Cientistas criam relógio atómico mais preciso do mundo com lutécio

Demoraria mais de 260 mil milhões de anos a acumular um erro de um segundo
A precisão extraordinária do novo relógio de lutécio, medida até à 19.ª casa decimal.
Mark

Como é que um relógio consegue medir o tempo com tanta precisão? Parece impossível.

Mimi

Funciona através de transições atómicas — quando um eletrão muda de nível de energia. A frequência dessa mudança é sempre a mesma para um dado elemento. Usam um laser ajustado a essa frequência, e as oscilações da luz funcionam como um pêndulo extremamente preciso.

Luke

Mas isto não é novo, certo? O césio faz isto desde os anos 1960.

Mimi

Verdade. A diferença é que o lutécio oscila muito mais rapidamente e é muito mais estável perante variações de temperatura e campo magnético.

Mark

E por que razão isso importa?

Mimi

Porque significa que o relógio mantém a sua precisão mesmo em ambientes muito diferentes. Poderia passar do Vale da Morte para o planalto antártico e permanecer estável.

Luke

Mas há um problema: ainda não conseguem comparar este relógio com os outros melhores relógios do mundo.

Mimi

Exatamente. São tão sensíveis que conseguem detetar diferenças de gravidade causadas por variações de altitude de apenas alguns milímetros. As diferenças gravitacionais entre locais diferentes da Terra ainda não são conhecidas com precisão suficiente.

Mark

Então o próximo passo é tornar o relógio transportável?

Mimi

Sim. Se conseguirem miniaturizá-lo sem perder precisão, poderão fazer comparações e explorar novas aplicações.

Luke

E isto pode levar a uma redefinição do segundo?

Mimi

Sim. A comunidade científica está a considerar mudar o padrão de medição do tempo a partir de 2030, e este relógio pode contribuir para isso.

  • Um relógio atómico de lutécio estabeleceu o recorde mundial de precisão verificada, com uma incerteza de apenas 1 x 10⁻¹⁹ — um número que desafia a própria imaginação humana sobre o que significa medir o tempo.
  • A tensão central é paradoxal: o relógio é tão sensível que consegue detetar diferenças gravitacionais causadas por variações de altitude de meros milímetros, tornando impossível compará-lo diretamente com outros relógios instalados em locais distintos.
  • A equipa de Singapura construiu dois relógios de lutécio e comparou-os entre si, confirmando coincidência até à 19.ª casa decimal — a comparação mais precisa entre relógios alguma vez realizada na história da ciência.
  • O próximo passo é miniaturizar o sistema para uma versão transportável, desbloqueando comparações com outros relógios de referência e abrindo caminho a aplicações em física fundamental e estudos gravitacionais.
  • O desenvolvimento chega no momento certo: a comunidade científica internacional pondera redefinir o segundo a partir de 2030, e o relógio de lutécio posiciona-se como candidato a influenciar esse novo padrão global.

No coração de um laboratório em Singapura, cientistas redefiniram a relação entre a humanidade e o tempo: um relógio construído com o elemento lutécio mede agora a passagem dos instantes com uma precisão de 19 casas decimais, acumulando apenas um segundo de erro ao longo de mais de 260 mil milhões de anos. Esta conquista, publicada na revista Nature, não é apenas um feito técnico — é um convite a repensar os próprios alicerces com que a civilização sincroniza o mundo, desde o GPS até à definição internacional do segundo. A equipa do Centre for Quantum Technologies avança agora para tornar este instrumento portátil, levando a precisão do laboratório para o encontro com a realidade.

Investigadores do Centre for Quantum Technologies em Singapura construíram o relógio atómico mais preciso do mundo. O dispositivo, baseado no elemento químico lutécio e publicado na revista Nature, mede o tempo até à 19.ª casa decimal — uma precisão tão extraordinária que levaria mais de 260 mil milhões de anos a acumular um erro de um segundo.

Os relógios atómicos funcionam observando transições entre níveis de energia dos eletrões, usando um laser ajustado a essa frequência como um pêndulo de precisão ímpar. Desde os anos 1960, o césio define o padrão internacional do segundo, mas outros elementos oscilam mais rapidamente, permitindo relógios mais precisos. O lutécio distingue-se pela sua estabilidade invulgar: a sua transição atómica é pouco afetada por variações de temperatura ou campo magnético. Murray Barrett, líder da equipa, afirmou que o relógio permaneceria estável mesmo que viajasse do Vale da Morte ao planalto antártico.

Para validar os resultados, a equipa construiu dois relógios de lutécio e comparou-os diretamente, confirmando coincidência até à 19.ª casa decimal — a comparação mais precisa entre relógios alguma vez realizada. Embora um relógio de estrôncio apresentado em março já tivesse atingido essa fasquia, o dispositivo de lutécio é o primeiro a alcançar esse nível de precisão verificada de forma independente.

O paradoxo desta tecnologia reside na sua própria sensibilidade: o relógio deteta diferenças gravitacionais provocadas por variações de altitude de apenas alguns milímetros, tornando as comparações entre laboratórios em locais distintos extraordinariamente complexas. Por isso, o próximo objetivo é miniaturizar o sistema para uma versão transportável, sem comprometer a precisão alcançada.

O momento é particularmente significativo: a comunidade científica internacional estuda uma possível redefinição do segundo a partir de 2030, substituindo a base de césio por relógios óticos mais precisos. O relógio de lutécio de Singapura, com a sua precisão verificada e a sua estabilidade excecional, poderá ter um papel central nessa mudança histórica.

Investigadores do Centre for Quantum Technologies em Singapura construíram aquilo que descrevem como o relógio atómico mais preciso jamais criado. O dispositivo mede a passagem do tempo até à 19.ª casa decimal — uma precisão tão extraordinária que levaria mais de 260 mil milhões de anos para acumular um erro de apenas um segundo. A façanha, publicada na revista Nature, utiliza o elemento químico lutécio e apresenta uma incerteza de apenas 1 x 10⁻¹⁹, um número que coloca este relógio numa categoria completamente diferente dos seus antecessores.

Os relógios atómicos funcionam observando transições atómicas — o momento em que um eletrão passa de um nível de energia para outro. A frequência dessa transição é uma propriedade fixa do átomo, e os investigadores usam um laser ajustado a essa frequência, com as oscilações da luz funcionando como um pêndulo extraordinariamente preciso. Desde os anos 1960, o césio estabeleceu o padrão internacional para a medição do tempo e continua a ser fundamental para o GPS e a sincronização de redes de comunicação e transportes. Mas outros elementos — itérbio, estrôncio, alumínio — oscilam muito mais rapidamente que o césio, permitindo construir relógios ainda mais precisos. O lutécio, porém, oferece algo diferente.

A equipa de Singapura trabalha com lutécio há mais de uma década, baseando-se na hipótese de que este elemento possuía propriedades particularmente adequadas para relógios atómicos de elevada precisão. Até agora, são o único grupo a trabalhar especificamente com este elemento para medir o tempo. A vantagem principal reside na estabilidade da transição do lutécio: é pouco afetada por variações de temperatura ou campo magnético, dois fatores que podem modificar a frequência de outros elementos. Murray Barrett, líder da equipa da National University of Singapore, afirmou estar confiante de que possuem agora o relógio mais preciso do mundo. Acrescentou que o relógio de lutécio permaneceria estável mesmo que passasse do Vale da Morte — o local mais quente alguma vez registado na Terra — para o planalto antártico, o mais frio.

Para verificar experimentalmente estes resultados, a equipa não se limitou a cálculos teóricos. Construiu e comparou dois relógios baseados em lutécio, e ambos apresentaram oscilações coincidentes até à 19.ª casa decimal. Esta foi a comparação mais precisa entre relógios alguma vez realizada. Um relógio baseado em estrôncio, apresentado em março, já tinha alcançado uma precisão de 19 casas decimais, mas a novidade do dispositivo de lutécio está na verificação independente dessa precisão precisamente nessa 19.ª casa decimal — tornando-o o primeiro relógio ótico a alcançar esse nível de precisão verificada.

Apesar deste desempenho notável, a equipa ainda não conseguiu comparar diretamente o novo relógio com os melhores relógios atómicos existentes. A razão é paradoxal: estes dispositivos são tão sensíveis que conseguem detetar alterações na passagem do tempo provocadas pela gravidade mesmo quando a diferença de altitude entre dois pontos é de apenas alguns milímetros. Como as diferenças no campo gravitacional entre diferentes locais da Terra ainda não são conhecidas com precisão suficiente para este nível de medição, uma comparação direta entre relógios instalados em locais diferentes torna-se extraordinariamente complexa. Por isso, o próximo objetivo é transformar o sistema de laboratório numa versão transportável. Michael Lee, coautor principal do estudo e estudante de doutoramento, explicou que o passo seguinte passa por miniaturizar o relógio à escala laboratorial para um sistema que possa ser movido. A equipa acredita que será possível reduzir as dimensões sem comprometer a precisão extraordinária.

Uma versão transportável abriria novas possibilidades. Permitiria realizar comparações adicionais e explorar aplicações que não são possíveis enquanto o equipamento permanecer confinado ao laboratório. Relógios atómicos deste tipo podem ser utilizados para investigar questões ainda sem resposta na física, detetar alterações muito pequenas no campo gravitacional e estudar fenómenos que exigem uma medição temporal extraordinariamente rigorosa. A capacidade de detetar diferenças gravitacionais associadas a variações de altitude de apenas alguns milímetros demonstra o nível de sensibilidade que estas tecnologias já conseguem atingir.

O desenvolvimento chega num momento particularmente significativo. A comunidade científica internacional está a ponderar alterar a própria definição do segundo. O organismo responsável pelos padrões de medição do tempo está a analisar dados obtidos através de novos relógios atómicos óticos com vista a uma eventual redefinição a partir de 2030. A definição atualmente utilizada tem como base os átomos de césio, mas o desenvolvimento de relógios óticos capazes de medir o tempo com uma precisão muito superior está a abrir caminho para uma possível mudança do padrão. O novo relógio de lutécio poderá contribuir para esse processo ao oferecer uma precisão verificada até à 19.ª casa decimal. Para a equipa de Singapura, o objetivo passa agora por transportar esta precisão para fora do laboratório e continuar a desenvolver um sistema que possa ser comparado com outros relógios de referência e utilizado em novas experiências científicas.

Estou confiante de que o que temos agora é o relógio mais preciso do mundo
— Murray Barrett, líder da equipa da National University of Singapore
O relógio de lutécio permaneceria estável mesmo que passasse do local mais quente alguma vez registado na Terra, no Vale da Morte, para o local mais frio, no planalto antártico
— Murray Barrett
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