Na Bahia, meio bilhão de reais em impostos evaporam anualmente enquanto 546 mil cidadãos consomem cigarros eletrônicos e sachês de nicotina fora de qualquer controle estatal. Um estudo inédito da USP revela que a proibição, longe de suprimir a demanda, entrega mercados bilionários ao crime organizado — que os administra com a racionalidade fria de qualquer agente econômico. O dilema que se impõe ao Brasil não é moral, mas pragmático: continuar financiando redes criminosas com a omissão regulatória, ou recuperar R$ 13,7 bilhões anuais pela via da regulação.
Cigarros eletrônicos sem controle custam R$ 597 mi/ano em impostos à Bahia
Proibição transfere mercados para o crime organizado estruturado como agente econômico racional
Por que a Bahia especificamente perde tanto dinheiro com esses produtos?
Porque tem 546 mil consumidores frequentes. Não é um mercado pequeno — é uma demanda real que existe e que o estado não consegue taxar porque esses produtos estão proibidos ou sem regulação.
Mas se estão proibidos, por que continuam circulando?
Exatamente porque estão proibidos. A proibição não mata a demanda, apenas a entrega para quem está disposto a operar fora da lei. É mais lucrativo para o crime organizado justamente porque não há concorrência legal.
Então a solução seria legalizar?
O estudo sugere que a regulação poderia trazer R$ 597,2 milhões por ano para a Bahia. Mas não é só sobre dinheiro — é sobre tirar uma fonte de financiamento das mãos do crime organizado.
Quanto dinheiro criminoso estamos falando?
Na Bahia, R$ 327,57 milhões por ano circulam no mercado ilegal sem qualquer imposto. No Brasil inteiro, são R$ 7,81 bilhões anuais alimentando atividades criminosas.
Isso é mais do que alguns orçamentos estaduais.
É. E o pior é que não é só dinheiro perdido — é dinheiro que financia redes criminosas estruturadas como empresas racionais, buscando lucro, controle territorial e corrupção.
Qual é o próximo passo?
Essa é a pergunta que fica em aberto. O estudo foi apresentado para gestores públicos e especialistas. Agora depende de decisões políticas sobre se o Brasil vai continuar proibindo ou vai considerar regular.
Le Pouls
- A Bahia perde R$ 597,2 milhões por ano em impostos que nunca chegam aos cofres públicos — dinheiro suficiente para escolas, hospitais e segurança que simplesmente desaparece no mercado ilegal.
- Dez milhões de brasileiros consomem regularmente produtos proibidos, movimentando R$ 7,81 bilhões anuais que financiam crime organizado estruturado como empresa — com controle territorial, corrupção e expansão planejada.
- A proibição não elimina a demanda: ela apenas transfere o lucro do Estado para o crime, criando um círculo vicioso em que a ilegalidade se torna cada vez mais rentável e enraizada.
- Pesquisadores, gestores públicos e setor privado se reuniram na USP para debater estratégias de enfrentamento — e a regulação emerge como alternativa concreta à falência do modelo proibicionista.
- O Brasil está diante de uma escolha que vai além do cigarro eletrônico: decidir se prefere arrecadar R$ 13,7 bilhões anuais ou continuar subsidiando, pela omissão, as redes criminosas que dominam esse mercado.
Na Bahia, meio bilhão de reais em impostos evaporam anualmente enquanto 546 mil cidadãos consomem cigarros eletrônicos e sachês de nicotina fora de qualquer controle estatal. Um estudo inédito da USP revela que a proibição, longe de suprimir a demanda, entrega mercados bilionários ao crime organizado — que os administra com a racionalidade fria de qualquer agente econômico. O dilema que se impõe ao Brasil não é moral, mas pragmático: continuar financiando redes criminosas com a omissão regulatória, ou recuperar R$ 13,7 bilhões anuais pela via da regulação.
Um estudo inédito da Universidade de São Paulo, realizado em parceria com o Instituto IPSOS e apresentado em outubro de 2025, colocou números concretos sobre um problema que o Brasil prefere ignorar. Na Bahia, o estado deixa de arrecadar R$ 597,2 milhões por ano em impostos por causa do comércio descontrolado de cigarros eletrônicos e sachês de nicotina — sendo R$ 572,87 milhões provenientes dos dispositivos eletrônicos e R$ 24,36 milhões dos sachês. Dinheiro que poderia financiar serviços públicos essenciais, mas que em vez disso alimenta redes criminosas.
A pesquisa mapeou a demanda por produtos ilícitos em todo o país com uma amostra representativa de 3 mil adultos. Os números revelam a escala do fenômeno: 546 mil baianos consomem esses produtos com frequência, e outros 918 mil os usaram ao menos ocasionalmente nos últimos seis meses. No Nordeste, são 2,11 milhões de consumidores frequentes. Nacionalmente, 10 milhões de brasileiros fazem uso regular, enquanto 15,4 milhões afirmam ter experimentado no mesmo período. A demanda é robusta e não dá sinais de recuo.
O mercado ilegal que atende essa demanda movimenta R$ 327,57 milhões por ano apenas na Bahia, R$ 1,27 bilhão no Nordeste e R$ 7,81 bilhões em todo o Brasil — tudo fora do sistema tributário. Leandro Piquet, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP, explica a lógica: onde há demanda, sempre haverá oferta, legal ou não. A proibição não elimina esses mercados — apenas os entrega ao crime organizado, que os administra como qualquer negócio racional, buscando lucro, controle territorial e corrupção sistêmica.
O estudo foi além dos cigarros eletrônicos, mapeando também a demanda ilegal por cigarros tradicionais, bebidas, combustíveis, eletrônicos e vestuário. O debate que se seguiu à apresentação reuniu especialistas, gestores públicos e representantes do setor privado em torno de uma questão central: o Brasil continuará no caminho da proibição — que financia o crime — ou considerará a regulação como forma de recuperar R$ 13,7 bilhões anuais e desfinanciar as redes que hoje dominam esse mercado?
Um levantamento inédito realizado pela Universidade de São Paulo em parceria com o Instituto IPSOS traz números alarmantes sobre o custo que a falta de regulação impõe ao Brasil. Na Bahia, o estado deixa de arrecadar R$ 597,2 milhões por ano em impostos por causa do comércio descontrolado de cigarros eletrônicos e sachês de nicotina. A maior parte dessa perda — R$ 572,87 milhões — vem dos cigarros eletrônicos, enquanto os sachês respondem por R$ 24,36 milhões. Esses números não são abstratos: representam dinheiro que poderia financiar escolas, hospitais e segurança pública, mas que em vez disso alimenta redes criminosas.
O estudo, apresentado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP na quarta-feira 22 de outubro, mapeou a demanda por produtos ilícitos em todo o país e revelou a escala do problema regional. Na região Nordeste como um todo, o potencial de arrecadação chega a R$ 2,028 bilhões por ano. Nacionalmente, a cifra é ainda mais impressionante: R$ 13,7 bilhões anuais poderiam entrar nos cofres públicos se esses produtos fossem regulados em vez de proibidos.
Quem está consumindo esses produtos? Segundo a pesquisa, 546 mil baianos fazem uso frequente de cigarros eletrônicos e sachês de nicotina. Outros 918 mil usaram ocasionalmente nos últimos seis meses. Na região Nordeste, o número de consumidores frequentes sobe para 2,11 milhões, com mais 3,554 milhões tendo experimentado os produtos no mesmo período. Nacionalmente, 10 milhões de brasileiros consomem regularmente esses itens, enquanto 15,4 milhões afirmam ter usado nos últimos seis meses. A demanda existe e é robusta — o que falta é controle.
O mercado ilegal que atende essa demanda é gigantesco. Somente na Bahia, movimenta cerca de R$ 327,57 milhões por ano sem qualquer recolhimento de impostos. No Nordeste, o número alcança R$ 1,27 bilhão anual. Em todo o Brasil, são R$ 7,81 bilhões por ano circulando fora do sistema tributário, financiando atividades criminosas. Leandro Piquet, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP e especialista em mercados ilícitos, explica a lógica por trás dessa expansão: quando existe demanda, sempre haverá alguém disposto a atender, legal ou ilegalmente. O regime de proibição, segundo ele, não elimina esses mercados — apenas os transfere para as mãos do crime organizado, que se estrutura como um agente econômico racional em busca de lucro, controle territorial e corrupção sistêmica.
O levantamento vai além dos cigarros eletrônicos e sachês de nicotina. Mapeou também a demanda por cigarros tradicionais, bebidas alcoólicas, combustíveis, eletrônicos e vestuário, evidenciando a complexidade e abrangência do mercado ilegal brasileiro. A pesquisa utilizou uma amostra representativa de 3 mil pessoas adultas, com margem de erro de 1,8%, combinando entrevistas online e abordagens presenciais em domicílios, com cotas demográficas baseadas em dados do IBGE.
O que chama atenção é que esses produtos, apesar de proibidos ou sem regulação no país, seguem em expansão. A ausência de regulação contribui diretamente para esse crescimento, criando um círculo vicioso: quanto mais proibido, mais lucrativo para o crime organizado; quanto mais lucrativo, mais estruturado fica o mercado ilegal. O estudo foi apresentado com a participação de especialistas, gestores públicos e representantes do setor privado em um debate sobre estratégias de enfrentamento ao crime organizado e ao comércio ilegal. A questão que fica em aberto é se o Brasil seguirá o caminho da proibição ou se considerará a regulação como alternativa para recuperar essa arrecadação perdida e desfinanciar as redes criminosas.
Citations marquantes
O regime de proibição, em vez de eliminar os mercados ilegais, acaba por transferi-los para a esfera do crime organizado, que se estrutura como agente econômico racional em busca de lucro, controle territorial e corrupção sistêmica— Leandro Piquet, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP