Criptomoeda B22 oferece 30 mil unidades a usuários que compartilhem conteúdo favorável a Flávio Bolsonaro, com registro em domínio americano e envolvimento de grupo de dança de Uganda. Vídeo de Pablo Marçal edita conversa de 2016 entre Lula e Eduardo Paes, reordenando falas para sugerir que presidente insultou evangélicos e pobres, acumulando 116,9 mil curtidas.
Coligação de Lula denuncia criptomoedas e vídeo manipulado de Marçal ao TSE
Edição insere fala ofensiva retirada de outro momento para sugerir insulto aos evangélicos
Como a coligação de Lula conseguiu reunir essas provas sobre o Brasil 22 Token e o envolvimento do grupo de Uganda?
A documentação foi apresentada à Procuradoria-Geral Eleitoral. Eles rastrearam o domínio registrado em 6 de outubro, acompanharam as transferências de criptomoedas pela Binance e identificaram o timing — onze minutos entre a transferência para o HypersKids e a publicação do vídeo pedindo votos.
Mas aí está o ponto: a coligação apresentou as provas, mas as suspeitas ainda dependem de investigação. A participação de perfis na divulgação do projeto, por si só, não comprova compra de votos ou responsabilidade direta dos candidatos pelo lançamento.
E quanto ao vídeo de Marçal? Como eles provam que foi manipulado?
Eles têm a gravação original de 2016 entre Lula e Eduardo Paes. Mostram que a fala ofensiva foi retirada de outro contexto — Lula estava criticando procuradores, não evangélicos — e inserida em sequência diferente para mudar o significado.
Verdade, mas o argumento depende de como o TSE interpreta "manipulação". Editar é diferente de falsificar. O tribunal precisa decidir se reordenar falas, mesmo que mude o sentido, viola as regras eleitorais.
Por que o prazo de inscrição do B22 é 26 de outubro, um dia depois da votação?
É estranho, não é? A coligação aponta isso como evidência de que o projeto estava vinculado à campanha. Se fosse legítimo, por que fechar as inscrições depois da eleição?
Sim, mas também pode ser coincidência ou má planejamento. A denúncia levanta a questão, mas não prova intenção. A Procuradoria vai precisar investigar os comunicados internos, os e-mails, quem decidiu essas datas.
Quantas vezes Marçal já foi denunciado?
Esta é a quarta representação em pouco mais de uma semana. Vídeos sobre evangélicos, conotação sexual em discurso, a bandeira brasileira. O padrão é claro para a coligação.
O padrão existe, mas cada caso é independente. O TSE já removeu alguns conteúdos, concedeu medidas de urgência em outros. Isso mostra que o tribunal está agindo, mas também que cada denúncia precisa de análise própria. Não é automático.
El Pulso
- Brasil 22 Token oferece 30 mil unidades a usuários que compartilhem conteúdo favorável a Flávio Bolsonaro
- Grupo de dança de Uganda (HypersKids) recebeu 120 milhões de tokens, equivalentes a R$ 104,5 mil
- Vídeo de Marçal acumulou 116,9 mil curtidas e 4,2 mil comentários antes da denúncia
- Quarta representação contra Marçal em pouco mais de uma semana
- Segundo turno marcado para 25 de outubro
Criptomoeda B22 oferece 30 mil unidades a usuários que compartilhem conteúdo favorável a Flávio Bolsonaro, com registro em domínio americano e envolvimento de grupo de dança de Uganda. Vídeo de Pablo Marçal edita conversa de 2016 entre Lula e Eduardo Paes, reordenando falas para sugerir que presidente insultou evangélicos e pobres, acumulando 116,9 mil curtidas.
A coligação Brasil Pronto pra Mais denunciou ao TSE o uso de criptomoedas (Brasil 22 Token) como remuneração por propaganda pró-Flávio Bolsonaro e vídeos manipulados de Pablo Marçal distorcendo falas de Lula sobre evangélicos.
A coligação que apoia a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou duas denúncias à Justiça Eleitoral nesta quinta-feira, 8 de outubro, acusando a campanha de Flávio Bolsonaro de usar criptomoedas como pagamento por propaganda política e de disseminar vídeos manipulados que distorcem falas do presidente sobre evangélicos e pobres.
A primeira denúncia envolve o Brasil 22 Token, uma criptomoeda lançada esta semana associada à candidatura de Bolsonaro. O projeto oferece 30 mil unidades do ativo a cada uma das primeiras mil pessoas que compartilharem conteúdos favoráveis ao candidato nas redes sociais. O prazo para inscrição foi fixado em 26 de outubro, um dia após a votação do segundo turno. A página de divulgação usa o slogan "Compre. Publique. Inspire. Ganhe B22" e, segundo a coligação, promete recompensar usuários que incentivem outras pessoas a votar no número 22. O domínio brasil22token.com foi registrado em 6 de outubro nos Estados Unidos, com proteção de dados do titular. A campanha de Lula argumenta que esse mecanismo pode configurar remuneração por propaganda eleitoral, exigindo investigação sobre a origem dos recursos e identificação dos responsáveis.
A denúncia também aponta a participação do HypersKids, um grupo infantil de dança de Uganda com aproximadamente 12,9 milhões de seguidores no Instagram. Segundo a documentação, uma carteira digital financiada pela corretora Binance criou o B22 e transferiu 120 milhões de unidades do ativo para outra carteira apresentada como pertencente ao grupo africano. Onze minutos depois da transferência, o perfil do HypersKids publicou um vídeo mostrando crianças vestindo camisetas com a identificação B22 pedindo votos para Flávio Bolsonaro. Os 120 milhões de tokens representavam aproximadamente R$ 104,5 mil na quinta-feira, e o projeto registrou movimentação de cerca de R$ 1,06 milhão em 24 horas. A imprensa identificou Kevim Flores como possível idealizador da iniciativa, que teria anunciado perspectiva de valorização superior a 3 mil por cento do ativo até a eleição. A coligação pede que as autoridades esclareçam a participação do grupo estrangeiro, a existência de pagamentos e as circunstâncias do uso de imagens de crianças na propaganda.
Na representação registrada sob o número PGR-00461288/2026, a coligação solicita que a Procuradoria-Geral Eleitoral investigue a origem dos recursos, identifique os administradores do projeto e apure eventual compra de votos. Os advogados mencionam a possibilidade de infração ao artigo 334 do Código Eleitoral, que trata do uso de organização comercial para propaganda ou aliciamento de eleitores. A coligação também pede preservação dos registros digitais relacionados às operações nas redes sociais e na Binance, além de cooperação jurídica com os Estados Unidos para rastrear as transações.
A segunda frente judicial tem como alvo o empresário Pablo Marçal, que anunciou sua participação na campanha de Bolsonaro em 29 de setembro. A coligação apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral uma representação para remover do Instagram um vídeo de 57 segundos que utiliza trechos de uma conversa telefônica entre Lula e Eduardo Paes registrada em março de 2016. Segundo a denúncia, o material reordena as declarações para transmitir a impressão de que Lula insultou evangélicos. Na gravação original, Paes menciona que integrantes do Ministério Público são religiosos. A edição insere, na sequência, uma fala ofensiva de Lula retirada de outro momento do diálogo, acompanhada da frase "Ele não gosta de evangélicos". A coligação afirma que o presidente não dirigiu a declaração aos fiéis, mas criticava integrantes do Ministério Público que atuavam nas investigações contra ele. Quando Paes mencionou que os procuradores eram "crentes", Lula respondeu: "É uma coisa absurda".
O mesmo vídeo também tenta associar o presidente a críticas aos pobres. A representação aponta que a publicação utiliza comentários de Eduardo Paes sobre o estilo de vida de Lula e inclui a mensagem "E TAMBÉM NÃO GOSTA DE POBRE". A coligação sustenta que a montagem procura transformar declarações de Paes em uma suposta manifestação do presidente contra a população de baixa renda, combinando falas de diferentes momentos, fotografias, legendas e referências a veículos de comunicação para apresentar a narrativa como se tivesse respaldo jornalístico. No momento em que a campanha reuniu as provas, a publicação acumulava aproximadamente 116,9 mil curtidas e 4,2 mil comentários. Os advogados argumentam que o procedimento ultrapassa os limites da crítica política porque modifica o contexto das declarações e atribui ao presidente uma posição que ele não expressou.
Esta é a quarta representação contra Marçal em pouco mais de uma semana. Em 3 de outubro, o TSE determinou a retirada de vídeos que retratavam Lula como adversário dos cristãos. Outra representação contesta uma edição que atribui conotação sexual a um discurso do presidente. A terceira envolve a divulgação de imagens que sugerem que Lula teria amassado e jogado a bandeira brasileira no chão, caso em que a Justiça Eleitoral também concedeu parcialmente uma medida de urgência. Na ação mais recente, sob relatoria da ministra Estela Aranha, os advogados pedem que o TSE determine a exclusão imediata do vídeo sobre evangélicos, impeça novas publicações do mesmo material e aplique a multa máxima prevista na legislação eleitoral.
As duas iniciativas chegam à Justiça Eleitoral a pouco mais de duas semanas do segundo turno, previsto para 25 de outubro. A Procuradoria-Geral Eleitoral deverá esclarecer se os organizadores do B22 utilizaram ativos virtuais como forma de pagamento por propaganda eleitoral e se houve oferta de vantagens para influenciar votos. O TSE, por sua vez, deverá avaliar os argumentos sobre a alteração da sequência das declarações no vídeo de Marçal e decidir se o conteúdo viola as regras eleitorais que disciplinam a divulgação de informações falsas ou descontextualizadas. Até o momento, as denúncias ainda aguardam análise das autoridades competentes.
Citas Notables
É uma coisa absurda— Lula, em resposta a Eduardo Paes sobre procuradores religiosos, em conversa de 2016
A coligação questiona a utilização de recompensas financeiras para estimular propaganda política nas redes sociais— Equipe do presidente Lula, em comunicado sobre a denúncia