converte humilhação em resultado, com efeito colateral epidêmico em depressão e suicídio.
O desmanche do SUS, portanto, não é apenas consequência de austeridade fiscal. Depende dessa reversão: transformar o sofrimento de algo a ser evitado em técnica de gestão. A ironia, observa Dunker, é que os defensores dessa máquina serão os mesmos que um dia se queixarão de ter virado bagaço.
Diante disso, o Brasil deslocou seu circuito afetivo do medo e da inveja para o ódio e a intolerância. A resposta dominante tem sido pedir mais leis, instituições mais duras, líderes mais poderosos. Mas há outro caminho: uma política menor, que começa no cotidiano — na recuperação da escuta, na reinvenção da intimidade como partilha do desconhecido, no reconhecimento do que é comum. Escolher o que fazer com o próprio sofrimento é, ao mesmo tempo, uma escolha ética e política.
Há séculos observamos uma conexão entre o clima e nosso estado mental. Hipócrates acreditava que a melancolia começava na primavera; os britânicos temem a chegada do inverno. Mas essa relação entre temperatura e temperamento revela algo mais profundo: ambas nos colocam diante de uma escolha fundamental entre o que devemos aceitar como dado — chuva ou sol — e o que podemos transformar segundo nossos desejos.
Christian Ingo Lenz Dunker, psicanalista e professor da USP, observa que a saúde mental obedece a uma lógica diferente da física. Uma pedra permanece pedra, independentemente de como a descrevemos, que idioma usamos ou quais elementos químicos nela encontramos. Mas quando digo que meu vizinho é um "louco de pedra" ou leio um poema que me descreve como "uma pedra largada ao sol", algo muda. A narrativa que construo sobre mim mesmo e sobre os outros altera quem eu sou e como sofro. Diferentemente de outras áreas médicas, onde a descrição do sintoma é separada do sintoma em si, na saúde mental a descrição constitui a própria experiência. O filósofo Ian Hacking mostrou como as ciências sociais literalmente criam as pessoas e doenças que afirmam curar.
Quando a Organização Mundial de Saúde redefiniu saúde não como "ausência de doença" mas como "o mais completo estado de bem-estar bio-psico-social", isso não foi apenas uma convenção normativa. Foi a invenção de uma nova experiência de saúde. Doravante, não basta estar saudável como uma pedra; é preciso sentir-se e interpretar-se como saudável. O sofrimento depende tanto da narrativa que construímos sobre ele quanto de uma gramática de reconhecimento — de quem pode sofrer, como, e por quê.
Os discursos políticos contêm necessariamente teorias de transformação. Não tentam apenas nos convencer de que uma tese é melhor que outra, mas que as mudanças no mundo ocorrem segundo uma causalidade específica: pela graça divina ou pelo trabalho dos homens, pela eliminação de agentes tóxicos ou pela reorganização das estruturas. A teoria das "maçãs podres" — a ideia de que o problema do país é a corrupção e que tudo melhorará quando limparmos a casa — não envolve apenas uma concepção sobre instituições. Ela produz uma relação específica conosco mesmos, com o cuidado que damos ao nosso sofrimento. É análoga a pensar que o problema da sua vida são aqueles "quilinhos a mais" ou que o que precisa mudar no seu marido é aquela "cervejinha de fim de semana". A teoria da purificação pensa a transformação como eliminação do agente maligno. O mal vem de fora, não depende de nós, não foi criado por nós. Por isso a cura virá pela exclusão.
O Brasil criou, com a Constituição de 1988 e o Sistema Único de Saúde dois anos depois, um projeto ambicioso: levar saúde de forma universal, integral e equitativa para todos. Depois vieram a reforma psiquiátrica e o Sistema Único de Assistência Social. Essa generalização da cobertura de saúde, antes restrita aos que trabalhavam, incorporou a mutação do conceito de saúde. Mas esse projeto convive com financiamento de apenas 3% a 5% do PIB, enquanto países europeus chegam a 20% e a média africana é de 9%. O Estado de Bem-Estar Social surgiu no pós-guerra, respondendo à preocupação ancestral do Estado com epidemias e com o adoecimento dos trabalhadores que prejudica a produtividade. Era preciso proteger a população do sofrimento porque ele diminui o engajamento, aumenta o absenteísmo, altera a ocupação de postos de trabalho.
Mas entre a criação da aposentadoria por Bismarck, um ano após a abolição da escravidão, e a criação do SUS vinte anos depois do "verão na praia" — símbolo da realização do estado de bem-estar social — infiltrou-se uma mudança inesperada. Em 1974, o neoliberalismo foi implantado pela primeira vez no Chile de Pinochet, no contexto do golpe de 1973. Não é apenas a defesa da diminuição do Estado; traz consigo uma nova política para o sofrimento. Por que não estimular o sofrimento como motor do aumento de produtividade? Por que não demitir 10% dos empregados anualmente apenas para criar um clima paranoico? Por que não fazer departamentos competirem entre si? Por que não valorizar trabalhadores maníacos que se dedicam com sangue nos olhos? Por que não dar mais trabalho do que a pessoa pode aguentar, aproveitando-se de seu sentimento de culpa e inadequação? Por que não criar trabalhos precários e intermitentes, como os de telemarketing ou caminhoneiros, de modo que a humilhação e agressividade contida se converta em mais resultados, ainda que com efeito colateral epidêmico em depressão e suicídio?
O desmanche do SUS, sua asfixia planejada, não é apenas parte de uma época de "vacas magras". Depende dessa reversão do sofrimento: de algo a ser evitado para nossa aceitação tácita de que é preciso fazer sofrer, desenvolver técnicas de sofrimento em estrutura de gestão, para extrair mais e melhor resultados produtivos. A ironia maior é que aqueles que defendem essa máquina de moer carne serão os mesmos que amanhã se queixarão por ter virado bagaço de cana.
O Brasil constituiu uma nova valência política para o sofrimento, deslocando seu circuito de afetos do medo e da inveja para o ódio e a intolerância. Reagimos empobrecendo nossa imaginação política, apelando por mais leis, instituições mais duras, líderes mais poderosos. Mas há outra resposta possível: uma política menor que comece no cotidiano miúdo da recuperação da escuta e da fala, capaz de reinventar a experiência da intimidade como partilha do desconhecido. Contra a soberba dos convictos e a guerra das identidades é preciso uma retomada do comum. Descobrir que o mais íntimo está fora de nós. Lembrar que nossa identidade não é o último capital humano que nos resta. Suspender a equação que nos faz pensar que o Estado é dono do espaço público assim como o mercado é a única lei dos espaços privados. Entre o desabrigo de um e a precarização do outro é necessária uma nova política para o sofrimento. Ela começa pelo reconhecimento do comum e da intimidade. Escolher o que fazer com seu sofrimento é uma escolha ética e também política.
Bemerkenswerte Zitate
Na saúde mental, a descrição que o paciente faz dos sintomas altera ou constitui os sintomas eles mesmos— Christian Ingo Lenz Dunker
O desmanche do SUS depende da reversão do sofrimento: de algo a ser evitado para nossa aceitação tácita de que é preciso fazer sofrer para extrair resultados produtivos— Christian Ingo Lenz Dunker