No cruzamento entre a biologia evolutiva e a acústica animal, dois investigadores descobriram que o corpo e o bico de uma ave funcionam como instrumentos musicais — e que certas espécies brasileiras gritam com a intensidade de uma motosserra. A araponga-do-nordeste e a seriema emergem como as aves mais barulhentas do planeta, não por acaso, mas por design evolutivo. Este estudo, publicado na revista Evolution, convida-nos a ouvir a natureza com outros ouvidos: o som não é apenas comunicação, é também anatomia, ecologia e história.
Cientistas descobrem segredo das aves mais barulhentas do mundo
Um corpo grande e um bico largo funcionam como amplificadores naturais
Então o que torna estas duas aves tão especiais? Há algo de único na sua biologia?
Sim. Têm corpos grandes e bicos largos — pensa num trompete. Essa forma funciona como amplificador natural. Outras aves têm corpos pequenos ou bicos mais apertados, e por isso não conseguem projetar o som da mesma forma.
Mas espera — eles mediram 123 espécies. Quantas delas têm este padrão de corpo grande e bico largo? É uma correlação clara ou há exceções?
O estudo mostra que existe uma relação entre as características físicas e a intensidade do som, mas o artigo não detalha quantas espécies fogem ao padrão.
E por que é que isto importa? Porque é que uma ave precisa de gritar tão alto?
Provavelmente tem a ver com o seu nicho ecológico e com a forma como se comunicam. Se vives numa floresta densa, talvez precises de gritar mais alto para seres ouvido. É sobre sobrevivência e reprodução.
Mas o artigo não confirma isso, certo? Podos diz que quer investigar essa relação, mas não diz que já a provou.
Exato. Este estudo é sobre medir e catalogar. As respostas sobre o porquê vêm depois.
Então isto é o começo de algo maior?
Sim. Podos diz que aponta para "todo o tipo de outras perguntas que seria interessante seguir". É investigação de base.
E quanto aos dados? 113 espécies nunca tinham sido medidas. Isso significa que o nosso conhecimento anterior era muito incompleto?
Muito. Até há pouco tempo, não havia ferramentas práticas para fazer isto no terreno. Agora há.
El Pulso
- Duas aves brasileiras produzem sons tão ensurdecedores quanto uma broca de dentista ou uma motosserra — superando qualquer outro animal conhecido na Terra.
- Durante décadas, medir o volume real do canto de uma ave em condições controladas era quase impossível, deixando uma lacuna enorme na ciência da bioacústica.
- A adoção de telémetros a laser e sonómetros portáteis de alta resolução — ferramentas vindas do golfe e da segurança no trabalho — abriu uma porta que os ornitólogos nunca tinham conseguido atravessar.
- Jeff Podos e João Menezes percorreram o Massachusetts e o Brasil inteiro para catalogar 123 espécies, 113 das quais nunca tinham tido o seu volume medido.
- A descoberta revela que corpo grande e bico largo funcionam como amplificadores naturais, ligando a anatomia de uma ave diretamente ao seu nicho ecológico e à sua vida social.
No cruzamento entre a biologia evolutiva e a acústica animal, dois investigadores descobriram que o corpo e o bico de uma ave funcionam como instrumentos musicais — e que certas espécies brasileiras gritam com a intensidade de uma motosserra. A araponga-do-nordeste e a seriema emergem como as aves mais barulhentas do planeta, não por acaso, mas por design evolutivo. Este estudo, publicado na revista Evolution, convida-nos a ouvir a natureza com outros ouvidos: o som não é apenas comunicação, é também anatomia, ecologia e história.
Há aves que gritam tão alto quanto uma broca de dentista — e agora sabemos porquê. Jeff Podos, biólogo da Universidade do Massachusetts, e o seu antigo aluno João Menezes identificaram a araponga-do-nordeste e a seriema como as aves mais barulhentas do planeta. O segredo está na anatomia: um corpo grande e um bico largo, moldado à semelhança da campânula de um trompete, funcionam como amplificadores naturais do som. O trabalho foi publicado na revista Evolution.
Não era a primeira vez que Podos entrava neste território. Em 2019, já tinha identificado a araponga-da-amazónia como detentora do canto mais intenso do mundo — um feito confirmado pelo Guinness World Records. Mas bater recordes nunca foi o verdadeiro objetivo. A pergunta que movia os dois investigadores era mais profunda: será que as características físicas de uma ave permitem prever a intensidade do seu canto? E essa intensidade diz algo sobre o nicho ecológico e a organização social da espécie?
O maior obstáculo era metodológico. Medir o volume real de um canto no terreno era, até há pouco tempo, quase impossível — o som depende da distância, e capturar aves para experiências laboratoriais em larga escala não era viável. O que mudou foi a tecnologia: telémetros a laser usados no golfe e sonómetros portáteis adotados na segurança no trabalho deram a Podos e Menezes ferramentas que nenhum ornitólogo tinha combinado antes.
Equipados com estes instrumentos, os dois percorreram os arredores de Amherst e atravessaram o Brasil inteiro, recolhendo dados de 123 espécies — 113 das quais nunca tinham tido o seu volume catalogado. O resultado é mais do que uma lista de recordes: é uma janela para compreender como a evolução moldou a comunicação animal e como diferentes espécies ocupam o mundo através do som.
Há aves que gritam tão alto quanto uma broca de dentista. Dois investigadores acaban de descobrir por quê: um corpo grande e um bico largo, moldado como a campânula de um trompete, funcionam como amplificadores naturais do som. Jeff Podos, biólogo da Universidade do Massachusetts, e João Menezes, seu antigo aluno, identificaram dois candidatos ao título de ave mais barulhenta do planeta: a araponga-do-nordeste e a seriema. O trabalho, publicado na revista Evolution, não é apenas um exercício de curiosidade — aponta para uma questão mais profunda sobre como a biologia evolutiva molda a forma como os animais se comunicam.
Podos já tinha feito descobertas semelhantes. Em 2019, identificou a araponga-da-amazónia como detentora do canto mais intenso do mundo, um som que supera o ruído de uma motosserra acelerada. O Guinness World Records confirmou a alegação. Mas para Podos e Menezes, bater recordes mundiais era apenas um efeito colateral. O que realmente os interessava era uma pergunta mais fundamental: será que as características físicas de uma ave permitem prever a intensidade do seu canto? E essa intensidade está relacionada com o nicho ecológico e a organização social da espécie?
Medir a amplitude do som de uma ave no laboratório parecia simples. No terreno, porém, era quase impossível até há pouco tempo. O volume depende da distância — um grito ensurdecedor de perto pode ser quase inaudível a centenas de metros. Capturar aves, levá-las para o laboratório e fazer experiências controladas não era prático, especialmente num trabalho que envolvia comparar um grande número de espécies em diferentes continentes. "É preciso calcorrear o terreno", diz Podos.
O que mudou foi a tecnologia. Quando os jogadores de golfe começaram a usar telémetros a laser precisos e os responsáveis pela segurança no trabalho adotaram sonómetros portáteis de alta resolução, Podos e Menezes viram uma oportunidade. Foram dos primeiros ornitólogos a usar estas ferramentas em conjunto. Equipados com estes instrumentos, mediram a amplitude do canto de 123 espécies — 113 das quais nunca tinham tido o seu volume catalogado. Podos e Menezes passaram tempo nos arredores de Amherst, no Massachusetts, e percorreram o Brasil inteiro recolhendo dados.
Os números falam por si. "Conseguimos aumentar imenso o número de espécies com dados de amplitude", diz Podos. "É investigação de base, fundamental, que mais ninguém tinha conseguido fazer a esta escala." O trabalho não apenas identifica as aves mais barulhentas — revela os mecanismos físicos que explicam por que algumas espécies gritam muito mais alto do que outras. Um corpo grande e um bico largo funcionam como amplificadores, permitindo que certas aves projetem o som a distâncias muito maiores. Esta descoberta abre caminho para compreender como a evolução moldou a comunicação animal e como diferentes espécies ocupam nichos ecológicos distintos através do som.
Citas Notables
É investigação de base, fundamental, que mais ninguém tinha conseguido fazer a esta escala— Jeff Podos, biólogo da Universidade do Massachusetts
Medir a intensidade do canto de uma ave devia ser fácil no laboratório, mas até há bem pouco tempo era muito difícil fazê-lo no terreno— João Menezes, investigador da UMass Amherst