Comércio negocia escala 5x2 com Natal como primeiro grande teste

Comerciários enfrentam afastamentos relacionados a questões psicossociais, com potencial melhoria na saúde através da redução da jornada de trabalho.
É um presente de Natal para o trabalhador e um teste para o comércio
Ricardo Patah, presidente do sindicato, sobre a implementação da escala 5x2 no período natalino.
Mark

Por que o Natal é tão importante para testar essa mudança? Não seria melhor começar em uma época mais tranquila?

Mimi

O Natal é quando o comércio fatura de verdade. As vendas costumam ser três vezes maiores que a média dos outros meses. Se conseguir funcionar bem nesse período, consegue funcionar em qualquer lugar.

Luke

Mas isso também significa que qualquer problema vai custar muito caro. Se uma loja não conseguir se adaptar rápido, perde o maior faturamento do ano.

Mimi

Exatamente. É por isso que o sindicato vê como um teste. Se der certo, a mudança fica consolidada. Se der errado, vai haver pressão para reverter.

Mark

As empresas têm tempo suficiente para se preparar? A lei entra em vigor em 16 de dezembro.

Mimi

Tecnicamente sim, mas é apertado. Algumas grandes redes já operam com 5x2, então têm experiência. As pequenas é que vão sofrer mais.

Luke

Aqui tem uma questão importante: a lei diz que não pode reduzir salário, mas as empresas precisam manter custos. Como isso funciona na prática?

Mimi

Aí entra a negociação coletiva. Podem contratar mais gente, reduzir horário de funcionamento, investir em máquinas ou repassar custos aos preços.

Mark

E se a empresa não conseguir fazer nenhuma dessas coisas?

Luke

Aí sim fica complicado. Tem setores como farmácia que não conseguem repassar preço porque remédio é tabelado. Ninguém sabe ainda como vai funcionar.

Mimi

Por isso o sindicato está negociando categoria por categoria. Supermercado é diferente de loja de calçado, que é diferente de farmácia.

Mark

O desemprego baixo ajuda ou atrapalha?

Mimi

Ajuda. Com falta de mão de obra, as empresas conseguem contratar para cobrir as novas folgas. Se o desemprego fosse alto, seria muito mais difícil.

  • Escala 5x2 entra em vigor em 16 de dezembro de 2026
  • 500 mil comerciários de São Paulo serão afetados
  • Garantia de três domingos de descanso mensais, contra dois atualmente
  • Vendas de dezembro costumam ser três vezes superiores à média dos outros meses
  • Carga horária reduz de 44 para 42 horas em 60 dias, e para 40 horas em dezembro de 2027

Escala 5x2 entra em vigor em 16 de dezembro, garantindo três domingos de descanso mensais aos 500 mil comerciários de São Paulo, contra dois dias atuais. Empresas planejam reorganizar horários, investir em tecnologia e contratar mais funcionários para manter atendimento sem aumentar custos da folha de pagamento.

Comércio varejista de São Paulo negocia implementação da escala 5x2 após fim da jornada 6x1, com primeiro grande teste coincidindo com período de vendas natalinas. Sindicato e empresários discutem mudanças em convenções coletivas para absorver custos sem reduzir remuneração.

O comércio varejista de São Paulo enfrenta seu maior teste desde o fim da escala 6x1: implementar a jornada 5x2 começando em meados de dezembro, justamente quando as lojas precisam de máxima operação para o Natal. O Sindicato dos Comerciários de São Paulo, que representa 500 mil profissionais, e as entidades patronais já estão negociando as mudanças nas convenções coletivas de supermercados, lojas de calçados, floriculturas e atacadistas. A emenda constitucional 141 determinou que as cláusulas sobre jornada perdem validade em 60 dias, forçando a renegociação enquanto o setor se prepara para seu período de maior faturamento do ano.

A proposta do sindicato é clara: escala 5x2 com duas folgas semanais garantidas para todos, o que elevaria o número de domingos de descanso de dois para pelo menos três por mês. Além disso, o sindicato quer implementar um sistema de revezamento em alguns setores para que vendedores trabalhem em ao menos um domingo, preservando suas comissões. Do lado das empresas, o desafio é absorver esses custos sem reduzir salários. A estratégia passa por reorganizar horários de funcionamento, reduzir a abertura de lojas em alguns períodos, ajustar turnos de trabalho e investir em tecnologia onde seja possível substituir trabalho humano por máquinas.

Ricardo Patah, presidente do Sindicato dos Comerciários de SP, vê o momento como uma oportunidade. "É um presente de Natal para o trabalhador e um teste para o comércio", afirmou, ressaltando que o sindicato quer "fazer valer a nova lei" sem "quebrar nenhuma empresa". Ele acredita que os supermercados serão os primeiros a adotar formalmente a nova jornada, já que algumas grandes redes já operam com o modelo 5x2, ainda que sem redução da carga horária. A lei prevê que a carga horária caia de 44 para 42 horas em 60 dias após a publicação, e chegue a 40 horas em dezembro de 2027.

Fernando Marçal, assessor jurídico da FecomercioSP, confirma que as negociações estão em andamento, mas ainda não há texto final. "Estamos na fase de troca de minutas entre as respectivas assessorias", disse, acrescentando que a discussão sobre reajuste salarial ainda não começou. Para ele, a reorganização das escalas será um dos principais desafios. "A alteração da jornada mexe, sobretudo, com as escalas de trabalho e de descanso, até porque em relação a essa última, foi estabelecido um dia a mais por semana. Aí temos um problema enorme", afirmou. As alternativas que as empresas estudam incluem novas contratações, trabalho temporário, revezamento de escalas, ajustes no horário de funcionamento e automação. Marçal alertou que empresas menores podem enfrentar mais dificuldades, já que têm equipes reduzidas e menos recursos para investir em tecnologia.

O economista Marcel Solimeo, da Associação Comercial de São Paulo, aponta que a nova jornada pode elevar custos justamente no Natal, quando as lojas precisam manter atendimento nos horários de pico. As soluções passam por contratar mais funcionários, reduzir horário de funcionamento, repassar custos aos preços ou adotar tecnologia. Solimeo observa que o impacto será diferente para cada empresa e setor. "Diminuir horas sem ter compensação em produtividade é aritmético, é aumento de custo ou redução da atividade", disse. Alguns setores, como farmácias com preços tabelados, não conseguem repassar custos aos clientes.

Alexandre Maluf, economista da XP, nota que o timing não é ideal: as vendas do varejo em agosto ficaram significativamente abaixo das expectativas, com avanço de apenas 0,1% quando se projetava alta de 1%. Mas Patah vê uma oportunidade no calendário. O período entre outubro e dezembro exige reforço nas equipes, e as vendas de dezembro costumam ser pelo menos três vezes superiores à média dos outros meses. Com o desemprego baixo e a necessidade urgente de mão de obra para o fim do ano, a tendência é que as empresas consigam absorver os custos extras através de contratações. "A maior parte das empresas está necessitando de trabalhador", afirmou o sindicalista.

Além da questão econômica, Patah destaca um aspecto de saúde pública. Os comerciários estão entre as categorias que mais enfrentam afastamentos relacionados a questões psicossociais. A redução da jornada pode trazer benefícios tanto para o trabalhador quanto para a empresa, que deixaria de arcar com custos de afastamento e a falta de cobertura de pessoal. O que acontecer no Natal dirá muito sobre como o varejo conseguirá se adaptar à nova realidade.

Diminuir horas sem ter compensação em produtividade é aritmético, é aumento de custo ou redução da atividade
— Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo
A alteração da jornada mexe, sobretudo, com as escalas de trabalho e de descanso, até porque em relação a essa última, foi estabelecido um dia a mais por semana. Aí temos um problema enorme
— Fernando Marçal, assessor jurídico da FecomercioSP
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