Claudia Faissol busca parceria para documentário inédito sobre João Gilberto

Show é uma coisa, filmagem é outra
João Gilberto explicava sua resistência a câmeras durante as apresentações, uma característica que marcou o trabalho de Claudia.
Mark

Como Claudia conseguiu acumular tanto material se João era tão resistente a câmeras?

Mimi

Ela foi persistente, mas respeitosa. Começou com cartas e conversas. Quando ele via que ela tinha permissão para filmar, às vezes pedia o equipamento de volta para devolver a ela pessoalmente — um jeito dele de autorizar sem avisar a produção.

Luke

Mas isso significa que nem tudo no arquivo tem autorização clara, certo? Alguns registros podem estar em uma zona cinzenta.

Mimi

Não, na verdade João formalizou tudo em cartório. Dois documentos, em 2000 e 2005, autorizando tanto a biografia quanto o documentário. O mais recente detalha como o material pode ser usado.

Mark

E por que ela está procurando parceria agora, depois de tanto tempo?

Mimi

Porque o arquivo é enorme e ela ainda não conseguiu catalogar tudo. Precisa de recursos para preservar, transferir para novos formatos, e depois produzir o documentário e o filme.

Luke

Quanto material estamos falando? Ela tem números?

Mimi

Não. Ela mesma diz que não consegue precisar quantas fotos tem nem a duração total das filmagens. O curta de 15 minutos é só uma primeira montagem.

Mark

E a filha deles, Luísa, está envolvida no projeto?

Mimi

Não diretamente no documentário. Mas o arquivo já foi usado no disco de estreia dela, lançado em maio. Ela foi indicada ao Grammy Latino.

Luke

Há uma questão de sucessão pendente, não é? Três filhos disputando direitos autorais?

Mimi

Sim. A sucessão de João ainda não foi definida. Há disputa entre os três filhos e uma companheira que reivindicam direitos hereditários. O tribunal manteve uma proibição de retirada de valores até resolver tudo.

Mark

Isso complica o projeto de Claudia?

Mimi

Potencialmente. Mas ela tem autorização formal de João para fazer o documentário e o filme. A questão legal é mais sobre a sucessão geral do patrimônio dele.

  • Curta de 15 minutos editado, roteiro de longa e acervo com fotos e vídeos desde os anos 1990
  • João Gilberto autorizou formalmente em cartório em 2000 e 2005 a realização de biografia e documentário
  • Claudia Faissol dedicou mais de 20 anos a João Gilberto e deixou de lado trabalhos próprios
  • Sucessão de João permanece indefinida na Justiça, com disputa entre três filhos e companheira

Faissol possui curta de 15 minutos editado, roteiro de longa e acervo com fotos e vídeos de apresentações, cenas domésticas e gravações de canções nunca antes divulgadas. João Gilberto autorizou formalmente em cartório tanto a biografia quanto o documentário em 2000 e 2005, com documentos detalhando aspectos da produção audiovisual.

Jornalista Claudia Faissol, mãe da filha caçula de João Gilberto, busca parceria para produzir documentário e longa-metragem com registros inéditos do músico acumulados desde os anos 1990.

Claudia Faissol tem nas mãos um arquivo que ninguém viu. Um curta-metragem de 15 minutos já montado. Um roteiro para um longa que ainda não tem título. Fotografias e filmes acumulados desde os anos 1990, guardados em cidades que vão do Rio de Janeiro a Tóquio, de Salvador a San Francisco. Agora ela procura um parceiro que a ajude a transformar esse material em documentário — e depois em filme — sobre João Gilberto, o músico que morreu em 2019 aos 88 anos e que foi o pai de sua filha caçula, Luísa Carolina.

Faissol é jornalista e passou mais de 20 anos ao lado de João. Conheceu-o aos 18 anos na clínica odontológica de seu pai, onde o músico era paciente. O que começou como amizade evoluiu para um relacionamento que ela prefere não datar com precisão — esse momento, diz, ficará para o filme. O que ela sabe é que dedicou duas décadas a João, deixando de lado trabalhos próprios, abandonando um estágio na TV Globo, envolvendo-se em questões práticas da carreira e das apresentações dele.

O arquivo que ela construiu é resultado dessa proximidade e de uma persistência que o próprio João tornava difícil. Ele tinha uma característica bem conhecida: resistia a câmeras e gravações que não controlasse. Conforme as tecnologias evoluíram de analógicas para digitais, sua preocupação cresceu — temia que técnicos tivessem acesso às imagens e as colocassem na internet. Faissol tentou convencê-lo por cartas e telefonemas. João argumentava que ser filmado interferia em sua concentração para tocar. Nos shows, ela viu seguranças retirarem equipamentos de fotógrafos e cinegrafistas. Às vezes sua própria câmera era recolhida — até que João a pedia de volta e a devolvia a ela, sem informar à produção que havia permitido aquelas imagens específicas. Em 2008, quando ela participou da organização de apresentações dele, ouviu João dizer claramente: "Show é uma coisa, filmagem é outra, e as propostas para filmagem até hoje não foram boas para o lado do artista."

Apesar dessa resistência, o acervo cresceu. Faissol tirou a maioria das fotos e quase todos os vídeos. Depois que Luísa nasceu em 2004, ela começou a contratar cinegrafistas para registrar as apresentações de João. O material inclui canções nunca divulgadas, cenas domésticas, viagens, bastidores de shows, momentos com a família dela, com Luísa, e gravações em que João responde a perguntas. Ela ainda não consegue precisar quantas fotografias tem nem a duração total das filmagens — o trabalho de catalogação está apenas começando. O que existe é um curta de 15 minutos já editado que funciona como uma primeira montagem desse acervo, além de um roteiro para o longa e documentos que ela pretende usar junto com as imagens: uma carta de 2016 da Universidade Columbia convidando João a receber um doutorado honorário em música, e sua resposta de janeiro de 2017 aceitando o convite.

Faissol tem autorização formal para fazer tudo isso. A Folha teve acesso a dois documentos com firma reconhecida em cartório, datados de 2000 e 2005, nos quais João autorizou tanto a biografia quanto o documentário. O mais recente tem seis páginas e 13 itens detalhando aspectos da produção e da captação de recursos para o projeto audiovisual. Mas a autorização vem com limites claros: ela pode usar o material para seus próprios registros, mas não para liberá-lo indiscriminadamente a terceiros.

Agora Faissol busca uma parceria para produzir, preservar e distribuir o material. Sua preferência é por uma empresa que também possa levar o projeto ao exterior. Não há orçamento fechado nem diretor definido para o longa. Ela quer participar do desenvolvimento do documentário e depois realizar um filme baseado em acontecimentos reais. Está trabalhando também em uma série de pinturas que chama de "Bossa-Nova Raiz", inspiradas nas músicas que aprendeu com João. O projeto que ela procura viabilizar começa por uma etapa mais básica: rever, identificar e preservar o material acumulado desde os anos 1990. "Estou em busca de recursos para preservar o acervo de imagens e realizar o documentário e o filme", diz ela. "Todo tipo de apoio será importante em todas as etapas do audiovisual, ajuda de produção, distribuição, exibição."

Parte desse arquivo já serviu para outro projeto. No disco de estreia de Loulu Gilberto — nome artístico de Luísa — lançado em maio, a cantora recuperou canções que ouvia e cantava com o pai em casa. A pesquisa do repertório recorreu a vídeos caseiros de Luísa cantando com João, feitos por Claudia. Em setembro, Loulu foi indicada ao Grammy Latino nas categorias Gravação do Ano por "O Amor nos Encontrou" e melhor artista revelação. A premiação será realizada em 12 de novembro.

Mas o projeto enfrenta um cenário legal complexo. João Gilberto teve três filhos em relacionamentos diferentes: João Marcelo, nascido em 1960 de seu casamento com Astrud Gilberto; Bebel, nascida em 1966 de seu casamento com Miúcha; e Luísa Carolina, nascida em 2004 de seu relacionamento com Claudia. Há dois anos, Claudia entrou na Justiça pedindo o reconhecimento de união estável. Outra disputa envolve Maria do Céu Harris, moçambicana que afirma ter mantido união estável com João durante 35 anos, de 1984 até sua morte. Em 2022, ela obteve uma decisão liminar favorável. No ano seguinte, Bebel chegou a um acordo com Maria reconhecendo a união estável entre ela e o pai. João Marcelo e Luísa contestaram a decisão. A sucessão permanece sem definição final. Em decisão noticiada em agosto, o Tribunal de Justiça do Rio manteve a proibição de que os filhos retirassem individualmente valores provenientes de direitos autorais até que fossem resolvidas questões sobre o número de herdeiros, o patrimônio e sua partilha. Faissol diz que seu objetivo imediato é fazer um levantamento completo do que guardou, encontrar uma estrutura profissional capaz de preservá-lo e decidir, junto com produtores, qual será a forma final do projeto.

Até o momento não tive nem condições emocionais de passar por todo o material e decupar tudo com atenção. O final da vida do JG gerou uma situação que me deixou em estado emocional muito abalada.
— Claudia Faissol
Estou em busca de recursos para preservar o acervo de imagens e realizar o documentário e o filme. Todo tipo de apoio será importante em todas as etapas do audiovisual.
— Claudia Faissol
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