Quando uma figura de dimensão global como Cristiano Ronaldo age de forma inesperada, o eco ultrapassa os campos de futebol e chega às mentes mais jovens que o tomam como espelho. A psicóloga Isa Silvestre lembra que os ídolos ensinam sem querer, e que cabe aos adultos mediar essa aprendizagem — distinguindo comportamento de identidade, fragmento de história completa. Num tempo em que os ecrãs suprimem o tédio e a reflexão, aprender a admirar com pensamento crítico pode ser uma das lições mais valiosas que uma geração pode receber.
Como o comportamento de Cristiano Ronaldo influencia crianças e adolescentes
Podemos admirar alguém sem exigir que faça tudo bem
Porque é que o comportamento de uma figura como Cristiano Ronaldo importa tanto para crianças e adolescentes?
Porque ele não é apenas um jogador de futebol. Representa talento, disciplina, persistência — valores que muitos jovens admiram e tentam imitar. As crianças aprendem muito através da observação de pessoas que admiram.
Mas isso não significa que todas as crianças vão copiar o que ele faz, certo? Há muitos fatores em jogo.
Exatamente. A forma como os adultos explicam e contextualizam o comportamento faz toda a diferença. É aí que entra a educação.
Qual é o risco específico nesta situação com Ronaldo e a Seleção?
O risco é que uma criança veja alguém que admira sair de uma situação porque não concordou com algo e retire uma mensagem simplista: "Se não concordam comigo, vou-me embora".
Mas nós não sabemos realmente por que é que ele saiu. Estamos a basear-nos em fragmentos de notícias.
Exatamente. E é aí que as redes sociais complicam tudo. Pegam num pequeno episódio e transformam-no num problema maior, sem contar a história completa.
Como é que os adultos podem ajudar as crianças a interpretar isto de forma mais saudável?
Ensinando que se pode falhar, que nem sempre se é escolhido, que nem todos concordarão connosco. E também ensinando a separar o comportamento da identidade — uma atitude não define quem somos.
E quanto à questão mais ampla sobre frustração? As crianças de hoje têm mesmo mais dificuldade em lidar com "não"?
Há um fator importante: não há espaço para o tédio, para a reflexão. Há sempre um ecrã à espera. Isso dificulta a aprendizagem emocional.
Então qual é a lição que devemos tirar disto tudo?
Que podemos admirar alguém sem considerar que essa pessoa tem de fazer tudo bem. E que é importante olhar para as nossas figuras de referência com pensamento crítico.
The Pulse
- Cristiano Ronaldo ficou no banco, faltou a treinos e abandonou a concentração da Seleção, deixando no ar uma decisão sem explicação pública — e acendendo um debate que vai muito além do futebol.
- Milhões de crianças e adolescentes que o veem como símbolo de disciplina e persistência deparam-se agora com um comportamento que pode ser lido como 'se não concordam comigo, vou-me embora'.
- As redes sociais amplificam o episódio em fragmentos descontextualizados, forçando escolhas rápidas de lado e alimentando uma polarização que distorce a realidade.
- A psicóloga Isa Silvestre alerta que a geração atual enfrenta crescente dificuldade em tolerar frustração, privada do tédio e da pausa necessários para aprender a gerir emoções.
- A saída possível não é condenar nem absolver Ronaldo, mas usar o momento para ensinar os mais novos a separar o comportamento visível da identidade complexa de qualquer ser humano.
Quando uma figura de dimensão global como Cristiano Ronaldo age de forma inesperada, o eco ultrapassa os campos de futebol e chega às mentes mais jovens que o tomam como espelho. A psicóloga Isa Silvestre lembra que os ídolos ensinam sem querer, e que cabe aos adultos mediar essa aprendizagem — distinguindo comportamento de identidade, fragmento de história completa. Num tempo em que os ecrãs suprimem o tédio e a reflexão, aprender a admirar com pensamento crítico pode ser uma das lições mais valiosas que uma geração pode receber.
No final de setembro, Cristiano Ronaldo ficou no banco durante o jogo da Seleção contra a Noruega e, nos dias seguintes, faltou a treinos e abandonou a concentração, prometendo explicar as suas razões "a seu tempo". O episódio gerou especulação sobre conversas com o treinador Jorge Jesus e o presidente da Federação, mas a questão que a psicóloga Isa Silvestre coloca vai mais longe: o que aprende uma criança quando o seu ídolo age assim?
Silvestre explica que Ronaldo ocupa no imaginário de muitos jovens um lugar associado a talento, disciplina e recusa em desistir. Precisamente por isso, o que faz — ou deixa de fazer — ganha outra dimensão. As crianças aprendem muito por observação, e os comportamentos de figuras admiradas pesam tanto quanto os valores ensinados em casa. Mas a influência não é automática: a forma como os adultos contextualizam o que aconteceu pode fazer toda a diferença, ajudando a transmitir as mensagens positivas de Ronaldo sem ignorar que falhar, não ser escolhido e ser contrariado fazem parte da vida.
O risco maior está numa leitura simplista: "se não concordam comigo, vou-me embora". As redes sociais agravam esse perigo, transformando fragmentos em julgamentos definitivos sobre a personalidade de alguém. Silvestre avisa que fazer uma avaliação psicológica de Ronaldo a partir de notícias é pouco rigoroso — não conhecemos a história completa. A aprendizagem essencial para os jovens é perceber que o que veem online não é a totalidade de ninguém, e que um comportamento não define uma identidade.
O episódio abre ainda uma discussão mais ampla sobre a capacidade de lidar com frustração. Segundo a psicóloga, o acesso permanente a ecrãs eliminou o espaço para o tédio e para a reflexão — e sem esse espaço, também desaparece a oportunidade de aprender a identificar e gerir emoções. Defender aquilo em que se acredita é saudável; o problema surge quando a discordância exige um vilão. Talvez a lição mais importante não seja decidir quem tem razão, mas aprender a admirar com pensamento crítico — reconhecendo que mesmo os maiores ídolos são pessoas complexas, com a sua própria história.
No domingo, 27 de setembro, Cristiano Ronaldo ficou no banco durante toda a partida da Seleção Nacional contra a Noruega. Nos dias seguintes, o capitão português faltou a sessões de treino em grupo e abandonou a concentração da equipa, prometendo explicar as suas razões "a seu tempo". Conversas com o treinador Jorge Jesus e o presidente da Federação Pedro Proença sobre o seu papel na equipa podem ter estado envolvidas na decisão.
Mas para além dos detalhes do incidente, surge uma questão mais ampla. Cristiano Ronaldo não é apenas um jogador de futebol — é uma das maiores figuras do desporto mundial, admirado por milhões de pessoas, particularmente por crianças e adolescentes. Quando alguém com essa dimensão age de determinada forma, o impacto ultrapassa o que acontece dentro de campo. Isa Silvestre, psicoterapeuta e especialista em psicologia clínica e da saúde, explica que Ronaldo representa, no imaginário de muitos jovens, talento, disciplina, trabalho, ambição, persistência e a recusa em desistir. É precisamente por ocupar esse lugar que aquilo que faz — ou deixa de fazer — ganha outra dimensão.
As crianças e adolescentes aprendem muito através da observação, refere a psicóloga. Podemos ensinar valores em casa, mas os comportamentos que veem em pessoas que admiram pesam igualmente nessa aprendizagem. Ronaldo é um modelo significativo e vai influenciar os mais novos. Contudo, essa influência não significa que todos os seus comportamentos sejam automaticamente reproduzidos. A forma como os adultos explicam o que aconteceu e ajudam as crianças a interpretá-lo pode fazer toda a diferença. Silvestre sugere que é possível comunicar sobre como Ronaldo representa trabalho, persistência e excelência — mensagens positivas — mas também ensinar que se pode falhar, que nem sempre se é escolhido e que nem todos concordarão connosco.
O risco real está numa interpretação demasiado simples: "Se sou contrariado ou não concordam comigo, vou-me embora". Isa Silvestre aponta que as redes sociais amplificam este perigo, porque pegam num pequeno episódio e transformam-no num problema maior. Os acontecimentos chegam até nós através de fragmentos, títulos e vídeos que não contam a história completa. Estamos a falar de alguém com 41 anos que certamente tem uma história pessoal complexa, mas baseamo-nos em suposições. As redes sociais são pequenos recortes da vida das pessoas, obrigando-nos a escolher rapidamente um lado.
A psicóloga alerta também para o perigo de transformar a discussão numa avaliação da personalidade ou das intenções de Ronaldo. "Parece que nós, adultos, estamos a interpretar isto como uma questão de ego, mas pode não ser", diz. Não conhecemos a história completa e é muito pouco rigoroso fazer uma avaliação psicológica das emoções e motivações de alguém baseando-nos apenas nas notícias. Uma aprendizagem importante para os jovens é compreender que aquilo que veem nas redes sociais não é a totalidade da história de vida das pessoas. É essencial não idealizar uma pessoa apenas pela sua profissão. Há uma identidade, há uma história por trás. É importante ensinar os mais novos a separar comportamento de identidade — esta atitude, cujo motivo ainda não foi revelado, é um comportamento, não a identidade total de Ronaldo.
Mas toda esta polémica abre espaço para uma discussão maior: estamos perante uma geração com maior dificuldade em lidar com frustração, ouvir um "não" ou aceitar uma opinião diferente? Lidar com a frustração sempre foi um grande desafio para o ser humano, mas há um fator que pode estar a tornar o processo mais difícil. "Não há espaço para o tédio, para a espera. Já não há espaço para se pensar e refletir", explica Silvestre. Perante uma frustração, há hoje uma facilidade muito maior em passar imediatamente para outro estímulo — telemóvel, tablet, televisão, qualquer ecrã. Quando não há espaço para o tédio, também não há espaço para a criatividade, para descobrir coisas novas e para aprender a identificar o que se está a sentir e como lidar com isso.
A capacidade de defendermos aquilo em que acreditamos é saudável, mas onde termina essa defesa e onde começa a dificuldade em aceitar crítica? Parte da resposta está na forma como comunicamos. Dizer "isto está-me a fazer sentir desta forma" permite defender uma posição sem transformar o outro num adversário. O problema surge quando há acusação constante, quando há necessidade de ter um vilão na história. As redes sociais são um grande terreno para essa polarização. Talvez a principal aprendizagem para os mais novos não esteja em decidir quem tem razão nesta história, mas em aprender a olhar para as figuras que admiram com pensamento crítico, sem deixar de as admirar. "Eu posso admirar alguém, eu tenho um ídolo e admiro esta pessoa, sem considerar que ela tem de fazer tudo bem", conclui Silvestre. Por maior que seja o nome, é uma pessoa, com várias ideias e uma identidade própria.
Notable Quotes
Cristiano Ronaldo é um modelo significativo e vai influenciar as crianças e os jovens— Isa Silvestre, psicoterapeuta
Não há espaço para o tédio, para a espera. Já não há espaço para se pensar e refletir— Isa Silvestre, sobre o impacto dos ecrãs no desenvolvimento emocional