Cientista do Projeto Manhattan revela dilemas morais por trás do bombardeio de Nagasaki

Aproximadamente 40 mil pessoas morreram na explosão inicial em Nagasaki, com mais de 100 mil mortes atribuídas ao bombardeio nos cinco anos seguintes; em Hiroshima, pelo menos 80 mil morreram instantaneamente, totalizando cerca de 140 mil mortos.
A diferença entre ver números e ver a realidade viva é enorme
Morrison reflete sobre como o conhecimento intelectual dos efeitos das bombas era diferente de testemunhar a devastação real em Hiroshima e Nagasaki.
Mark

Você diz que havia um impulso impossível de deter. Mas você era um cientista — você poderia ter recusado?

Mimi

Teoricamente, sim. Mas você precisa entender o contexto. A guerra ainda estava acontecendo. Estávamos avançando para o Pacífico. Parar teria exigido uma autoridade que ninguém tinha além de Roosevelt, e ele estava morto.

Mark

Então você acredita que Truman não tinha escolha?

Mimi

Acho que ele teve uma escolha, mas foi tomado por ela. Teria sido extraordinariamente ousado para ele interromper um projeto que havia consumido bilhões e anos de trabalho. As ordens já estavam dadas aos comandantes.

Mark

Você mencionou que propôs uma demonstração pública. Por que isso não foi considerado seriamente?

Mimi

Porque era uma ilusão. Em tempos de guerra, você não convida delegações internacionais para o deserto para um espetáculo. O impulso já estava em movimento. Teria sido necessária uma reflexão em alto nível que simplesmente não aconteceu.

Mark

E depois que você viu Hiroshima e Nagasaki? Isso mudou sua visão sobre o que havia feito?

Mimi

Mudou tudo. Conhecer os números é diferente de caminhar entre os escombros. Um funcionário japonês me disse: "Tudo isso causado por uma única bomba; é insuportável". Aquelas palavras nunca saíram da minha mente.

Mark

Você se arrepende?

Mimi

Não é tão simples. Não vejo como poderia ter feito diferente naquele momento. Mas sim, há um remorso profundo. Talvez o pecado tenha sido justamente a preocupação com a humanidade — porque foi ela que nos fez acreditar que tínhamos que fazer isso.

  • Philip Morrison supervisionou o carregamento da bomba 'Fat Man' em Tinian em 9 de agosto de 1945
  • Aproximadamente 40 mil pessoas morreram na explosão inicial em Nagasaki; mais de 100 mil nos cinco anos seguintes
  • Em Hiroshima, pelo menos 80 mil morreram instantaneamente; cerca de 140 mil no total
  • Morrison liderou grupo de físicos que propôs demonstração pública antes do uso da bomba
  • Franklin D. Roosevelt morreu em abril de 1945; Harry Truman descobriu o projeto apenas após tomar posse

Morrison supervisionou montagem da 'Fat Man' em Tinian e testemunhou destruição em Hiroshima e Nagasaki, reconhecendo a devastação catastrófica causada pelas armas nucleares. Cientistas de Los Alamos propuseram demonstração internacional da bomba antes do uso contra o Japão, mas Morrison considerou isso uma ilusão nas circunstâncias da guerra.

Philip Morrison, físico que ajudou a montar a bomba atômica de Nagasaki, revelou 30 anos depois que cientistas consideraram demonstração pública antes do uso, mas viram o impulso como impossível de deter.

No verão de 1945, Philip Morrison era um jovem físico de trinta anos com uma responsabilidade que poucos homens na história jamais carregaram. Em 9 de agosto, ele supervisionou o carregamento de uma bomba de plutônio em um avião B-29 na pequena ilha de Tinian, no Pacífico. Três dias antes, outra arma nuclear havia destruído Hiroshima. Agora, essa segunda bomba — chamada "Fat Man" — estava pronta para Nagasaki. Trinta anos depois, Morrison falaria abertamente sobre aqueles dias, sobre as escolhas feitas e as que nunca foram realmente consideradas possíveis.

Morrison havia sido parte central do Projeto Manhattan desde seus primeiros dias em Los Alamos, trabalhando sob a direção de J. Robert Oppenheimer. Ele estava presente no teste Trinity em julho, transportando o núcleo de plutônio no colo através do Novo México. Depois veio Tinian, onde os americanos haviam construído o que Morrison descreveria como o maior aeroporto do mundo — seis pistas de pouso de quase três quilômetros cada, esculpidas em coral nivelado. Ali, ele viu a escala da guerra aérea convencional: a cada quinze segundos, um B-29 decolava. Mil aviões em uma hora e meia, incendiando quilômetros quadrados de cidades japonesas em ataques únicos. A bomba atômica, por contraste, era uma operação quase íntima — vinte e cinco pessoas de Los Alamos, algumas cabanas pré-fabricadas transformadas em laboratórios, um prédio cercado por barricadas. Um único avião decolou depois da meia-noite em um campo deserto.

O que Morrison viu depois mudaria sua perspectiva para sempre. Como parte da equipe científica oficial encarregada de avaliar os danos, ele caminhou pelos escombros de Hiroshima e Nagasaki. Em Hiroshima, um funcionário japonês estava de pé entre as ruínas e disse algo que Morrison nunca esqueceria: "Tudo isso causado por uma única bomba; é insuportável". Um avião com uma bomba havia destruído quilômetros quadrados de uma cidade com uma completude que mil aviões convencionais não poderiam igualar. Os números eram abstratos até você vê-los. Aproximadamente quarenta mil pessoas morreram na explosão inicial em Nagasaki. Mais de cem mil mortes foram diretamente atribuídas ao bombardeio nos cinco anos seguintes. Em Hiroshima, pelo menos oitenta mil morreram instantaneamente, com o total acumulado chegando a cerca de cento e quarenta mil.

Mas Morrison havia esperado que não chegasse a isso. Ele havia liderado um grupo de jovens físicos que defendia uma demonstração pública da bomba antes de qualquer uso contra o Japão — convidar uma delegação internacional para o deserto, deixar que o mundo visse o poder sem que cidades inteiras fossem apagadas. "Mas, nas circunstâncias de uma guerra, isso era uma ilusão", ele diria à BBC em 1975. O impulso era impossível de deter. A guerra ainda estava acontecendo. Estavam avançando para uma batalha gigantesca no Pacífico. Teria sido impossível parar.

Morrison acreditava que apenas uma pessoa poderia ter mudado o curso: Franklin D. Roosevelt. O presidente morreu em abril de 1945, no meio do desenvolvimento do projeto, antes de saberem se as bombas funcionariam, antes de ser decidido como usá-las. Roosevelt tinha o prestígio e a força dentro do governo para fazer aquele impulso terrível retroceder. Quando Harry Truman se tornou presidente, ele nem sequer sabia que o projeto existia, descobrindo apenas horas após tomar posse. Três meses depois, seria ele quem daria a ordem. "É verdade que ele tomou uma decisão, mas acho justo dizer que ele também foi tomado por ela", argumentou Morrison. Teria sido uma atitude muito ousada mudar tudo depois de tantos anos.

A mesma força implacável estava presente na decisão de lançar duas bombas uma após a outra. As ordens aos comandantes não mencionavam uma primeira e uma segunda bomba — apenas: lance a bomba um, depois lance a bomba dois assim que puder. Teria sido necessário um homem de grande autoridade em Washington para analisar os efeitos devastadores da primeira e dizer: vamos esperar. Isso exigiria reflexão em alto nível, capacidade de acionar conexões complexas. Morrison havia sido pedido para elaborar um plano para continuar lançando essas bombas durante um ano, se necessário. Ele tinha um cronograma, um homem para substituí-lo, os preparativos para ir e voltar.

Na noite do bombardeio de Hiroshima, houve uma grande festa na base da ilha do Pacífico. Os soldados e membros da Força Aérea beberam — sabiam que a guerra estava chegando ao fim. Parecia uma vitória tremenda. Mas os cientistas ficaram sentados, abatidos, com outra coisa em mente: o fim do mundo. "Intelectualmente, conhecíamos muito bem os efeitos das bombas", Morrison contou. "Mas a diferença entre ver números e ver a realidade viva, a realidade de quem estava morrendo... É uma diferença enorme". Eles sabiam, mas ainda não tinham sentido.

Ainda assim, Morrison não se sentiu compelido a abandonar o projeto. "Apesar da oposição determinada e persistente a isso, não vejo como poderia ter feito diferente. Em nenhum momento pensei em parar." Ele havia dito à BBC que não foi por falta de preocupação com a humanidade. Foi justamente por preocupação com a humanidade. Talvez esse tenha sido o pecado.

Não foi por falta de preocupação com a humanidade. Foi justamente por preocupação com a humanidade. Talvez esse tenha sido o pecado.
— Philip Morrison
Um funcionário japonês estava de pé nos escombros e nos disse: 'Tudo isso causado por uma única bomba; é insuportável'
— Philip Morrison, recordando-se de Hiroshima
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