Ver minha vida inteira nessa prateleira é desesperador
A Budega do Raul acumula dívidas de R$ 60 mil em cartão (R$ 15 mil), fornecedor de cerveja (R$ 30 mil) e aluguel (R$ 20 mil). Raquel Zurc, mulher trans que abriu o bar aos 22 anos, vê o negócio como espaço de acolhimento e sua própria identidade após 14 anos.
- Budega do Raul acumula R$ 60 mil em dívidas: R$ 15 mil em cartão, R$ 30 mil com fornecedor de cerveja, R$ 20 mil em aluguel
- Raquel Zurc abriu o bar aos 22 anos, há 14 anos, na Cidade dos Funcionários, Fortaleza
- Proprietária é mulher trans que nasceu em barraco de pau-a-pique e vê o bar como seu lar e identidade
Bar de 14 anos em Fortaleza enfrenta risco de fechamento com dívidas de R$ 60 mil. Proprietária Raquel Zurc mobiliza campanha para manter o espaço que também é seu lar.
Raquel Zurc abriu a Budega do Raul aos 22 anos, quando era a primeira filha da família a se formar. Quatorze anos depois, aos 36, ela continua ali — não apenas como proprietária, mas como alguém que nasceu dentro daquele projeto. O bar fica na Cidade dos Funcionários, em Fortaleza, e representa muito mais do que um negócio. É seu lar, sua identidade, o espaço onde ela aprendeu a existir plenamente como mulher trans em uma cidade que nem sempre oferece esse acolhimento.
Mas esta semana chegou uma notícia que abalou os frequentadores: a Budega pode fechar. As dívidas somam R$ 60 mil — R$ 15 mil em cartão de crédito do bar, R$ 30 mil com fornecedor de cerveja, R$ 20 mil em aluguel. Não são números abstratos. São contas específicas, vencidas, que não param de crescer.
Raquel traça o caminho que a levou até aqui com clareza. O ano passado foi difícil. O mercado começava a mudar, e ela decidiu investir em almoço para diversificar o faturamento e aproveitar melhor o espaço durante o dia. O plano era bom. Ela o apresentou a uma marca, conseguiu parceria, executou tudo até a Copa. Mas o Carnaval de Fortaleza deste ano foi pesado demais. Todos os fins de semana eram festa. Os polos principais — Benfica, Dragão do Mar, Meireles — ficavam longe da Budega. Enquanto a cidade inteira se movia para esses lugares, ela ficava para trás. Choveu também. E houve algo mais: o efeito manada dos influenciadores, aquele fenômeno em que as pessoas migram em massa quando alguém com seguidores valida um lugar. Raquel vê isso acontecer na cidade e sente o peso. Sabe que as pessoas pagam por essa mídia, que seguem onde os influenciadores as levam.
O que torna tudo isso mais complexo é que para Raquel, fechar a Budega não é apenas perder um negócio. É perder seu lar. "Se a Budega fechar, eu não tenho onde morar", ela diz. Nasceu em uma realidade dura, em um barraco de pau-a-pique. O bar foi construído como um espaço de cuidado, um lugar onde ela e outras pessoas pudessem simplesmente existir em sua essência, sem serem observadas, julgadas, desrespeitadas. "Eu sou uma mulher trans que nasceu com uma empresa já consolidada, pelo menos na emoção, na mente das pessoas", ela explica. "Ver minha vida inteira nessa prateleira é desesperador."
O desespero é tanto que Raquel não quer apenas salvar o bar — quer quitar tudo que deve. Porque se fechar, há rescisões trabalhistas que precisa honrar com a equipe que construiu aquilo junto com ela. Amigos e clientes mobilizaram uma campanha para evitar o fechamento. Internautas falaram sobre a importância do ambiente na construção de suas histórias e memórias na cidade. A Budega não é apenas um bar. É um espaço mental, um lugar onde pessoas encontram a si mesmas.
Raquel é clara sobre o que espera: que todos os lugares sejam inclusos, que as pessoas se sintam somente elas mesmas, sem serem observadas ou desrespeitadas. Quatorze anos construindo essa história. Agora, tudo está naquela prateleira, esperando por quem queira ajudar a mantê-la de pé.
Notable Quotes
Se a Budega fechar, eu não tenho onde morar— Raquel Zurc, proprietária
A Budega é um espaço mental que existe muito mais para acolher, para permitir que as pessoas existam lá na sua essência— Raquel Zurc
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a Budega significa tanto para você além do aspecto financeiro?
Porque eu nasci ali. Não é metáfora. Aos 22 anos, vinda de um barraco de pau-a-pique, eu criei um espaço onde eu e outras pessoas pudéssemos existir sem sermos julgadas. A Budega é minha identidade.
Você mencionou o efeito manada dos influenciadores. Como isso afeta um bar pequeno como o seu?
As pessoas seguem para onde os influenciadores as levam. Quando um lugar surge e alguém valida, todo mundo vai para lá. A Budega fica longe dos polos principais. Não tenho como competir com essa mídia que as pessoas pagam para consumir.
O Carnaval foi um ponto de virada?
Foi um dos pontos. Todos os fins de semana eram festa, mas os polos eram Benfica, Dragão do Mar, Meireles. Eu estava fora desse circuito. Investi em almoço, acreditei que funcionaria, mas o mercado não respondeu como esperava.
E agora, com a campanha de amigos e clientes, você sente que há esperança?
Sinto que as pessoas entendem o que a Budega representa. Não é só um bar. É um espaço de acolhimento. Mas esperança é diferente de certeza. Preciso quitar R$ 60 mil e honrar rescisões trabalhistas se não conseguir.
Se a Budega fechar, o que acontece com você?
Eu não tenho onde morar. Não é uma frase de efeito. É literal. Minha vida inteira está naquela prateleira.