Com resistência nos EUA a data centers, Brasil surge como alternativa para gigantes de tecnologia

Quer depender menos de fora, mas incentiva as mesmas gigantes
Ana Carolina de Assis Nunes aponta a contradição do Redata, lei que reduz impostos de data centers.
Mark

Por que o Brasil, e por que agora?

Mimi

Porque nos EUA a energia ficou o gargalo e as comunidades estão rejeitando os projetos. Aqui a eletricidade custa menos da metade e quase 87% vem de fontes renováveis.

Mark

E o Redata entra onde?

Mimi

Reduz impostos sobre equipamentos. Em troca, as empresas oferecem 10% dos serviços elegíveis a clientes brasileiros e investem 2% do valor dos equipamentos em P&D no país.

Luke

Vale separar: o texto mostra investimentos já feitos, como os US$ 3,8 bilhões da AWS, mas a ideia de que os EUA estão exportando projetos é projeção de Barrera. Hoje o crescimento vem da demanda local.

Mark

Há risco para o consumidor?

Mimi

Barrera diz que serão necessárias mais linhas de transmissão e que o governo está dividido sobre uma alta nas contas de luz.

Luke

Ou seja, não se sabe se haverá aumento. É uma divergência declarada, não um dado.

Mark

E a soberania de dados?

Mimi

Nunes aponta a tensão: o país quer depender menos de fora, mas dá incentivo às mesmas gigantes.

Luke

E a oposição? Há o caso Anacé, mas o texto só traz a avaliação de Nunes de que é menos unida que a americana. Não há pesquisa que a meça.

  • Comunidades nos Estados Unidos barram a construção de data centers, e a pressão política por limites cresce a cada mês.
  • A eletricidade brasileira, com cerca de metade do preço americano e quase 87% de origem renovável, atrai empresas que buscam capacidade onde ela ainda existe.
  • A Lei Redata corta impostos sobre equipamentos e exige 10% de oferta a clientes brasileiros e 2% em pesquisa, mas críticos dizem que ela favorece as big techs.
  • Procuradores foram à Justiça contra um data center ligado ao TikTok, exigindo estudo ambiental e consulta ao povo Anacé, e o desfecho ainda está em aberto.

Num tempo em que comunidades americanas começam a recusar os grandes galpões de processamento de dados que sustentam a inteligência artificial, o Brasil aparece como um possível refúgio para essa infraestrutura. Suas águas e ventos, seu excedente de energia renovável e os incentivos da lei Redata compõem uma oferta que atrai gigantes como Google, Amazon e Microsoft. Mas a promessa de eletricidade barata e de soberania digital convive com perguntas antigas sobre quem se beneficia do investimento estrangeiro e quem arca com seus custos.

Em março, o Google fechou um acordo de patrocínio com a Confederação Brasileira de Futebol e anunciou que pretende dobrar sua infraestrutura de nuvem no país até 2030. Não está sozinho. A Amazon Web Services já investiu mais de US$ 3,8 bilhões em data centers brasileiros e prometeu mais US$ 1,8 bilhão até 2034, enquanto a Microsoft destinou US$ 2,7 bilhões à nuvem e à inteligência artificial. O movimento acontece enquanto, nos Estados Unidos, comunidades recusam essas construções. Para o CEO da Atlas Renewable Energy, Carlos Barrera, a América Latina pode ser uma válvula de escape para essa escassez de capacidade.

O argumento central é a energia. O Brasil tem uma eletricidade que custa menos da metade do preço americano e uma matriz quase toda renovável, com excedente produzido pela eólica e pela solar. Há, porém, ressalvas: será preciso construir mais linhas de transmissão, e o próprio governo se divide sobre o efeito nas contas de luz.

O outro obstáculo era tributário. Em 15 de setembro, Lula sancionou o Redata, que reduz impostos sobre equipamentos de projetos que cumpram exigências como oferecer 10% dos serviços a clientes brasileiros e investir 2% em pesquisa no país. A pesquisadora Ana Carolina de Assis Nunes, do Data & Society, vê a contradição: o país busca soberania de dados, mas premia as empresas que já dominam o setor.

A resistência também existe. Dias antes da sanção, procuradores federais recorreram à Justiça contra um data center ligado ao TikTok, pedindo estudo de impacto ambiental e consulta prévia ao povo indígena Anacé. Nunes observa que a oposição brasileira é mais dispersa que a americana, em parte porque o investimento estrangeiro ainda carrega prestígio como porta de entrada para a economia global. Os próximos capítulos dependerão do custo da transmissão, do efeito sobre a conta de luz e do desfecho das disputas ambientais e indígenas.

Em março, o Google assinou um acordo de patrocínio com a Confederação Brasileira de Futebol para levar o Gemini às seleções masculinas, femininas e de base. O gesto combina com um plano maior: a empresa diz que pretende dobrar sua infraestrutura de nuvem no Brasil até 2030, em resposta à demanda crescente. É um sinal de como o país passou a ser cortejado pelas gigantes de tecnologia num momento em que, nos Estados Unidos, comunidades de todo o território rejeitam a construção de data centers e a pressão política para limitá-los aumenta.

Outras empresas também colocam dinheiro no país. A Amazon Web Services investiu mais de US$ 3,8 bilhões em data centers brasileiros desde 2011 e prometeu mais US$ 1,8 bilhão até 2034. A Microsoft destinou US$ 2,7 bilhões à infraestrutura de nuvem e de inteligência artificial ao longo de três anos. Até agora, grande parte do crescimento do setor na América Latina veio da demanda local, e não da transferência de operações de empresas americanas. Carlos Barrera, CEO da Atlas Renewable Energy, acredita que isso pode mudar: para ele, a região é uma válvula de escape atraente para as restrições de capacidade que os americanos enfrentam hoje.

Os argumentos a favor do Brasil são concretos. O país tem quase 215 milhões de habitantes, espalhados por uma área maior que a dos 48 Estados contíguos dos EUA. A eletricidade custa menos da metade do preço americano, e, segundo relatório do Ministério de Minas e Energia, quase 87% da energia gerada vem de fontes renováveis. O avanço da eólica e da solar produziu ainda um excedente. James Mercer, da consultoria Metro Colo Advisory, resumiu à Fortune que a reação negativa nos EUA não expulsa as empresas de hiperescala, mas as direciona para onde houver energia disponível primeiro.

Há ressalvas. Barrera afirma que o Brasil precisará de mais linhas de transmissão para ligar grandes data centers à rede, e que autoridades do governo estão divididas sobre se as contas de luz vão subir. A eletricidade barata, portanto, pode deixar de ser.

O sistema tributário era outro obstáculo: os altos impostos federais de importação encareciam a construção de grandes data centers no Brasil em relação a vizinhos da região. Em 15 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter), que reduz impostos sobre equipamentos de projetos que cumpram certos requisitos. As empresas devem oferecer ao menos 10% de seus serviços computacionais elegíveis a clientes brasileiros e investir 2% do valor dos equipamentos beneficiados em pesquisa e desenvolvimento no país. A medida contrasta com propostas de parlamentares americanos de taxar o consumo de eletricidade e a produção dos data centers.

Para Ana Carolina de Assis Nunes, antropóloga brasileira e pesquisadora do instituto Data & Society, o objetivo é reforçar a soberania de dados, para que o país dependa menos de serviços estrangeiros, sobretudo na era Trump. Ela observa, porém, a contradição: o Brasil quer menos dependência, mas concede incentivos às mesmas empresas que dominam o setor. Torto admitiu que é improvável o país criar seu próprio Google ou Microsoft, mas disse que data centers locais podem reduzir a latência e manter mais dados no território nacional. Segundo ele, o maior investimento de longo prazo está em tudo o que gira em torno dos modelos e dos prédios.

A resistência existe, ainda que menor. Dias antes de o Redata virar lei, procuradores federais foram à Justiça contra um data center ligado ao TikTok, pedindo estudo de impacto ambiental e consulta ao povo indígena Anacé antes de a operação começar. Nunes diz que a oposição brasileira não é tão unida quanto a americana, criticada tanto pela esquerda quanto pela direita. Em parte, isso se deve ao prestígio do investimento estrangeiro, visto por muitos como porta de entrada na economia global. Ela lembra de Goiânia, onde cresceu perto de uma fábrica de extrato de tomate da Unilever: sua mãe se orgulhava da ligação com uma empresa global, mesmo quando outros se preocupavam com o uso de recursos locais.

O que observar daqui em diante: o custo da transmissão, o efeito sobre as contas de luz e o desfecho das disputas ambientais e indígenas, como a do caso Anacé.

Vemos a região como uma válvula de escape atraente para algumas das restrições de capacidade que os EUA enfrentam agora.
— Carlos Barrera, CEO da Atlas Renewable Energy
A reação negativa nos EUA direciona as empresas para onde a energia estiver disponível primeiro.
— James Mercer, Metro Colo Advisory
Vuoi la storia completa? Leggi l'originale su Estadão ↗
Contattaci Domande frequenti