Cientistas transformam plástico em biscoitos de baunilha para futuras missões espaciais

Plástico e comida são ambos feitos de carbono
O princípio científico que permite aos pesquisadores transformar garrafas de refrigerante em biscoitos nutritivos.
Mark

Então estão literalmente comendo plástico?

Mimi

Não exatamente. O plástico é quebrado em moléculas e reorganizado em proteínas e gorduras. Ao final, não há plástico no biscoito — é como se o plástico fosse apenas a matéria-prima inicial.

Mark

Mas por que leveduras? Por que não máquinas?

Mimi

Porque as leveduras já fazem isso há milhares de anos. Fermentam, transformam uma coisa em outra. É mais eficiente usar biologia do que inventar algo novo.

Mark

Qual é o grande obstáculo agora?

Mimi

Escala. Eles conseguem fazer alguns biscoitinhos. Fazer comida suficiente para uma missão a Marte, ou para alimentar pessoas na Terra, é um problema completamente diferente.

Mark

A NASA está pagando por isso?

Mimi

Sim, até um milhão de dólares em prêmios. Mas o prêmio é só o começo. O verdadeiro desafio é tornar isso viável.

Mark

Isso não parece um pouco assustador? Comida feita de lixo?

Mimi

Depende de como você vê. Pode ser a solução para a fome. Ou pode ser o começo de algo que preferíamos não pensar muito.

  • Missões a Marte não podem depender de entregas da Terra, e a NASA oferece até um milhão de dólares para quem resolver o problema da alimentação no espaço profundo.
  • A ideia de comer plástico soa absurda, mas a química não mente: PET e alimento são ambos feitos de carbono, e leveduras já sabem reorganizá-lo há séculos.
  • Os µBites — biscoitos impressos em 3D com proteínas, gorduras, vitamina A e aroma de baunilha — provam que o conceito funciona em laboratório, sem rastro de plástico na composição final.
  • O maior obstáculo agora é a escala: produzir alguns biscoitinhos é muito diferente de alimentar tripulações inteiras em missões de anos.
  • No horizonte, a tecnologia levanta uma questão ética incômoda: se qualquer resíduo pode virar comida, o que nos impede de perder de vista a origem do que comemos?

No cruzamento entre a química elementar e a engenharia biológica, pesquisadores da Universidade do Sul de Illinois responderam a um desafio da NASA convertendo plástico PET em biscoitos nutritivos por meio de leveduras geneticamente programadas. O que parece alquimia moderna é, na essência, uma extensão do mesmo princípio que fermenta pão e cerveja há milênios — a reorganização do carbono em formas úteis à vida. A iniciativa aponta para um futuro em que a fronteira entre resíduo e alimento pode ser, pela primeira vez, dissolvida pela ciência.

Em 2021, a NASA lançou o Deep Space Food Challenge com uma pergunta que parecia ficção científica: como alimentar astronautas em missões a Marte sem depender de suprimentos enviados da Terra? Pesquisadores da Universidade do Sul de Illinois responderam com uma proposta que soa absurda até o momento em que funciona — transformar plástico em biscoitos de baunilha.

O fundamento é química pura. Plástico e alimento compartilham o mesmo elemento central: o carbono. Usando um processo chamado dissolução hidrotermal oxidativa, os cientistas fragmentam o PET — o plástico das garrafas de refrigerante — em partículas microscópicas. Essas partículas tornam-se substrato para leveduras geneticamente programadas, entre elas a Saccharomyces cerevisiae, a mesma que fermenta pão e cerveja há milênios. As leveduras digerem o carbono do plástico e o convertem em gorduras, proteínas, beta-caroteno e vanilina — o composto aromático da baunilha.

O resultado são os µBites, biscoitos impressos em 3D, completamente comestíveis e nutritivos, sem qualquer resíduo plástico na composição final. O professor Lahiru N. Jayakody destaca que a transformação, embora contraintuitiva, é perfeitamente possível com o conhecimento e os recursos certos. A NASA ainda exigiu que as propostas contemplassem inclusão alimentar — restrições por intolerância, escolhas veganas e observâncias religiosas.

O desafio agora é a escala. Produzir alguns biscoitinhos em laboratório está muito distante de alimentar tripulações em missões de anos. E além da engenharia, há questões éticas que crescem junto com a tecnologia: se qualquer resíduo pode ser convertido em alimento com eficiência suficiente, o que nos impede de perder de vista a origem do que colocamos no prato? Por enquanto, os biscoitos de plástico permanecem uma curiosidade científica promissora — e uma janela aberta para futuros que ainda precisamos decidir se queremos habitar.

A NASA lançou um desafio em 2021 que parecia saído de ficção científica: desenvolver formas de produzir alimentos no espaço profundo sem depender de suprimentos da Terra. Enquanto a Estação Espacial Internacional recebe entregas regulares de mel, pudim e café, futuras missões a Marte e além precisarão de algo radicalmente diferente. Pesquisadores da Universidade do Sul de Illinois responderam com uma ideia que soa absurda até funcionar: transformar plástico em biscoitos de baunilha.

O ponto de partida é química pura. Plástico e alimento são ambos feitos de carbono — moléculas que podem ser quebradas e reorganizadas em outras formas. Os cientistas começaram com tereftalato de polietileno, o PET das garrafas de refrigerante e água mineral. Usando um processo chamado dissolução hidrotermal oxidativa, eles aplicam água e oxigênio sob alta pressão e temperatura para despedaçar o plástico em partículas microscópicas. Essas partículas se tornam alimento para leveduras geneticamente programadas.

A escolha das leveduras não é acidental. Uma delas é a Saccharomyces cerevisiae, a mesma que fermenta pão, vinho e cerveja há milênios. Essas leveduras fazem o que sempre fizeram: digerem seu alimento e convertem-no em outros compostos. Neste caso, reorganizam o carbono do plástico em gorduras, ácidos e proteínas. Outras leveduras produzem beta-caroteno, o pigmento natural das cenouras e fonte de vitamina A. Algumas entregam vanilina, o composto que dá à baunilha seu aroma e sabor característico. Fibras, amido e adoçantes são adicionados à mistura.

O resultado final são biscoitos chamados µBites — o símbolo µ significa micro — impressos em 3D, completamente comestíveis e nutritivos. Não há plástico na composição final. Ele foi convertido em algo inteiramente diferente. O professor Lahiru N. Jayakody, um dos autores do estudo, ressalta que embora pareça contraintuitivo, a transformação é possível quando se sabe exatamente o que se está fazendo e se possuem os recursos necessários.

O Deep Space Food Challenge da NASA oferece até um milhão de dólares em prêmios para propostas vencedoras, e o conhecimento gerado será aplicado na Terra também, melhorando nossas próprias capacidades de produção, armazenamento e distribuição de alimentos. A agência também exigiu que as propostas considerem inclusão alimentar — restrições por intolerância à lactose, escolhas vegetarianas e veganas, e observâncias religiosas como a proibição de porco para judeus e muçulmanos.

Mas há um problema óbvio: escala. Os pesquisadores produziram alguns biscoitinhos. Elevar isso para alimentar milhões de pessoas exigiria recursos absurdos. A matéria-prima poderia ser qualquer coisa — plástico, lixo orgânico, resíduos — mas a tecnologia ainda está longe de ser prática em larga escala. O método é plausível, mas levará tempo até se tornar viável para aplicação real.

Há também questões éticas que pairam sobre o horizonte. Se a tecnologia funcionar em escala industrial, poderíamos produzir alimentos a partir de praticamente qualquer resíduo. Isso é promissor para combater a fome. Mas também abre portas para cenários perturbadores — sistemas de produção alimentar completamente desconectados da natureza, onde a origem da matéria-prima importa menos que a eficiência. O professor menciona Star Trek: Discovery, onde os replicadores funcionam, mas levanta a questão incômoda: em um futuro onde a tecnologia permite transformar qualquer coisa em comida, o que nos impede de usar matérias-primas que preferíamos não pensar? Por enquanto, as leveduras continuam fazendo seu trabalho antigo de formas novas, e os biscoitos de plástico permanecem uma curiosidade científica promissora em busca de um caminho para o futuro.

Plástico e comida são ambos feitos de carbono, e desde que se saiba o que está fazendo e tenha os meios e recursos, é possível transformar qualquer coisa em qualquer outra coisa
— Professor Lahiru N. Jayakody, coautor do estudo
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