Toda vez que alguém se queixa de dormir mal, a conversa tende a começar pela caixa de remédios que está na gaveta. Especialistas em sono, ouvidos pelo O GLOBO, lembram que muitos medicamentos comuns, da receita ao balcão da farmácia, agem sobre o mesmo sistema que nos mantém alerta ou nos faz desligar, e que o corpo nem sempre distingue o efeito desejado do efeito colateral. A boa notícia, dizem eles, é que o relógio do uso costuma ser parte da solução: tomar certas substâncias mais cedo no dia pode devolver ao sono o espaço que lhe pertence.
Cinco medicamentos comuns que podem atrapalhar o sono, segundo médicos
A primeira pergunta é sempre sobre os remédios que o paciente toma
Por que o médico começa perguntando sobre remédios, e não sobre hábitos de sono?
Porque, segundo Neubauer, muitas vezes a causa aparece rápido ali. Ele pergunta sobre remédios com e sem receita antes de qualquer coisa.
O que une esses cinco grupos?
Vários agem sobre norepinefrina e dopamina, que deixam o corpo em alerta. É o caso dos estimulantes para TDAH, da pseudoefedrina e da nicotina.
Mas o antidepressivo não segue essa lógica, certo? O texto diz que o efeito varia.
Exato. Kolla diz que alguns pacientes ficam alertas demais e outros sonolentos demais. Não há um efeito único.
Então não dá para afirmar que todo mundo que toma esses remédios vai dormir mal.
Não. O texto diz que nem todos que usam estimulantes têm problemas. São possibilidades, e não números de frequência; a reportagem não traz percentuais.
E os diuréticos?
Atuam de modo indireto: fazem levantar à noite para urinar. A sugestão é tomar mais cedo e reduzir líquidos antes de dormir.
As dicas de horário vêm de especialistas, não de estudos citados. E ninguém deve mudar a dose por conta própria; o ajuste cabe ao médico.
Il Polso
- Estimulantes para TDAH, como Adderall e Ritalina, mantêm o cérebro em alerta muito depois de a noite chegar.
- Descongestionantes com pseudoefedrina podem acelerar o coração justamente quando o corpo deveria desacelerar.
- Adesivos e gomas de nicotina, usados para largar o cigarro, também podem elevar pressão e frequência cardíaca à noite.
- Alguns antidepressivos deixam pacientes agitados demais para dormir ou sonolentos demais durante o dia.
- Diuréticos forçam idas ao banheiro durante a madrugada, fragmentando o descanso.
- A saída mais comum é tomar os remédios mais cedo, reduzir a dose ou trocar de medicamento, sempre com orientação médica.
Toda vez que alguém se queixa de dormir mal, a conversa tende a começar pela caixa de remédios que está na gaveta. Especialistas em sono, ouvidos pelo O GLOBO, lembram que muitos medicamentos comuns, da receita ao balcão da farmácia, agem sobre o mesmo sistema que nos mantém alerta ou nos faz desligar, e que o corpo nem sempre distingue o efeito desejado do efeito colateral. A boa notícia, dizem eles, é que o relógio do uso costuma ser parte da solução: tomar certas substâncias mais cedo no dia pode devolver ao sono o espaço que lhe pertence.
Quando um paciente chega ao consultório queixando-se de sono ruim, David Neubauer, psiquiatra e especialista em sono da Johns Hopkins Medicine, faz sempre a mesma pergunta: quais medicamentos o senhor ou a senhora toma, com ou sem receita? Muitas vezes a resposta revela o culpado logo de início, seja na dificuldade para adormecer, na insônia no meio da noite ou na sonolência durante o dia.
A lista de possíveis vilões é extensa e inclui remédios para resfriado, alergia, pressão alta e saúde mental. Entre eles, os especialistas destacam cinco grupos. O primeiro são os estimulantes para TDAH, como Adderall, Vyvanse, Ritalina e Concerta. Eles melhoram o foco, mas elevam dopamina e norepinefrina no cérebro, e por isso são tão eficazes em manter a pessoa acordada que às vezes são usados até no tratamento da narcolepsia. Não todos sofrem com insônia, mas quem sofre tende a se beneficiar de tomá-los logo cedo. As versões de liberação prolongada são as que mais deixam a pessoa energizada até tarde.
Depois vêm os descongestionantes com pseudoefedrina, encontrados em produtos como Advil Cold & Sinus, Zyrtec-D e Claritin-D. A substância faz os vasos sanguíneos se contraírem, desobstruindo o nariz, mas também pode elevar a pressão de forma temporária, o que provoca palpitações em alguns ao deitar. Michael White, da UConn, sugere considerar alternativas sem pseudoefedrina, e lembra que certos sprays nasais costumam ajudar sem atrapalhar o sono.
No terceiro grupo estão os produtos para parar de fumar. A própria abstinência já dificulta o descanso, mas adesivos, gomas e pastilhas de nicotina também podem acelerar o coração e subir a pressão, como um estimulante que são. Nesses casos, vale procurar um médico ou especialista em dependência de tabaco, que pode ajustar horário, dose ou estratégia.
O quarto grupo reúne antidepressivos, especialmente os inibidores de recaptação de serotonina, como Prozac e Zoloft, e os de serotonina-norepinefrina, como Cymbalta e Effexor. Bhanu Kolla, da Clínica Mayo, observa que os efeitos variam: há quem fique alerta demais e quem fique sonolento demais. O Wellbutrin também pode atrapalhar o sono por seu efeito estimulante. Nada disso exige abandonar o tratamento por conta própria; o médico pode mudar dose, horário ou indicar outra opção.
Por fim, os diuréticos, essenciais no controle de hipertensão, insuficiência cardíaca e doenças renais e hepáticas, atrapalham o sono de maneira indireta, ao aumentar a vontade de urinar à noite. Há versões sem receita, como o Diurex, e até o Midol, usado contra inchaço e cólicas, contém um diurético. Kolla recomenda tomá-los mais cedo e reduzir a ingestão de líquidos perto da hora de dormir.
O fio que une todos esses casos é simples: ajustar o horário, diminuir a dose ou trocar de medicamento costuma resolver. Qualquer mudança, porém, deve passar antes pelo médico.
Quando um paciente chega ao consultório com queixas de sono, a primeira pergunta de David Neubauer é sempre a mesma: que medicamentos o senhor ou a senhora toma, com ou sem receita? Neubauer é psiquiatra e especialista em sono da Johns Hopkins Medicine. Segundo ele, em muitos casos a resposta aponta rapidamente o culpado, seja o problema para adormecer, para manter o sono ou a sonolência durante o dia.
A lista de remédios que podem atrapalhar o descanso é longa. Neubauer cita os usados para resfriados, alergias, pressão alta e problemas de saúde mental, entre outros. Especialistas ouvidos pela reportagem destacaram cinco grupos comuns.
O primeiro são os medicamentos para TDAH. Os estimulantes, como Adderall, Vyvanse, Ritalina e Concerta, são muito eficazes para melhorar o foco, segundo Julie Dopheide, professora de farmácia clínica da Universidade do Sul da Califórnia, mas são notoriamente prejudiciais ao sono. Eles elevam os níveis de dopamina e norepinefrina no cérebro, e por isso deixam muita gente alerta. São tão eficazes em manter as pessoas acordadas que às vezes são prescritos para narcolepsia. Nem todo mundo que os toma tem insônia, mas, para quem tem, Neubauer recomenda tomá-los no início do dia. Quem usa versões de liberação prolongada pode seguir energizado até tarde da noite.
O segundo grupo são os descongestionantes com pseudoefedrina, presente em produtos como Advil Cold & Sinus, Zyrtec-D e Claritin-D. A substância estimula a liberação de norepinefrina, que contrai os vasos sanguíneos; nas vias nasais, isso abre espaço para o ar passar. Mas a norepinefrina pode ter efeito parecido com o da adrenalina, e a pseudoefedrina eleva temporariamente a pressão arterial, o que leva algumas pessoas a sentir palpitações ao se deitar. Neubauer sugere tomá-la pela manhã. Michael White, professor da Escola de Farmácia e Ciências Farmacêuticas da UConn, aconselha considerar remédios sem pseudoefedrina e lembra que alguns sprays nasais ajudam na congestão e provavelmente não atrapalham o sono.
Em terceiro vêm os produtos para parar de fumar. Largar o cigarro já dificulta o sono enquanto o corpo se adapta à falta de nicotina, mas adesivos, gomas e pastilhas com nicotina também podem causar o efeito, explicou White: a nicotina aumenta norepinefrina e dopamina e, como estimulante, eleva frequência cardíaca e pressão. Se isso ocorrer, vale procurar um médico ou especialista em dependência de tabaco, que poderá ajustar horário ou dose, ou propor outras estratégias.
O quarto grupo reúne alguns antidepressivos. Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, como Prozac e Zoloft, e os inibidores da recaptação de serotonina-norepinefrina, como Cymbalta e Effexor, estão entre os mais populares, disse Bhanu Kolla, psiquiatra da Clínica Mayo, em Minnesota. Os efeitos variam bastante: há quem fique alerta demais para dormir e quem fique sonolento demais para continuar acordado. Dopheide acrescenta que o Wellbutrin também pode perturbar o sono por suas propriedades estimulantes. O médico pode ajustar dose ou horário, ou sugerir alternativa.
O quinto grupo são os diuréticos, os chamados comprimidos para eliminar água, essenciais no controle de hipertensão, insuficiência cardíaca e doenças renais e hepáticas. Eles atrapalham o sono de forma indireta, ao aumentar a necessidade de urinar à noite, disse Dopheide. Muitos exigem receita, mas há opções vendidas sem ela, como o Diurex, e o Midol, usado contra inchaço e sintomas menstruais, também contém um diurético. Kolla recomenda tomá-los mais cedo e beber menos líquido perto da hora de dormir.
O padrão entre os especialistas é consistente: ajustar o horário, reduzir a dose ou trocar de medicamento costuma resolver o problema. Qualquer mudança, porém, deve passar antes pelo médico.
Citazioni salienti
Estimulantes para TDAH são muito eficazes para o foco, mas notoriamente prejudiciais ao sono.— Julie Dopheide, professora de farmácia clínica da Universidade do Sul da Califórnia
Tomar diuréticos mais cedo e beber menos líquidos perto da hora de dormir pode reduzir as idas ao banheiro à noite.— Bhanu Kolla, psiquiatra da Clínica Mayo