Cofundador da Fatal admite que patrocínio ao Corinthians visa 'naturalizar' conteúdo adulto

Potencial exposição de crianças e adolescentes a conteúdo adulto através de patrocínio em uniforme de clube de futebol de grande circulação.
Naturalizar a presença de uma plataforma de conteúdo adulto no cotidiano dos brasileiros
O objetivo declarado da Atlas Technologies ao investir R$ 22 milhões no patrocínio do Corinthians.
Mark

Por que um site de conteúdo adulto precisa de um uniforme de futebol para ganhar credibilidade?

Mimi

Porque a credibilidade não vem do produto em si — vem de quem está ao lado dele. Um uniforme de Corinthians carrega décadas de confiança. Colocar a marca ali é transferir essa confiança por osmose, como o executivo mesmo disse.

Mark

Mas ele reconhece que isso vai alcançar crianças, certo?

Mimi

Reconhece, mas minimiza. Diz que a publicidade em si não é erotizada, que é só uma marca. Mas a repórter conseguiu acessar o site sem verificação de idade. Então há uma lacuna entre o que ele diz que funciona e o que realmente funciona.

Mark

E quanto ao consumo compulsivo? Ele se preocupa com isso?

Mimi

Não. Admitiu que a empresa ainda não tem políticas para usuários com comportamento problemático. Disse que é um tema relevante, mas que carece de debate. Basicamente, não é prioridade.

Mark

Como ele justifica o patrocínio se não é para vender mais acessos?

Mimi

Diz que é para normalizar a marca, para tirar o medo das pessoas. Mas depois reconhece que toda polêmica gera curiosidade e, portanto, efeitos comerciais. É uma contradição que ele não resolve.

Mark

E se uma filha dele quisesse trabalhar com isso?

Mimi

Ele diz que respeitaria e daria recomendações para que ela fizesse com segurança. Mas não estimularia nem desestimularia. É uma resposta que tenta não ofender ninguém, mas que também não toma posição.

  • Contrato de R$ 22 milhões entre Corinthians e Fatal Fans até 2027
  • Fatal Fans reúne 30 mil criadores e recebe 7 milhões de visitas por mês
  • Representações encaminhadas ao Ministério Público de São Paulo e projetos de lei protocolados por deputadas

Atlas Technologies investe em visibilidade da marca Fatal Fans ao lado de marcas confiáveis para transferir credibilidade por osmose, segundo executivo. Polêmica envolve exposição de conteúdo adulto a milhões de crianças e adolescentes torcedoras, motivando representações ao Ministério Público e projetos de lei.

Cofundador da Fatal Fans explica que patrocínio de R$ 22 milhões ao Corinthians visa naturalizar presença de plataforma de conteúdo adulto no Brasil, gerando críticas sobre proteção de menores.

Samuel Ongaratto, cofundador e diretor de negócios da Atlas Technologies, não disfarça o cálculo por trás do investimento de R$ 22 milhões que sua empresa fez no Corinthians até 2027. A Fatal Fans, plataforma de assinatura de conteúdo adulto que agora estampa o uniforme do clube, não está ali para vender mais acessos — ou pelo menos não apenas por isso. Está ali para mudar como os brasileiros veem a marca.

"Quando você coloca a marca de um site adulto em um lugar de prestígio, ao lado de marcas que têm confiabilidade, essa confiabilidade passa para ela por osmose", explicou Ongaratto em entrevista à Folha. É uma estratégia deliberada de normalização. A Fatal Fans funciona como um site de assinatura onde usuários pagam para acessar fotos e vídeos eróticos ou pornográficos produzidos por mulheres, homens e casais — modelo semelhante ao OnlyFans. A empresa retém 15% de cada transação. Segundo a Atlas Technologies, o site reúne cerca de 30 mil criadores de conteúdo e recebe 7 milhões de visitas por mês. A Fatal Models, outra marca do grupo, já patrocinou outros times de futebol e funciona como plataforma de acompanhantes, com 30 milhões de acessos mensais e faturamento previsto de R$ 180 milhões em 2026.

O contrato chegou em momento crítico para o Corinthians. O clube enfrenta uma dívida que oscila entre R$ 2,4 bilhões e R$ 2,7 bilhões, e o acordo deu fôlego ao caixa. Mas também lançou o time numa polêmica nacional sobre os limites da publicidade no esporte e a proteção de crianças e adolescentes. Representações foram encaminhadas ao Ministério Público de São Paulo. Deputadas estaduais e federais — Maria Helou, Sâmia Bonfim e Tábata Amaral — protocolaram projetos de lei para proibir publicidade de conteúdo adulto em espaços públicos e eventos esportivos.

Ongaratto reconhece que a estratégia funciona exatamente porque alcança pessoas que antes tinham receio de acessar o site. "Pessoas que tinham vontade, mas não tinham coragem de acessar o site por medo de que ele colocasse um vírus no seu computador, tenham tranquilidade para acessá-lo", disse. Mas essa mesma lógica alimenta a principal crítica: expor uma marca ligada ao mercado adulto em um dos maiores clubes do país alcança também milhões de crianças e adolescentes que acompanham o futebol.

Quando confrontado com essa preocupação, o executivo minimizou o risco. "Eu me preocuparia mais com uma criança no estádio de futebol vendo o tiozão do lado xingando a mãe do juiz do que com uma propaganda sobre a qual eu acho improvável que ela pergunte alguma coisa", sugeriu. Defendeu que a publicidade não é direcionada a menores, não tem sensualização e não é imprópria. "A gente nunca fez peça publicitária convidando para acessar site ou contratar acompanhante ou com objetificação do corpo de pessoas."

Mas quando a repórter informou que havia acessado tanto a Fatal Models quanto a Fatal Fans sem qualquer verificação etária, a narrativa mudou. Ongaratto explicou que o sistema de aferição de idade estava em funcionamento apenas em Maceió. Afirmou que a empresa foi a primeira a implementar esse sistema em março, quando a lei do ECA Digital entrou em vigor. Porém, a Agência Nacional de Proteção de Dados informou que a fiscalização dos sites adultos só começaria em janeiro do próximo ano. "Ficamos sozinhos no mercado operando com aferição de idade", disse. A empresa alertou a agência sobre um "desequilíbrio concorrencial" e suspendeu temporariamente o sistema enquanto o aperfeiçoava. Para a Fatal Fans especificamente, o conteúdo é fechado — exige pagamento e, no momento da transação, há aferição de idade e identificação do usuário via CPF.

Quando questionado sobre consumo compulsivo de pornografia, um fenômeno crescente com o aumento do acesso a esse tipo de conteúdo, Ongaratto admitiu que a empresa ainda não desenvolveu políticas específicas para usuários com comportamento problemático. Reconheceu que a discussão carece de mais debate dentro da empresa. Também confirmou que a Fatal não financia pesquisas ou desenvolve mecanismos para compreender os impactos do consumo excessivo de conteúdo adulto.

Ongaratto argumenta que a empresa trabalha para reduzir o estigma em torno de profissionais do sexo e criadores de conteúdo adulto. "Esse mercado historicamente foi colocado debaixo do tapete", disse, defendendo que são "funções legítimas e que cumprem um papel social". Ele namora uma produtora de conteúdo adulto e tem duas filhas de um casamento que acabou recentemente. Quando perguntado se acharia natural se uma de suas filhas escolhesse ser acompanhante ou produtora de conteúdo adulto, riu antes de responder: "Eu respeitaria a decisão delas e daria as melhores recomendações possíveis para que elas possam estar nessa profissão da maneira mais segura possível, com sucesso." O Corinthians, por sua vez, informou que se certificou de que a Fatal Fans operava em conformidade com o ECA Digital e que não haverá comunicação ativa convidando para o site nem publicidade com conotação de objetificação ou erotização.

Quando você coloca a marca de um site adulto em um lugar de prestígio, ao lado de marcas que têm confiabilidade, essa confiabilidade passa para ela por osmose
— Samuel Ongaratto, cofundador da Atlas Technologies
Se fizermos um cálculo do retorno deste investimento, não há conta que o justifique
— Samuel Ongaratto, explicando que o objetivo é normalizar a marca, não ampliar acessos
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