Colisões com javalis e veados aumentam exponencialmente nas estradas portuguesas

Colisões rodoviárias com ungulados representam risco significativo para segurança de condutores e passageiros, com impactos económicos estimados em mais de oito milhões de euros anuais apenas na agricultura.
Sem informação sobre densidades, não há medidas de gestão eficazes
Carlos Fonseca explica por que o projeto começa com recolha rigorosa de dados sobre populações de ungulados.
Mark

Porque é que os javalis aumentaram tanto em Portugal? Parece uma explosão repentina.

Mimi

Não é repentina — é gradual, mas acelerada. Os javalis expandiram-se territorialmente, ocupando espaços que antes não ocupavam. Mas o crescimento que vemos nos números também reflete melhor monitorização. Antes, muitos acidentes passavam despercebidos ou não eram registados.

Mark

E os mil acidentes por ano — é um número que assusta. Quantas pessoas morrem?

Mimi

O material não especifica mortes. Foca-se no risco, na segurança dos condutores e passageiros, e nos impactos económicos. Mas é claro que colisões com animais grandes são perigosas.

Mark

Os oito milhões de euros em perdas agrícolas — é só milho?

Mimi

Não, é apenas o milho. Os javalis causam danos em várias culturas. Mas o milho é onde os prejuízos foram quantificados com precisão. Provavelmente há mais perdas noutras áreas que não foram medidas.

Mark

Então o projeto "Impacto" é basicamente um diagnóstico?

Mimi

É mais do que isso. Começa com diagnóstico — entender densidades, distribuição, tendências. Mas depois pretende desenvolver ferramentas práticas e testar soluções. O objetivo é dar às comunidades um guião para lidar com isto.

Mark

E a caça? Parece que é parte da solução.

Mimi

Sim, mas há um problema: menos caçadores. A caça tradicional poderia ajudar a controlar populações, mas essa prática está em declínio. É um desafio que o governo reconhece, mas não tem solução óbvia.

  • As colisões com ungulados nas estradas portuguesas cresceram de menos de 20 por ano em 2015 para mais de 140 em 2025 só nas vias da IP, com mais de mil incidentes anuais contabilizados em todo o país.
  • Os javalis são os principais protagonistas do conflito, responsáveis por 762 das 856 colisões registadas desde 2010, enquanto regiões como Coimbra e Viseu enfrentam pressão particularmente intensa.
  • Para além das estradas, os prejuízos agrícolas causados por javalis ultrapassam os oito milhões de euros anuais só na cultura do milho, ameaçando especialmente a agricultura familiar.
  • O Governo encomendou o projeto 'Impacto', coordenado pela Universidade de Aveiro e operacionalizado pelo ICNF, para mapear densidades populacionais, testar medidas de mitigação e avaliar a eficácia dos controlos já em vigor.
  • A diminuição do número de caçadores ativos preocupa as autoridades, que reconhecem na caça tradicional um instrumento potencial de gestão populacional que está a perder força precisamente quando mais seria necessário.

Nas estradas e campos de Portugal, o encontro entre o mundo humano e o selvagem tornou-se cada vez mais frequente e custoso. Em quinze anos, as colisões com javalis e veados passaram de uma raridade a uma realidade quotidiana, ultrapassando já mil incidentes anuais em todo o país — reflexo de populações de ungulados em expansão e de um território que já não separa com clareza o domínio da natureza do da civilização. A ciência e o Estado procuram agora, com urgência, encontrar formas de gerir este conflito antes que os seus custos — humanos, económicos e ecológicos — se tornem irreversíveis.

As estradas portuguesas tornaram-se palco de um conflito crescente entre humanos e animais selvagens. Desde 2010, a Infraestruturas de Portugal acumulou 856 colisões com ungulados — javalis, veados e corços —, sendo 762 envolvendo javalis. O crescimento é quase ininterrupto: de menos de vinte incidentes anuais há quinze anos para mais de 140 em 2025. Estes dados foram apresentados pela bióloga Graça Garcia num seminário na Lousã dedicado ao impacto dos ungulados selvagens no país.

O panorama é ainda mais sombrio quando se consideram todas as vias nacionais. Um projeto da Universidade de Aveiro, coordenado por Carlos Fonseca, contabilizou mais de 500 acidentes anuais entre 2019 e 2020, e o número já ultrapassou a marca de mil colisões por ano. Coimbra e Viseu destacam-se como zonas críticas. O fenómeno reflete a expansão real das populações de ungulados, mas também uma maior capacidade de registo e reporte dos incidentes.

Os impactos estendem-se para além da segurança rodoviária: os prejuízos causados por javalis na agricultura — só no milho — ultrapassam os oito milhões de euros anuais. Para responder ao desafio, o Governo encomendou o projeto 'Impacto', a cargo do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro e operacionalizado pelo ICNF, com o objetivo de mapear densidades populacionais, desenvolver ferramentas práticas de mitigação e disponibilizar orientações às comunidades afetadas.

A questão exige equilíbrio delicado. O presidente da Câmara da Lousã, Victor Carvalho, sublinhou que espécies como o veado e o javali geram também oportunidades turísticas e económicas, sendo necessário conciliar conservação com proteção agrícola. Entretanto, a diminuição do número de caçadores ativos preocupa o secretário de Estado das Florestas, Rui Ladeira, que reconhece na caça tradicional um instrumento de controlo populacional que se vai perdendo. O projeto avaliará ainda se as medidas já definidas pelo ICNF para reduzir a população de javalis estão a produzir resultados tangíveis.

As estradas portuguesas tornaram-se um ponto de encontro cada vez mais perigoso entre humanos e animais selvagens. Desde 2010, a Infraestruturas de Portugal tem registado colisões com javalis, veados, corços e outros ungulados, e o padrão é inequívoco: o número não para de crescer. Há quinze anos, menos de vinte destes incidentes ocorriam anualmente. Em 2025, ultrapassaram as 140 colisões apenas nas vias sob responsabilidade da IP. Graça Garcia, bióloga da Infraestruturas de Portugal, apresentou estes dados num seminário realizado na Lousã dedicado ao impacto dos ungulados selvagens no país. O total acumulado desde 2010 chega a 856 colisões, sendo a esmagadora maioria — 762 — envolvendo javalis.

Mas o quadro é ainda mais preocupante quando se olha para além das estradas da IP. Um projeto desenvolvido pela Universidade de Aveiro e promovido pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas contabilizou mais de 500 acidentes anuais apenas entre 2019 e 2020, considerando todas as vias do país. Segundo Carlos Fonseca, que coordena o projeto "Impacto" e liderou o trabalho anterior, o número de colisões já ultrapassou a marca de mil incidentes por ano. Algumas regiões enfrentam pressão particularmente intensa — Coimbra e Viseu destacam-se como zonas críticas onde a abundância destas espécies é maior e os acidentes mais frequentes.

O crescimento exponencial tem múltiplas causas. Garcia apontou não apenas a expansão territorial dos javalis, mas também uma maior disponibilidade de informação sobre estes incidentes. Contudo, o fenómeno reflete uma realidade biológica e ecológica mais profunda: as populações de ungulados estão a aumentar significativamente em Portugal, e as estradas tornaram-se um espaço de conflito inevitável. Os impactos vão muito além da segurança rodoviária. A agricultura sofre perdas substanciais — estima-se que apenas na cultura do milho os prejuízos causados por javalis ultrapassem os oito milhões de euros anualmente.

Para responder a este desafio crescente, o Governo encomendou um projeto que procura definir estratégias de mitigação e compreender melhor a evolução das populações de ungulados. O trabalho científico está a cargo do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro, operacionalizado pelo ICNF. Fonseca sublinhou uma verdade fundamental: sem dados sobre densidades populacionais, é impossível desenhar medidas de gestão eficazes. O projeto não se limita a recolher informação — pretende desenvolver e testar ferramentas práticas para reduzir os impactos destes animais e disponibilizar um guião para as comunidades afetadas.

A questão, porém, não é simples. Victor Carvalho, presidente da Câmara da Lousã, realçou a necessidade de encontrar equilíbrio entre a conservação de espécies como o veado e o javali — que atraem turismo e geram oportunidades económicas — e a proteção dos sistemas agrícolas, particularmente a agricultura familiar. É possível compatibilizar objetivos de conservação com a salvaguarda da produção agrícola, argumentou. Mas há outro fator em jogo: o número de caçadores ativos tem diminuído, e estes poderiam desempenhar um papel importante no controlo das populações. Rui Ladeira, secretário de Estado das Florestas, manifestou preocupação com esta tendência, reconhecendo que a caça tradicional poderia ajudar a gerir um problema que afeta simultaneamente a segurança nas estradas e a viabilidade económica do setor agrícola. O projeto "Impacto" irá também avaliar se as medidas já definidas pelo ICNF para reduzir a população de javalis estão a produzir resultados tangíveis.

Sem informação base sobre densidades, não temos informação para definir medidas de adaptação para melhor gerir estas populações
— Carlos Fonseca, coordenador do projeto "Impacto"
É possível compatibilizar objetivos de conservação da natureza com a salvaguarda da agricultura
— Victor Carvalho, presidente da Câmara da Lousã
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