O projeto tem a assinatura de um verdureiro legítimo
Em junho de 2022, ano eleitoral em Minas Gerais, uma disputa silenciosa sobre autoria legislativa veio à tona nas redes sociais: o deputado estadual Cleitinho Azevedo reivindicou para si a paternidade do projeto que reduziu a taxa de licenciamento anual de veículos, após o governador Romeu Zema sancionar a lei em tom de conquista de governo. O episódio ilumina uma tensão antiga na democracia representativa — a distância entre quem escreve as leis e quem colhe os aplausos por elas.
- Zema celebrou a sanção da TRLAV reduzida como vitória do seu governo, apresentando o alívio fiscal aos mineiros sem mencionar o deputado que assinou o projeto.
- Cleitinho Azevedo respondeu publicamente nas redes sociais, recusando-se a deixar o crédito político escapar em pleno ano eleitoral em que disputava vaga ao Senado.
- Os números divergiram: enquanto Zema falou em redução de até cem reais, Azevedo destacou que a taxa cairia de R$ 130 para R$ 20 — uma diferença que ampliava o impacto da medida.
- O projeto tramitava desde 2003 e só avançou sob a autoria de Azevedo nas comissões temáticas da Assembleia, tornando sua reivindicação legislativamente fundamentada.
- A disputa expõe a lógica da política mineira: governadores sancionam e anunciam, mas deputados escrevem — e nem sempre recebem o reconhecimento proporcional.
Na quarta-feira de junho, horas após o governador Romeu Zema celebrar a sanção de uma lei reduzindo a Taxa de Renovação e Licenciamento Anual de Veículo (TRLAV), o deputado estadual Cleitinho Azevedo foi às redes sociais para contar sua própria versão da história. Para ele, o verdadeiro arquiteto da mudança não era o governador — era ele mesmo.
Zema havia anunciado a redução em tom de vitória: a partir de 2023, os mineiros pagariam menos pelo licenciamento anual, encerrando uma discussão que se arrastava desde 2003. O deputado do PSC, porém, não estava disposto a ceder o protagonismo. Autodescrito como um "verdureiro legítimo, representante do povo", Azevedo insistiu que o projeto tinha sua assinatura — e foi além dos números do governador, afirmando que a taxa cairia de R$ 130 para R$ 20.
O contexto não era neutro. Azevedo era cotado para disputar uma vaga ao Senado naquele mesmo ano eleitoral, e a aprovação do projeto nas comissões temáticas da Assembleia, em maio, representava um trunfo concreto. A lei também revogou a cobrança pela segunda via do CRLV, já que o documento físico havia sido substituído pelo formato eletrônico desde julho de 2020. A nova metodologia de cálculo da taxa passaria a dividir o orçamento do Detran-MG pelo total de veículos registrados no estado.
A disputa entre Azevedo e Zema revelou uma tensão estrutural da política: quando uma lei é sancionada, quem merece o crédito? O deputado respondeu com clareza — governadores sancionam, mas deputados escrevem. E em ano de eleição, essa distinção importa.
Na quarta-feira de junho, o deputado estadual Cleitinho Azevedo decidiu usar as redes sociais para corrigir o que via como uma omissão. Horas depois que o governador Romeu Zema havia celebrado a sanção de uma lei reduzindo a Taxa de Renovação e Licenciamento Anual de Veículo (TRLAV) em até cem reais, Azevedo postou sua própria versão dos acontecimentos — uma que colocava a ele, não ao governador, como o verdadeiro arquiteto da mudança.
Zema havia anunciado a redução em tom de vitória política. A partir de 2023, disse, os mineiros pagariam menos pelo licenciamento anual. Era uma mudança que vinha sendo discutida desde 2003, mas que só agora se tornava lei. O governador do Novo, que havia sancionado o texto na terça anterior, apresentava a medida como um alívio para o bolso dos contribuintes.
Mas Cleitinho Azevedo, filiado ao PSC e membro da base governamental, não estava disposto a deixar o crédito inteiramente com Zema. Em sua resposta nas redes, o deputado se descreveu como um "verdureiro legítimo, representante do povo que sempre trabalhou e conhece as dificuldades do povo". O projeto, insistiu, tinha sua assinatura. E os números que citou eram ainda mais agressivos que os do governador: a taxa cairia de cento e trinta reais para vinte reais, não apenas cem reais de redução.
O contexto dessa disputa por crédito político não era casual. Azevedo era cotado para disputar uma vaga ao Senado naquele ano eleitoral, ainda pelo PSC. A aprovação do projeto na Assembleia havia ocorrido no início de maio, após tramitar pelas comissões temáticas — um processo que, embora iniciado décadas antes, só havia avançado sob sua autoria.
O projeto havia nascido de uma necessidade prática. Desde julho de 2020, o Certificado de Registro e Licenciamento do Veículo (CRLV) deixou de ser um documento físico e passou a existir apenas em formato eletrônico, acessível pelo celular ou imprimível em papel comum. Mas durante toda a tramitação legislativa, a cobrança da taxa foi mantida — apenas com novos critérios que reduziriam seu valor. A partir de 2023, a TRLAV seria calculada dividindo-se o orçamento do Detran-MG pelo número total de veículos registrados no estado. A memória de cálculo teria de ser divulgada em dezembro do ano anterior à cobrança, sob pena de suspensão do pagamento se houvesse atraso.
O texto também revogou a cobrança pela emissão de segunda via do CRLV, já que o documento físico deixara de existir. Em 2022, antes da aprovação do projeto, a taxa havia sofrido um reajuste de vinte e um por cento, saltando de cento e doze reais e quarenta centavos para cento e trinta e cinco reais e noventa centavos. Conforme a Secretaria de Estado de Fazenda, o estado arrecadava mais de um bilhão de reais com a taxa. As despesas do Detran para normatização e fiscalização de trânsito haviam sido de cinquenta e seis milhões e novecentos mil reais apenas entre janeiro e abril daquele ano.
A disputa entre Azevedo e Zema refletia uma dinâmica comum na política mineira: quando uma lei é sancionada, quem recebe o crédito? O deputado, ao reivindicar a autoria, não apenas buscava visibilidade política em ano de eleição — buscava também reafirmar sua relevância dentro de uma base governamental onde nem sempre os deputados estaduais ganham destaque. Zema havia transformado a sanção em um anúncio de governo. Azevedo respondeu lembrando que governadores sancionam leis, mas deputados as escrevem.
Notable Quotes
Esse projeto tem a assinatura de um verdureiro legítimo, representante do povo que sempre trabalhou e conhece as dificuldades do povo— Cleitinho Azevedo, deputado estadual
Novo alívio no bolso dos mineiros. Mudanças no pagamento da taxa em nosso Estado eram discutidas desde 2003. Agora é lei, e já tá valendo— Romeu Zema, governador de Minas Gerais
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Cleitinho sentiu necessidade de corrigir publicamente o governador sobre um projeto que já havia sido aprovado?
Porque em política, quem anuncia a vitória muitas vezes fica com o crédito na memória pública. Zema sancionou a lei, mas Cleitinho a escreveu e a guiou pela Assembleia. Ele estava dizendo: não esqueçam de quem realmente fez isso acontecer.
E isso importa em um ano eleitoral?
Importa muito. Cleitinho era cotado para o Senado. Mostrar que você consegue fazer coisas concretas — reduzir impostos, aliviar o bolso das pessoas — é exatamente o tipo de realização que você quer que os eleitores lembrem.
A redução que ele citou era maior que a que Zema anunciou. Por quê?
Porque Cleitinho estava falando do valor final da taxa, não apenas da redução. Ele disse que cairia de cento e trinta para vinte reais. Zema disse que seria reduzida em até cem reais. Ambos estavam certos, mas contavam a história de formas diferentes.
Essa discussão sobre a TRLAV vinha de longe?
Desde 2003. Mas ninguém havia conseguido transformá-la em lei até agora. O gatilho foi prático: quando o documento de licenciamento virou digital, em 2020, a cobrança da taxa deixou de fazer tanto sentido. Cleitinho aproveitou esse momento.
Qual era o tamanho real dessa mudança para o estado?
O estado arrecadava mais de um bilhão de reais com essa taxa. Não era uma mudança pequena. E o Detran precisava desse dinheiro — gastava dezenas de milhões apenas em operações básicas.