Publicitário processa Droga Raia após ter nome alterado para 'Gaylileu' em sistema

Publicitário sofreu angústia psicológica durante um ano ao ser sistematicamente exposto a homofobia velada em transações comerciais cotidianas.
Ninguém merece ser tratado dessa forma. Tem que ouvir quem passou pela dor
Galileu Nogueira reflete sobre a importância de ouvir vítimas de discriminação ao buscar justiça corporativa.

Durante mais de um ano, Galileu Nogueira, publicitário de 33 anos, teve seu nome sistematicamente alterado para 'Gaylileu' no cadastro de uma grande rede de farmácias — uma modificação silenciosa que carregava, em uma única letra, o peso da exclusão. O caso, que chegou à Justiça após tentativas frustradas de diálogo, revela como sistemas corporativos podem se tornar instrumentos de humilhação velada, e como o descaso institucional pode transformar um erro em afronta. Mais do que uma disputa legal, a história de Galileu levanta uma pergunta que transcende o indivíduo: quantas outras pessoas carregam, em seus cadastros, nomes que não lhes pertencem?

  • Por mais de um ano, a cada compra presencial ou online, o nome 'Gaylileu' reaparecia no sistema — uma ferida reaberta em cada transação cotidiana.
  • A pergunta de um funcionário — 'seu nome é Gaylileu mesmo?' — transformou o constrangimento privado em humilhação pública e confirmou que a alteração não passava despercebida.
  • A empresa ofereceu R$ 5 mil e citou programas internos de diversidade; Galileu rejeitou, exigindo R$ 30 mil, treinamento conduzido por organização LGBTQIA+ e retratação pública.
  • Sem acordo na audiência de conciliação, Galileu levou o caso ao Instagram, transformando sua dor em alerta para consumidores LGBTQIA+ e em pressão reputacional sobre a marca.
  • O caso permanece em disputa judicial, com a origem da alteração ainda sem explicação oficial — e a desconfiança de Galileu sobre as declarações públicas da empresa intacta.

Em janeiro de 2021, Galileu Nogueira descobriu que seu nome havia sido alterado no cadastro da Droga Raia: onde deveria constar 'Galileu', aparecia 'Gaylileu' — um 'y' inserido no meio, criando uma alusão inequívoca à palavra 'gay'. No início, pareceu um erro de digitação. Mas a cada nova compra, online ou nas lojas físicas, o nome modificado voltava. Em determinado momento, um funcionário chegou a perguntar diretamente se aquele era mesmo o seu nome. O choque inicial deu lugar à certeza: a alteração era intencional.

Após dois meses sem resposta a uma denúncia aberta no Conselho de Ética da própria rede, Galileu recorreu à Justiça com três pedidos: indenização de R$ 30 mil por danos morais, um programa de treinamento sobre homofobia conduzido por organização LGBTQIA+ e uma retratação pública. A Droga Raia contra-ofereceu R$ 5 mil e alegou já possuir capacitação interna sobre diversidade. Galileu recusou.

A audiência de conciliação, realizada em março de 2022, terminou sem acordo. Uma semana depois, ele tornou o caso público pelo Instagram — não apenas para relatar o que havia sofrido, mas para encorajar outras pessoas LGBTQIA+ a não silenciarem diante de situações semelhantes. Como estrategista de branding, Galileu sabe o que está em jogo para a marca, mas seu foco é outro: alertar que pessoas com nomes sociais podem estar sendo expostas a humilhações invisíveis em sistemas corporativos, sem sequer saber.

A Droga Raia emitiu nota repudiando a homofobia, afirmou ter corrigido o cadastro assim que soube da alteração e citou seu envolvimento em fóruns de direitos LGBTI+. Para Galileu, as palavras não correspondem à experiência que viveu. A origem da modificação nunca foi esclarecida. O processo segue, e ele segue determinado.

Galileu Nogueira, publicitário de 33 anos, descobriu em janeiro de 2021 que seu nome havia sido alterado no sistema de cadastro da Droga Raia. Onde deveria constar "Galileu", aparecia "Gaylileu" — uma mudança que introduzia um "y" no meio do nome, criando uma alusão clara à palavra "gay". No início, ele pensou tratar-se de um simples erro de digitação. Mas quando o mesmo nome alterado reapareceu em suas compras seguintes, tanto online quanto nas lojas físicas, ficou claro que não se tratava de um engano.

A realização de que a alteração era proposital veio com o tempo. A cada transação, o nome modificado surgia novamente. Em uma ocasião, um funcionário da farmácia questionou diretamente: "seu nome é 'Gaylileu' mesmo?". Galileu descadastrou-se das promoções por SMS, tentando minimizar o incômodo, mas a mudança persistia sempre que ele se aproximava de um caixa. "Eu fiquei em choque", disse em entrevista, descrevendo sua reação inicial ao ver o nome trocado no registro da empresa.

Em março de 2021, após dois meses de silêncio em relação a uma denúncia que havia aberto no Conselho de Ética da própria marca, Galileu decidiu buscar a justiça. A empresa não havia respondido a seus contatos. Ele acionou a Justiça solicitando três coisas: trinta mil reais por danos morais, um programa de treinamento sobre homofobia para os funcionários da rede — conduzido por uma organização LGBTQIA+ — e uma retratação pública. A Droga Raia, em resposta, ofereceu cinco mil reais e informou que já possuía capacitação interna sobre inclusão e diversidade. Galileu rejeitou a proposta.

Quando a audiência de conciliação ocorreu em 21 de março de 2022, as partes não chegaram a um acordo. Descontente com o rumo do processo e frustrado pela falta de resposta adequada da empresa, Galileu decidiu tornar o caso público. Uma semana depois, em 28 de março, compartilhou sua história no Instagram, descrevendo a homofobia velada que havia sofrido e explicando que se sentia no dever de inspirar outras pessoas LGBTQIA+ a tomarem atitudes semelhantes. Ele também alertava gestores de marca sobre a importância de criar ambientes inclusivos.

Em seu depoimento público, Galileu reiterou que teria colaborado com a empresa se tivesse sido ouvido de forma genuína. O que o incomodava não era apenas a mudança do nome em si, mas a falta de transparência e o descaso com que a Droga Raia havia tratado a questão. "Ninguém merece ser tratado dessa forma. Tem que ouvir quem passou pela dor", desabafou. A origem exata da alteração nunca foi identificada pela farmácia, segundo ele.

Como estrategista de branding que trabalha com grandes empresas, Galileu compreende o impacto reputacional de situações como essa. Para ele, o caso transcende sua experiência pessoal. Ele apontou que pessoas com nomes sociais podem estar vivenciando situações semelhantes sem denunciar, e que esse tipo de negligência corporativa prejudica tanto as pessoas quanto os negócios. "É um tema que passa batido todos os dias", observou, destacando a vulnerabilidade de consumidores cujos nomes são alterados sem consentimento em sistemas de grandes redes.

A Droga Raia, em nota oficial, afirmou repudiar veementemente a homofobia e pediu desculpas pelo transtorno causado. A empresa alegou ter corrigido o cadastro assim que ficou sabendo da alteração, um ano antes, e disse estar sempre aberta ao diálogo. Mencionou também sua participação no Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+ e seu compromisso público com um ambiente livre de discriminação em suas farmácias, escritórios e centros de distribuição. Mas para Galileu, essas declarações não correspondem à realidade de como foi tratado. O caso permanece em disputa judicial, com o publicitário determinado a levar a questão adiante e a usar sua plataforma para conscientizar sobre vulnerabilidades que afetam pessoas LGBTQIA+ em transações cotidianas.

Eu fiquei em choque quando vi meu nome trocado no registro da empresa
— Galileu Nogueira, publicitário
É um tema que passa batido todos os dias. Pessoas com nome social podem estar sofrendo agora
— Galileu Nogueira
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como você percebeu que não era um erro simples de digitação?

Model

Porque aconteceu mais de uma vez. Na primeira compra pensei que fosse um engano do sistema. Mas quando voltei e vi "Gaylileu" novamente, aí ficou claro que era intencional. Alguém estava fazendo isso propositalmente.

Inventor

E quando você abriu a denúncia no Conselho de Ética, qual era sua expectativa?

Model

Esperava que a empresa reconhecesse, pedisse desculpas e corrigisse. Mas ficaram dois meses sem responder. Nenhum contato. Isso me mostrou que não havia interesse real em resolver.

Inventor

Por que você rejeitou os cinco mil reais oferecidos?

Model

Porque não era sobre dinheiro. Era sobre a empresa reconhecer o que fez, treinar seus funcionários e ser honesta sobre o que aconteceu. Cinco mil reais é uma forma de calar a boca, não de resolver.

Inventor

Você acredita que isso foi um ato isolado de um funcionário ou algo sistêmico?

Model

Essa é a questão. A empresa nunca descobriu quem fez. Mas o fato de ninguém ter corrigido por um ano inteiro, de ninguém ter questionado um nome assim aparecendo no sistema — isso sugere negligência em toda a cadeia.

Inventor

O que você espera que mude com essa exposição pública?

Model

Que outras pessoas LGBTQIA+ se sintam seguras para denunciar. E que marcas entendam que inclusão não é apenas um discurso bonito — é sobre como você trata as pessoas todos os dias, em cada transação.

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