Quando o medo sobe, os eleitores procuram por alguém que prometa ordem
Nas urnas da América Latina, o medo tem se revelado uma força eleitoral mais poderosa do que qualquer ideologia: em 70% das eleições recentes, venceu quem prometeu ordem. Esse fenômeno — batizado de 'bukelização' em referência ao modelo autoritário de El Salvador — revela como a violência cotidiana vivida por milhões de cidadãos se converte em mandato político para governos de mão dura. A história nos lembra que sociedades que trocam liberdades por segurança raramente recuperam as primeiras com facilidade, e que o verdadeiro teste de qualquer governo não está na promessa da campanha, mas na realidade das ruas depois da posse.
- A criminalidade crescente na América Latina não é apenas um problema de segurança pública — está remodelando democracias inteiras, eleição por eleição.
- O medo funciona como combustível político: quanto mais a violência avança, mais os eleitores buscam candidatos que prometam força e controle, mesmo ao custo de garantias democráticas.
- A 'bukelização' já não é exceção — é tendência regional, com líderes de direita vencendo consecutivamente em múltiplos países com a mesma mensagem de Estado endurecido.
- Cortes em programas internacionais de desenvolvimento, como os da USAID, podem estar agravando as condições sociais que alimentam o crime e, por consequência, a demanda por autoritarismo.
- O ciclo político dependerá de resultados concretos: governos que reduzirem o crime podem consolidar essa onda, mas aqueles que fracassarem podem ver o pêndulo se inverter com igual força.
Há um padrão nas urnas latino-americanas que os números tornam difícil ignorar: em 70% das eleições recentes da região, venceu o candidato que colocou segurança pública no centro da campanha. Pesquisadores já batizaram o fenômeno de 'bukelização' — uma referência ao modelo de governo de Nayib Bukele em El Salvador, onde o combate ao crime foi conduzido com mão de ferro e ampla restrição de liberdades civis.
O mecanismo é relativamente simples, ainda que suas consequências sejam profundas. A violência real — aquela que afeta comunidades, famílias e ruas — gera medo. O medo, por sua vez, gera demanda por ordem. E essa demanda tem sido capitalizada por figuras como Javier Milei na Argentina e outros líderes de direita que prometem um Estado mais forte e menos preso a procedimentos democráticos tradicionais. O resultado é uma sequência de vitórias eleitorais com mensagem similar em países distintos.
O cenário é agravado por fatores externos. Analistas apontam que a redução de investimentos internacionais em programas sociais — como os cortes promovidos pela USAID — pode estar intensificando as condições que alimentam tanto o crime quanto a busca por soluções autoritárias. Menos oportunidade gera mais crime, que gera mais medo, que gera mais votos para quem promete punição imediata.
A pergunta que definirá o futuro dessa onda ainda não tem resposta: o que acontece quando esses governos precisam entregar resultados? Se a criminalidade cair, a tendência se consolida. Se as promessas de ordem não se materializarem nas ruas, o ciclo pode se inverter — revelando que a 'bukelização' foi menos uma solução do que um sintoma de problemas que nenhuma campanha eleitoral, por mais contundente que seja, consegue resolver sozinha.
Há um padrão emergindo nas urnas da América Latina que não é difícil de ver: quando o crime sobe, a política vira para a direita, e frequentemente para formas mais duras de governança. Uma pesquisa recente revelou que em 70% das eleições recentes na região, o candidato que venceu foi aquele que colocou segurança pública no centro de sua campanha. Não é coincidência. É uma tendência tão consistente que pesquisadores começaram a chamá-la de "bukelização" — uma referência ao modelo de governo autoritário que Nayib Bukele implementou em El Salvador, onde a resposta à criminalidade foi a mão de ferro do Estado.
O que está acontecendo é que a insegurança real — o crime que afeta milhões de pessoas todos os dias nas ruas, nas comunidades, nas casas — está se transformando em combustível político. Quando a violência sobe, o medo sobe com ela. E quando o medo sobe, os eleitores procuram por alguém que prometa ordem, mesmo que essa ordem venha com um preço alto em termos de liberdades civis. Figuras como Javier Milei na Argentina e outros líderes de direita em toda a região capitalizaram exatamente isso: a promessa de segurança, de controle, de um Estado que age com força contra o crime.
O fenômeno não é isolado. Pesquisadores apontam uma correlação clara entre o aumento da criminalidade e a ascensão de políticas mais autoritárias. Não é apenas que candidatos de direita estejam ganhando eleições — é que estão ganhando consecutivamente, em país após país, com uma mensagem similar: o Estado precisa ser mais forte, mais presente, menos preocupado com os procedimentos democráticos tradicionais e mais focado em resultados imediatos contra o crime.
O que torna isso particularmente significativo é o contexto mais amplo. Há questões sobre como recursos internacionais — como os cortes na USAID, a agência de desenvolvimento dos Estados Unidos — podem estar influenciando o cenário político regional. Alguns analistas sugerem que a redução de investimento em programas sociais e desenvolvimento pode estar intensificando as condições que alimentam tanto o crime quanto a demanda por soluções autoritárias. É um ciclo: menos investimento em oportunidades, mais crime, mais medo, mais votos para candidatos que prometem mão dura.
Mas há uma questão em aberto que vai determinar o futuro dessa onda política: o que acontece quando esses governos chegam ao poder? Se conseguem realmente reduzir a criminalidade, a tendência pode se consolidar. Se fracassam, se a segurança não melhora apesar das medidas autoritárias, o ciclo pode se reverter. Os próximos anos dirão se a "bukelização" é uma solução duradoura ou apenas uma resposta política temporária a um problema que exige soluções muito mais complexas do que qualquer campanha eleitoral pode prometer.
Notable Quotes
Pesquisadores apontam que em 70% das eleições na América Latina, quem usou segurança como tema central venceu— Pesquisador citado em painel da Folha de S.Paulo
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que exatamente 70% é um número tão significativo? Isso não poderia ser apenas coincidência?
Porque 70% não é margem de erro — é padrão. Quando você vê isso repetido em eleição após eleição, em países diferentes, com contextos diferentes, você está vendo algo estrutural. Não é coincidência, é tendência.
E essa "bukelização" — é realmente sobre segurança, ou é sobre algo mais profundo?
É sobre segurança, mas a segurança é o veículo. O que está realmente acontecendo é que as pessoas estão dispostas a trocar liberdades por ordem quando têm medo. E o medo do crime é muito real para milhões de latino-americanos.
Os governos que chegam ao poder com essa promessa conseguem entregar?
Essa é a pergunta que vai definir tudo. Se conseguem reduzir crime, a onda continua. Se não conseguem, os eleitores podem se virar novamente. Mas enquanto isso, as instituições democráticas sofrem.
E quanto aos cortes da USAID? Isso realmente muda o jogo político?
Menos investimento em desenvolvimento significa menos oportunidades, mais desespero, mais crime. É um círculo vicioso que alimenta exatamente o tipo de candidato que promete mão dura.
Então a solução é simplesmente mais dinheiro em programas sociais?
Não é simples assim. Mas sim, sem abordar as causas profundas — pobreza, falta de oportunidade, desigualdade — você nunca vai resolver o crime. E sem resolver o crime, você vai continuar vendo essa onda de autoritarismo.