No limiar de um período eleitoral carregado de tensão, a antropóloga Mirian Goldenberg escolheu escrever não sobre política, mas sobre a arte de continuar. Inspirada por Clarice Lispector e pelo encontro com uma mulher de 90 anos, ela defende que transformar dor em beleza não é ingenuidade — é uma forma de resistência. Em tempos em que as redes sociais recompensam o ódio e punem a ternura, manter a esperança tornou-se um ato quase subversivo. A questão que ela deixa no ar é simples e profunda: qual é o problema em continuar sendo assim?
Como não perder a ternura em tempos de cólera
Apesar de tanto ódio, preciso continuar a escrever com ternura
Por que escolher esperança num momento em que tudo parece desabar?
Não é escolher esperança ingênua. É reconhecer que a transformação é possível mesmo quando tudo dói. Clarice me ensinou isso.
Mas há uma diferença entre transformação pessoal e transformação coletiva. Sua velhice bonita é real, mas o Brasil continua como está.
Verdade. Por isso digo que é difícil ser Poliana agora. Mas desistir de escrever com ternura seria desistir de mim mesma.
E quando as pessoas não querem ternura? Quando querem raiva?
Perco seguidoras. Fico angustiada. Mas não consigo ser outra coisa. Minha dor se transformou em força, não em arma.
Então você segue escrevendo para quem consegue ouvir, não para a multidão.
Exatamente. Para Clarice, de 90 anos. Para quem ainda acredita que há beleza possível.
Isso não é um luxo? Ter tempo para pracinha, para pós-doutorado, enquanto o país queima?
Talvez. Mas também é resistência. Cuidar de si, cuidar dos velhos, escrever com ternura — isso também é um ato político.
Um ato político que nem todos conseguem fazer. Nem todos têm essa liberdade.
Verdade. Por isso escrevo. Para deixar registro de que foi possível.
E se não for mais possível?
Então pelo menos tentei.
Le Pouls
- O clima eleitoral de outubro de 2026 trouxe uma angústia coletiva que tornou cada vez mais difícil escrever com leveza e compaixão.
- Nas redes sociais, postagens sobre amor na maturidade custam seguidoras — o algoritmo do ódio penaliza quem insiste na ternura.
- Goldenberg é chamada de 'Poliana' como insulto, mas reivindica o rótulo: da dor, fez livros; da vergonha, um movimento; da finitude, legado.
- A insônia, a impotência diante do Brasil e do mundo, e o silêncio das madrugadas ameaçam engolir até mesmo sua resiliência mais profunda.
- Clarice Lispector surge como âncora: 'se deve viver apesar de' — e é esse 'apesar de' que ainda a empurra para a frente.
No limiar de um período eleitoral carregado de tensão, a antropóloga Mirian Goldenberg escolheu escrever não sobre política, mas sobre a arte de continuar. Inspirada por Clarice Lispector e pelo encontro com uma mulher de 90 anos, ela defende que transformar dor em beleza não é ingenuidade — é uma forma de resistência. Em tempos em que as redes sociais recompensam o ódio e punem a ternura, manter a esperança tornou-se um ato quase subversivo. A questão que ela deixa no ar é simples e profunda: qual é o problema em continuar sendo assim?
No primeiro dia de outubro, enquanto o Brasil se preparava para eleições presidenciais, Mirian Goldenberg escolheu escrever sobre si mesma — sobre como escolhe viver apesar do caos. Entre a angústia do momento, ela trabalhou em seu projeto de pós-doutorado, fez exercícios na pracinha, conversou longamente com Clarice, uma mulher de 90 anos, e deu uma entrevista sobre envelhecimento. Respirou.
Há anos ela é criticada por ser 'meio Poliana' — aquela que insiste em encontrar transformação nas piores circunstâncias. Ela aceita o rótulo. Da merda, adubo. Da dor, um livro. Da insônia, uma ideia. Da vergonha, um movimento — as Velhas Sem Vergonhas. Da finitude, legado. Cresceu como um peixe fora d'água, filha de um pai que lhe dizia ser uma bosta, aprendendo a sobreviver na solidão. Tudo o que via como defeito tornou-se a base de sua antropologia malcomportada.
Mas em tempos de cólera, esse lado Poliana vacila. Cada postagem sobre amor na maturidade lhe custa dezenas de seguidoras. Muitas só querem raiva. Ela não consegue dormir, angustiada e impotente diante do que acontece no Brasil e no mundo. Seu otimismo encontrou, finalmente, algo que ainda não sabe transformar.
É Clarice Lispector quem a salva: 'se deve viver apesar de. Apesar de, se deve amar. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.' Apesar de tanto ódio, Goldenberg precisa continuar escrevendo com ternura. E ela pergunta, sem ironia: qual é o problema em ser assim?
No primeiro dia de outubro, quando o mundo marca o Dia Internacional das Pessoas Idosas, a colunista Mirian Goldenberg sentou-se para escrever não sobre as eleições presidenciais que aconteceriam três dias depois, mas sobre si mesma — sobre a forma como escolhe viver apesar do caos ao redor.
Era um dia tenso. A angústia pairava. Mas entre a preocupação e o medo, ela conseguiu trabalhar em seu projeto de pós-doutorado sobre escrita de si, memória e legado. Conseguiu fazer exercícios na pracinha. Conversou longamente com Clarice, uma mulher de 90 anos. Deu uma entrevista para a rádio CBN sobre o envelhecimento. Respirou.
Há anos Goldenberg é criticada por ser "meio Poliana" — aquela que insiste em encontrar transformação nas piores circunstâncias. Algumas pessoas tentaram diminuí-la com esse rótulo, como se fosse ingenuidade ou fraqueza. Mas ela reconhece que é verdade: sempre buscou converter o que é ruim em algo que a move para frente. Da merda, adubo. Da dor, um livro. Da insônia, uma ideia para a coluna. Da gritaria, tolerância. Da saudade, novos amores. Da traição, estudo sobre casais felizes. Do fracasso, recomeço. Da inveja, indiferença. Do medo, uma velhice bonita. Da vergonha, um movimento — as Velhas Sem Vergonhas. Da finitude, legado.
Desde a infância, ela transformou obsessivamente sua dor em beleza, seu medo em coragem, sua vergonha em projetos de vida. Cresceu como um peixe fora d'água, triste, angustiada, ansiosa demais. Aprendeu a se proteger na solidão para sobreviver aos gritos do pai, que lhe dizia ser uma bosta. Muitos sugeriram que precisava de medicamentos para curar seu temperamento melancólico. Mas seu lado Poliana provou que suas experiências mais dolorosas poderiam se transformar em determinação e coragem. Sua paixão por escutar os mais velhos, sua obsessão em escrever sobre velhofobia, sua capacidade de ficar completamente sozinha por dias — tudo isso que vira como defeito tornou-se força fundamental para sua antropologia malcomportada.
Mas em tempos de cólera, ser "meio Poliana" ficou cada vez mais difícil. Suas postagens no Instagram são prova disso: cada vez que escreve sobre amor na maturidade, perde dezenas de seguidoras. Muitas só querem sangue, raiva, ódio. Seu lado Poliana ainda não conseguiu encontrar nada de bom nesse ambiente de tanto ódio e violência. Não consegue dormir, tão angustiada e impotente com o que acontece no Brasil e no mundo.
Mas Clarice Lispector a salva mais uma vez. "Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente." Apesar de tanto ódio e desesperança, ela precisa continuar a escrever com ternura. Qual é o problema em ser assim?
Citations marquantes
Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer.— Clarice Lispector, citada pela colunista
Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.— Clarice Lispector, citada pela colunista