Cobertura da Casas Bahia simplifica crise ao culpar política de Lula

Casas Bahia demitiu quase 12 mil funcionários desde 2023; investigação revela esquema de exploração sexual de crianças e adolescentes na estrutura da empresa durante décadas.
Culpar a política fiscal é mais simples que contar essa história toda
A cobertura simplificou a crise da Casas Bahia focando em Lula, ignorando fraudes, exploração e decisões internas da varejista.
Mark

Por que um editorial sobre a Casas Bahia virou crítica de cobertura jornalística?

Mimi

Porque o editorial simplificou demais. Colocou Lula como personagem principal de uma crise que tem raízes muito mais profundas — e fez isso em plena campanha eleitoral.

Mark

Mas os juros altos não pioram a situação de uma varejista?

Mimi

Claro que pioram. Mas a Casas Bahia já tinha problemas estruturais há anos. Brigas familiares, decisões ruins tomadas quando os juros eram baixos, durante a pandemia. O editorial reconhecia isso, mas depois focava tudo em Lula.

Mark

Então o jornal sabia da história completa?

Mimi

Sabia. O próprio texto mencionava gestão deficiente, estratégia comercial falha, disputas societárias. Mas o destaque — o que fica na cabeça do leitor — era o presidente e os gastos dele.

Mark

E havia outras coisas que não apareceram?

Mimi

Muitas. Investigações por fraude, esquemas de exploração sexual que duraram décadas dentro da empresa, manipulação de registros. A crise virou moeda eleitoral. Tudo isso ficou para trás.

Mark

Como outros jornais trataram?

Mimi

O Estado conseguiu equilibrar melhor. Citou especialistas explicando que a fragilidade vinha de decisões antigas. Mas também reproduziu bastante a narrativa dos juros.

Mark

O que faltou mesmo?

Mimi

Clareza sobre quanto dessa dívida é responsabilidade da empresa, quanto vem de decisões políticas antigas, e quanto envolve dinheiro público. E contar a história completa — não em pedaços que servem a um argumento.

  • Editorial da Folha associou nominalmente Lula à crise da Casas Bahia em plena campanha eleitoral
  • Casas Bahia demitiu quase 12 mil funcionários desde 2023
  • Investigação revela esquema de exploração sexual de crianças na estrutura da empresa durante décadas
  • Empresa investigada por fraude bilionária no ICMS e manipulação de registros de bônus

Editorial da Folha associou nominalmente Lula à crise da Casas Bahia de forma factualmente simplista, apesar de reconhecer múltiplas variáveis envolvidas na falência. Casas Bahia enfrentava problemas estruturais há anos, incluindo brigas familiares, decisões ruins em período de juros baixos e investigações por fraude no ICMS e manipulação de bônus.

Ombudsman critica cobertura simplista da recuperação judicial da Casas Bahia, que atribui excessivamente a crise à política fiscal de Lula, ignorando gestão deficiente, disputas societárias e fraudes internas da varejista.

Quando uma grande rede de varejo entra em colapso, a história que os jornais contam importa. Não apenas pelo que dizem, mas pelo que deixam de lado. Na semana passada, a Folha de S.Paulo publicou um editorial que colocava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no centro da crise da Casas Bahia e da Marabraz — duas gigantes do varejo que pediam recuperação judicial. O subtítulo era direto: a política de gastos do governo agravava os problemas. O problema é que essa narrativa, por mais que contenha verdades parciais, simplifica demais uma história muito mais complicada.

A recuperação judicial de varejistas é um tema árido, cheio de detalhes técnicos que raramente ganham clareza na imprensa. Mas essas lojas fazem parte da vida cotidiana de milhões de brasileiros. O próprio editorial reconhecia que transformações de mercado, deficiências de gestão, estratégia comercial falha e disputas societárias tinham papéis relevantes nas crises. Ainda assim, o destaque desmesurado ao presidente como fator agravante — especialmente em plena campanha eleitoral — soava ingênuo ou publicitário demais diante da realidade das árvores de erros que essas varejistas cometeram.

Outros jornais também focaram nos juros como vilão da história. O Estado de S. Paulo e O Globo seguiram essa linha, reproduzindo até o argumento que a própria Casas Bahia usava para explicar ao mercado como havia chegado àquele ponto. Mas O Estado conseguiu contrabalançar melhor essa versão em suas reportagens e colunas. Uma matéria na seção de investimentos do concorrente paulistano citava especialistas apontando que a fragilidade financeira das varejistas tinha raiz em decisões tomadas ainda em período de juro baixo — notadamente durante a pandemia. A Casas Bahia já havia feito um acordo extrajudicial com bancos em 2024, cobrindo apenas uma fração da dívida, e operava com problemas há anos.

O que faltou à cobertura foi mostrar melhor como se estilhaçou a vitrine de otimismo do primeiro semestre de 2026. Em março, o CEO do grupo afirmava na Folha que o pior momento da Casas Bahia já havia passado e que a empresa tinha uma das mais baixas alavancagens do varejo. O jornal noticiava R$ 10,2 bilhões de vendas pelo crediário em 2025. Mas a empresa também demitiu quase 12 mil funcionários desde 2023. Brigas familiares atrasaram sua modernização. E havia questões muito mais sombrias envolvidas.

Um colunista do Estado chamou atenção para algo que raramente aparecia na cobertura: o fundador Samuel Klein manteve por décadas um esquema de aliciamento e exploração sexual de crianças e adolescentes dentro da própria estrutura da empresa, segundo investigação da Agência Pública. Seu filho, Saul Klein, virou réu em maio deste ano, processado por favorecimento à prostituição, tráfico de pessoas envolvendo vítimas menores e participação em organização criminosa. A defesa nega as acusações, mas o estrago na marca é inegável.

Há também questões de política pública que mereciam mais atenção. A Folha informou que a taxa sobre importações de até US$ 50 — que havia sido isenta — pode voltar porque deputados e senadores consideravam que os pedidos de recuperação judicial de grupos como Casas Bahia e Marabraz tornavam o assunto mais delicado. O movimento não foi à toa: a crise das varejistas virou moeda eleitoral nas campanhas de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.

Mas há ainda mais. O Metrópoles relatou uma investigação da Polícia Federal sobre suspeita de manipulação no registro de bônus da Casas Bahia. A empresa também é uma das investigadas pelo esquema bilionário de fraude no ICMS descoberto dentro da Secretaria da Fazenda do governo Tarcísio no estado de São Paulo. A cobertura ainda falta em detalhes sobre as confusões em que as próprias empresas se meteram e quanto das dívidas envolve dinheiro do contribuinte brasileiro. Culpar a política fiscal do presidente é mais simples que contar essa história toda.

O fundador Samuel Klein manteve por décadas um esquema de aliciamento e exploração sexual de crianças e adolescentes dentro da própria estrutura da empresa
— Colunista do Estado de S. Paulo, citando investigação da Agência Pública
A fragilidade financeira das varejistas tem raiz em decisões tomadas ainda em período de juro baixo, notadamente na pandemia
— Especialista consultado pelo Estado de S. Paulo
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