Ciro Nogueira usa alianças com Bolsonaro e PT para abafar Banco Master e buscar reeleição

Quem quer que seja o presidente eleito, será necessário sentar com eles
A estratégia de Ciro é consolidar o poder do centrão para negociar com qualquer governo.
Mark

Como Ciro consegue apoio de prefeitos petistas se ele é o principal adversário do PT no estado?

Mimi

Porque dinheiro fala mais alto que partido. Ele distribui R$ 5 bilhões em emendas e verbas federais. Um prefeito petista recebe R$ 3 milhões por ano — isso permite fazer mais investimentos, abrir mais escolas, consertar mais ruas. Ele retribui apoiando Ciro.

Luke

Mas espera — esses R$ 5 bilhões são números dele, certo? A equipe do governador não confirma esse total. E quanto aos R$ 3 milhões por ano — é só um prefeito que falou isso, ou é padrão?

Mimi

É um exemplo específico. O ponto é que funciona. Pelo menos 12 dos 50 prefeitos petistas apoiam abertamente Ciro. O governador tenta evitar mais defecções, mas não consegue.

Mark

E o Banco Master? Isso não prejudica ele?

Mimi

Prejudicou em junho, quando as revelações saíram. Sua aprovação caiu. Mas agora outros políticos também estão envolvidos no esquema, então o dano se dilui.

Luke

Ele nega tudo, certo? A PF investiga, mas não há condenação.

Mimi

Correto. Ele diz que as informações do celular de Vorcaro são falsas.

Mark

Qual é o plano dele se ganhar?

Mimi

Fortalecer o centrão. Quer que o PP, União Brasil e Republicanos formem um bloco que controle um terço da Câmara. Assim, qualquer presidente eleito precisa negociar com ele.

Luke

Isso é especulação sobre o futuro, não?

Mimi

Sim, mas é o que ele está dizendo publicamente que quer fazer.

Mark

E se perder?

Mimi

Seria inédito — nenhum político do Piauí conquistou três mandatos ao Senado. Mas ele tem outras opções: tentar ser vice-presidente novamente ou concorrer ao governo do estado.

  • Ciro afirma ter distribuído R$ 5 bilhões em verbas federais para municípios do Piauí
  • Pelo menos 12 dos 50 prefeitos petistas apoiam abertamente sua candidatura
  • Pesquisa Datafolha de 17 de setembro: Ciro e Marcelo Castro com 17%, Júlio César com 15%
  • PF investiga suspeitas de propina do Banco Master envolvendo Ciro
  • Federação PP-União Brasil reúne 98 deputados federais e dez senadores

Ciro distribui R$ 5 bilhões em emendas parlamentares para prefeitos do Piauí, conquistando apoio político mesmo entre petistas que reconhecem benefícios municipais. Investigações da PF sobre suspeitas de propina do Banco Master prejudicaram aprovação do senador, mas envolvimento de outros políticos no esquema dilui danos eleitorais.

Senador Ciro Nogueira busca reeleição no Piauí com estratégia centrista de alianças simultâneas com PT e Bolsonaro, enquanto tenta minimizar investigações sobre Banco Master.

Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, está em campanha para sua reeleição ao Senado pelo Piauí com uma estratégia que resume a essência do centrão: apoio simultâneo de forças opostas, distribuição de recursos federais para construir lealdade política, e uma cuidadosa ambiguidade sobre suas alianças presidenciais. Em uma viagem de duas horas de carro até Barro Duro, interior do estado, ele foi recebido por funcionários da prefeitura e caminhou até a casa de Coronel Elói, prefeito de 89 anos que o apoia desde 1994. A cena se repete em dezenas de municípios: Ciro explora seu poder em Brasília, afirmando ter distribuído R$ 5 bilhões em verbas federais para cidades piauienses — um cálculo que inclui repasses de sua época como ministro da Casa Civil de Bolsonaro e emendas parlamentares liberadas sob Lula.

Essa rede de apoio foi tecida com dinheiro público. Como presidente do PP, Ciro direcionou 50% dos R$ 358 milhões em emendas da Câmara para o Piauí no ano passado. Seu aliado, o deputado Júlio Arcoverde, presidiu a Comissão de Orçamento e enviou mais R$ 244 milhões para o estado. Juntos, os dois tiveram seis vezes mais emendas de comissão do que o então líder do governo Lula na Câmara. O resultado é uma máquina política que funciona mesmo onde o PT deveria ser hegemônico: pelo menos 12 dos 50 prefeitos petistas do estado apoiam abertamente a candidatura de Ciro. O prefeito Saulo Trajano, do PT, em Passagem Franca do Piauí, discursou que "temos que retribuir tudo o que ele trouxe para nossas cidades". Segundo ele, Ciro aporta R$ 3 milhões por ano no município. O próprio Ciro afirma ter apoio de 200 dos 224 prefeitos do estado — número que a equipe do governador Rafael Fonteles estima em 140, ainda assim acima dos 123 de seu rival Júlio César.

O Piauí é o estado mais lulista do país. Em 2022, Lula venceu em todas as 224 cidades e foi eleito com 76,84% dos votos válidos. Mas Ciro é o principal opositor do PT no estado, e sua campanha navega essa contradição com precisão. Ele não pede votos para Flávio Bolsonaro e chegou a um acordo com o presidenciável para evitar uma visita dele durante a campanha. Ao mesmo tempo, mantém boas relações com os donos dos principais grupos de mídia local e uma rede própria de comunicação formada por blogs, veículos e perfis nas redes sociais. Nas entrevistas locais, ele fala sobre obras e emendas, sem questionamentos sobre sua relação com Daniel Vorcaro, do Banco Master. A Polícia Federal investiga suspeitas de que Ciro recebeu viagens de luxo bancadas por Vorcaro em troca de atuar em favor do banco. Ciro nega as informações reveladas do celular de Vorcaro e afirma que causam poucos reflexos na eleição. Tanto aliados quanto adversários reconhecem que as revelações derrubaram sua aprovação em junho, mas que o envolvimento de mais políticos no esquema ajuda a diluir os danos.

Lula visitou o Piauí em 9 de setembro e pediu votos para Júlio César e Marcelo Castro, dizendo: "Temos que votar num senador leal" e "A gente não aceita vira-lata do nosso lado" — uma alfinetada clara em Ciro. O presidente da Câmara, Hugo Motta, tentou reaproximá-lo de Lula por meio de um acordo em que Lula ficaria neutro no Piauí e Ciro afastaria o PP de Flávio. O trato nunca foi selado. Pesquisa Datafolha divulgada em 17 de setembro apontou empate triplo: Ciro e Marcelo Castro com 17%, Júlio César com 15%. Ciro contra-ataca defendendo propostas ligadas ao PT, como o fim da escala 6x1, e incitando críticas a Júlio César por ter votado a favor do impeachment de Dilma Rousseff.

O que está em jogo vai além do Piauí. Rafael Fonteles, governador petista e favorito à reeleição, vê derrotar Ciro como parte de um projeto maior: se projetar como potencial sucessor de Lula em 2030. Aliados dizem que Fonteles sonha em assumir os ministérios da Fazenda ou da Educação e poderia abandonar o mandato estadual para um posto em Brasília. Se reeleito, Ciro planeja erguer o que pode ser o maior partido de centro-direita do país. Seu primeiro passo foi a federação com o União Brasil, que uniu 98 deputados federais e dez senadores sob sua tutela. Ele quer retomar conversas para convencer o Republicanos a aderir ao grupo na próxima legislatura, o que poderia levar sua bancada a um terço da Câmara e ao comando das duas Casas do Congresso. O objetivo é consolidar o poder do centrão: independentemente de quem seja eleito presidente, será necessário sentar com eles para negociar. Se vencer, Ciro terá dois caminhos: tentar novamente a vaga de vice-presidente ou concorrer ao governo do Piauí, aproveitando o racha que deve ocorrer no PT pela disputa entre Fonteles e o ministro Wellington Dias pela única vaga que será aberta ao Senado em 2030.

Temos que retribuir tudo o que ele trouxe para nossas cidades
— Saulo Trajano, prefeito petista de Passagem Franca do Piauí
Temos que votar num senador leal. A gente não aceita vira-lata do nosso lado
— Lula, durante visita ao Piauí em 9 de setembro
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