Cientistas descobrem que mitocôndrias explicam problemas de saúde de astronautas no espaço

Tudo fica fora do lugar e tudo começa com as mitocôndrias
Afshin Beheshti, investigador principal do estudo, explicando o mecanismo universal descoberto.
Mark

Porque é que as mitocôndrias são tão importantes nesta história? Parecem ser apenas uma parte da célula.

Mimi

São a chave porque produzem a energia que cada célula precisa para funcionar. No espaço, quando tudo muda — a gravidade, a radiação, o ambiente — as mitocôndrias não conseguem trabalhar normalmente. E quando elas falham, tudo o resto começa a desmoronar-se.

Luke

Mas o estudo mostra correlação ou causalidade? Sabemos que as mitocôndrias estão envolvidas, mas sabemos realmente que são a causa das alterações no sistema imunológico e cardiovascular?

Mimi

É uma boa pergunta. O estudo identifica a disfunção mitocondrial como um mecanismo universal, mas Luke tem razão — há ainda muita investigação a fazer para confirmar a cadeia causal completa.

Mark

E quanto ao Scott Kelly? Ele recuperou completamente depois de regressar?

Mimi

Maioritariamente, sim. Os telómeros voltaram ao normal seis meses depois. Mas algumas mudanças levaram tempo a reverter, e não sabemos ainda quais poderiam ser permanentes se alguém ficasse no espaço durante muito mais tempo.

Luke

Exatamente. O Scott passou 340 dias. Uma missão a Marte poderia durar dois ou três anos. Não sabemos como o corpo reagiria a isso.

Mark

Então estas descobertas são apenas o começo?

Mimi

Completamente. Jennifer Fogarty da NASA disse que "ainda só arranhámos a superfície do conhecimento". Isto abre portas, mas não responde a todas as perguntas.

Luke

E a alimentação? O artigo menciona que a NASA partilhou detalhes sobre o que os astronautas comem, mas não explica como isso se relaciona com as mitocôndrias.

Mimi

Boa observação. A nutrição claramente importa para a função mitocondrial, mas o artigo não desenvolve essa ligação. É uma lacuna.

Mark

Qual é o próximo passo?

Mimi

Desenvolver estratégias — talvez suplementos, exercício específico, ou outras intervenções — que ajudem as mitocôndrias a funcionar melhor no espaço. Se conseguirem fazer isso, poderão estender a permanência segura muito além dos atuais seis meses.

  • Estudo publicado na revista Cell analisou amostras de 59 astronautas
  • Scott Kelly passou 340 dias consecutivos na Estação Espacial Internacional em 2015
  • Twins Study monitorou Scott Kelly e seu irmão gémeo Mark durante 27 meses
  • Permanência atual em órbita limitada a cerca de seis meses devido aos efeitos negativos identificados

Pesquisadores descobriram que problemas mitocondriais causam alterações no sistema imunológico, cardiovascular e sono em astronautas expostos a baixa gravidade e radiação. Estudo do gémeo astronauta Scott Kelly comparou mudanças físicas com seu irmão na Terra durante 27 meses, revelando efeitos reversíveis e permanentes da exposição espacial.

Estudo publicado na revista Cell identifica disfunção mitocondrial como mecanismo universal explicando alterações de saúde em astronautas durante permanência prolongada no espaço, com implicações para futuras missões a Marte.

Quando Scott Kelly passou 340 dias consecutivos na Estação Espacial Internacional em 2015, seu corpo começou a contar uma história que os cientistas ainda estão aprendendo a ler. Problemas cardiovasculares, perturbações do sono, alterações no sistema imunológico — estes eram os sinais visíveis de algo mais profundo acontecendo ao nível celular. Um novo estudo publicado na revista Cell oferece uma resposta que pesquisadores não esperavam encontrar: as mitocôndrias, aquelas estruturas microscópicas que funcionam como as usinas de energia das células, estão no centro de tudo.

O trabalho foi liderado por Afshin Beheshti, investigador da KBR que trabalha no Ames Research Center da NASA, e baseia-se em dados recolhidos ao longo de décadas de pesquisa na Estação Espacial Internacional. Os investigadores analisaram amostras de 59 astronautas, expondo-os a um ambiente que combina três fatores hostis: a baixa gravidade, a radiação cósmica e o confinamento prolongado. O que descobriram os surpreendeu. "Encontrámos um mecanismo universal que explica os tipos de mudanças que vemos no corpo no espaço, e num lugar que não esperávamos," disse Beheshti. "Tudo fica fora do lugar e tudo começa com as mitocôndrias."

Para compreender melhor estes efeitos, a NASA conduziu um estudo sem paralelo: o Twins Study. Scott Kelly e seu irmão gémeo Mark, também astronauta, foram monitorados durante 27 meses — começando antes do lançamento de Scott para o espaço e continuando durante mais de um ano após seu regresso à Terra. Enquanto Scott enfrentava o ambiente hostil da órbita, Mark permanecia em terra, servindo como ponto de comparação perfeito. Os resultados revelaram mudanças fascinantes e, em alguns casos, perturbadoras. Os telómeros de Scott, marcadores biológicos do envelhecimento localizados nas extremidades dos cromossomas, aumentaram enquanto ele estava no espaço — sugerindo um tipo de rejuvenescimento celular. Mas após regressar à Terra, encolheram para níveis inferiores aos do início da missão, normalizando-se apenas seis meses depois. Os telómeros de Mark permaneceram estáveis durante todo o período.

O sistema imunológico apresentou respostas igualmente intrigantes. Quando Scott recebeu a vacina da gripe enquanto estava em órbita, seu corpo respondeu exatamente como teria respondido na Terra — uma descoberta tranquilizadora que sugere que o corpo humano consegue manter certas funções críticas mesmo em condições extremas. No entanto, outras mudanças foram mais preocupantes: alterações genéticas, respostas imunológicas alteradas e efeitos no sistema cardiovascular foram documentados. Muitos destes achados alinham-se com dados de estudos anteriores, reforçando a confiabilidade das conclusões.

A plataforma GeneLab, que captura grandes quantidades de dados "ómicos" da biologia espacial, permitiu aos investigadores caracterizar e quantificar moléculas biológicas como DNA, RNA e proteínas, e mapear seus efeitos sistemáticos nas estruturas e funções dos organismos. Esta abordagem integrada revelou que o corpo humano é simultaneamente robusto e vulnerável — capaz de se adaptar a condições extremas, mas também sujeito a mudanças profundas que podem limitar a duração segura das missões.

Atualmente, a permanência dos astronautas em órbita é limitada a cerca de seis meses, uma restrição diretamente relacionada aos efeitos negativos identificados. Mas com estas novas descobertas sobre o papel central das mitocôndrias, os cientistas acreditam que podem desenvolver estratégias para ajudar os astronautas a permanecer no espaço por períodos muito mais longos sem sofrer os mesmos danos. Esta é uma questão urgente: as futuras missões humanas a Marte exigirão que os astronautas permaneçam em ambientes de microgravidade durante meses, talvez anos. "Ainda só arranhámos a superfície do conhecimento sobre o que acontece ao corpo humano no espaço," reconheceu Jennifer Fogarty, cientista-chefe do Programa de Investigação Humana do Johnson Space Center da NASA. O Twins Study forneceu a primeira visão integrada de como o corpo se adapta, mas também deixou claro que há muito mais a aprender antes de podermos enviar humanos com segurança para Marte.

Encontrámos um mecanismo universal que explica os tipos de mudanças que vemos no corpo no espaço, e num lugar que não esperávamos. Tudo fica fora do lugar e tudo começa com as mitocôndrias.
— Afshin Beheshti, investigador principal do estudo
Ainda só arranhámos a superfície do conhecimento sobre o que acontece ao corpo humano no Espaço.
— Jennifer Fogarty, cientista-chefe do Programa de Investigação Humana do Johnson Space Center da NASA
Envie de l'histoire complète ? Lire l'original sur SAPO Tek ↗
Nous contacter FAQ