Por mais de trinta anos, Lotte Bjerre Knudsen dedicou sua vida científica a um problema que o mundo preferia ignorar: a obesidade. Agora, às vésperas de uma possível distinção com o Nobel de Medicina, a dinamarquesa defende que os frutos desse trabalho — a semaglutida e seus benefícios cardiovasculares, renais e metabólicos — não pertençam apenas a quem pode pagá-los. Sua voz chega num momento em que o Brasil discute a inclusão do medicamento no SUS, tornando pessoal e urgente uma questão que é, no fundo, sobre quem merece ter saúde.
Cientista dinamarquesa defende acesso público à semaglutida no SUS
Estou com tanta fome há 20 anos, e agora posso realmente me controlar
Por que ela acha que os governos deveriam pagar por semaglutida se o medicamento já está funcionando no mercado privado?
Porque a maioria das pessoas com obesidade não tem dinheiro para pagar. Ela ouviu histórias de pessoas que sofreram com fome por vinte anos — isso não é um luxo, é uma questão de saúde pública. Os benefícios cardiovasculares e renais justificam o investimento estatal.
Mas quanto custa isso ao SUS? A entrevista não menciona números. Sabemos que é caro, sabemos que há benefícios, mas não sabemos se o Brasil pode realmente sustentar isso em larga escala.
Ela disse que começou a trabalhar nisso nos anos 1990. Como levou tanto tempo para virar um fenômeno?
Porque ninguém acreditava que valia a pena. A Novo Nordisk foi praticamente sozinha por vinte anos. Os dados se acumularam lentamente — primeiro sobre fome, depois sobre coração, depois sobre rins. Só em 2021 as pessoas começaram a realmente notar.
Ela credita isso a si mesma, mas também à mudança cultural. As redes sociais explodiram com histórias de pessoas usando o medicamento. Não foi só a ciência — foi também o boca a boca.
E quanto a esse potencial anti-envelhecimento que ela mencionou?
Há dados emergentes sobre marcadores epigenéticos, mas ela foi clara: não sabemos realmente se retarda o envelhecimento celular. O que sabemos é que reduz doenças cardíacas, renais, melhora a capacidade de caminhar. Isso já é uma forma de longevidade.
Ela foi honesta sobre a incerteza, o que é bom. Mas há muito hype em torno disso. Precisamos de mais pesquisa antes de fazer promessas sobre envelhecimento.
Ela deixou a Novo Nordisk. Por quê?
Ela quer fazer algo diferente agora. Não tem laboratório, não tem emprego. É uma agente livre. Mas não quis dizer o quê.
Isso é intrigante, mas a entrevista não nos diz nada. Ela pediu paciência. Poderia ser consultoria, poderia ser um novo projeto, poderia ser aposentadoria. Não sabemos.
Der Puls
- A semaglutida transformou a indústria farmacêutica e a vida de milhões, mas seu preço ainda a mantém fora do alcance de quem mais precisa.
- Knudsen, que deixou a Novo Nordisk em abril de 2026 após três décadas, rompe o silêncio corporativo para defender publicamente o acesso universal ao medicamento que ajudou a criar.
- Ela argumenta que governos como o Brasil ganhariam popularidade real ao financiar o tratamento, citando reduções comprovadas em ataques cardíacos, AVCs e doenças renais e hepáticas.
- O padrão histórico aponta para um caminho: estatinas, anti-hipertensivos e outros medicamentos antes inacessíveis tornaram-se commodities — e a semaglutida pode seguir a mesma trajetória.
- O campo já olha além dos GLP-1s, com pesquisas emergentes sobre tecido adiposo e potencial anti-envelhecimento, sinalizando que esta é apenas a primeira onda de uma revolução metabólica.
Por mais de trinta anos, Lotte Bjerre Knudsen dedicou sua vida científica a um problema que o mundo preferia ignorar: a obesidade. Agora, às vésperas de uma possível distinção com o Nobel de Medicina, a dinamarquesa defende que os frutos desse trabalho — a semaglutida e seus benefícios cardiovasculares, renais e metabólicos — não pertençam apenas a quem pode pagá-los. Sua voz chega num momento em que o Brasil discute a inclusão do medicamento no SUS, tornando pessoal e urgente uma questão que é, no fundo, sobre quem merece ter saúde.
Lotte Bjerre Knudsen passou mais de trinta anos na Novo Nordisk desenvolvendo a semaglutida antes de deixar a empresa em abril de 2026 para seguir projetos próprios. Aos 62 anos, cotada ao Prêmio Nobel de Medicina, ela concedeu entrevista exclusiva durante o congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes em Milão — e usou o espaço para defender algo que vai além da ciência: o acesso público ao medicamento que ajudou a criar.
O trabalho começou nos anos 1990, quando a obesidade era tratada com ceticismo pela indústria farmacêutica. A Novo Nordisk apostou quase sozinha durante duas décadas. Os dados foram chegando em camadas — primeiro os efeitos sobre a fome e a saciedade, depois os benefícios cardiovasculares e renais. Por volta de 2021, o que era obscuro virou fenômeno global, impulsionado por histórias reais de pessoas que descreviam décadas de fome constante finalmente interrompidas.
Knudsen reconhece que preços altos são inevitáveis enquanto os medicamentos estão sob proteção de patente — é assim que a pesquisa se financia. Mas aponta para um padrão histórico: estatinas, remédios para pressão arterial e úlcera estomacal começaram caros e tornaram-se acessíveis. Governos, ela argumenta, poderiam ganhar popularidade genuína ao financiar esses tratamentos, porque os benefícios são mensuráveis: menos ataques cardíacos, menos derrames, melhor função renal e hepática, mais mobilidade e qualidade de vida.
Sobre o futuro do campo, ela não prevê uma revolução imediata, mas nota uma mudança de foco. Existem cerca de duzentos medicamentos para diabetes e apenas cinco para obesidade — uma demanda não atendida enorme. Pesquisas agora miram o tecido adiposo, e há literatura emergente sobre potencial anti-envelhecimento, ainda sem respostas definitivas.
Fora da ciência, Knudsen usa roupas cor-de-rosa como gesto silencioso e deliberado para destacar a sub-representação feminina na pesquisa. O Nobel de Medicina premiou apenas catorze mulheres desde 1901, contra mais de duzentos homens. Ela deixou claro que continuará sendo um modelo visível para jovens mulheres que querem entrar na ciência — e que seus próximos passos, ainda em segredo, já estão em desenvolvimento.
Lotte Bjerre Knudsen, a cientista dinamarquesa que passou mais de três décadas desenvolvendo a semaglutida, deixou a Novo Nordisk em abril deste ano para seguir seus próprios projetos. Aos 62 anos, ela é uma das principais candidatas ao Prêmio Nobel de Medicina, cuja divulgação está marcada para segunda-feira. Durante uma entrevista exclusiva concedida na sexta-feira no congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes em Milão, ela falou sobre o medicamento que transformou a indústria farmacêutica e agora está prestes a chegar ao Sistema Único de Saúde no Brasil.
O trabalho de Knudsen começou no início dos anos 1990, quando poucos na indústria acreditavam que a obesidade merecia atenção científica séria. Durante duas décadas, a Novo Nordisk foi praticamente sozinha nessa aposta. Os dados começaram a se acumular lentamente: primeiro evidências de que o GLP-1 poderia reduzir a fome e aumentar a saciedade, depois biomarcadores cardiovasculares, depois renais. Por volta de 2021, a conversa mudou. As pessoas começaram a compartilhar suas histórias — vinte anos de fome constante finalmente interrompidos, uma relação saudável com o próprio corpo finalmente possível. O que era obscuro virou fenômeno global.
Knudsen vê com otimismo a decisão de governos como o Brasil de levar esses medicamentos para sistemas públicos de saúde. Ela reconhece que, enquanto protegidos por propriedade intelectual, os preços precisam ser altos — é assim que a pesquisa científica se financia. No início, apenas os ricos têm acesso. Mas ela aponta para um padrão histórico: medicamentos para pressão arterial, estatinas, remédios para úlcera estomacal — todos começaram caros e depois viram commodities. Os governos, ela argumenta, poderiam ganhar popularidade genuína ao financiar esses medicamentos para quem não tem dinheiro, porque os benefícios são reais e mensuráveis.
Os números sustentam seu argumento. Pessoas que usam semaglutida têm menos ataques cardíacos, menos derrames, melhor proteção dos rins e do fígado, menos doença arterial periférica. Conseguem caminhar melhor, ser mais funcionais. Quando você soma tudo isso, ela diz, faz sentido o sistema de saúde pagar. Ela ouviu histórias de pessoas emocionadas na sua frente, pessoas que finalmente conseguem se controlar. Isso não é marketing — é o que as pessoas vivem.
Sobre o futuro, Knudsen não vê uma revolução iminente, mas nota uma mudança de foco. O campo começou a olhar além dos GLP-1s. Existem cerca de duzentos medicamentos para diabetes, mas apenas cinco para obesidade — uma demanda não atendida enorme. Algumas pesquisas agora se concentram no tecido adiposo, um território que ela viu ganhar atenção em ciclos anteriores: décadas focadas no pâncreas, depois no fígado, depois nos músculos. Há também literatura emergente sobre potencial anti-envelhecimento, embora a questão de se esses medicamentos realmente retardam o envelhecimento celular ainda não tenha resposta clara.
Knudsen é discreta sobre sua vida pessoal, mas usa seu espaço público para destacar a presença das mulheres na ciência. Há anos adota roupas cor-de-rosa como forma silenciosa mas marcante de chamar atenção para essa necessidade. O Prêmio Nobel de Medicina, ao qual é cotada, teve apenas catorze mulheres premiadas desde 1901 contra mais de duzentos homens. Ela deixou claro que continuará sendo uma mulher de rosa na ciência, porque precisam existir modelos femininos para as jovens mulheres que querem entrar na pesquisa. Sobre seus próximos passos, ela pediu paciência — há algo diferente em desenvolvimento, mas ainda não é hora de contar.
Bemerkenswerte Zitate
Eu acho que os governos poderiam realmente ganhar muita popularidade ao criar acesso a esses medicamentos, porque eles ajudam muito as pessoas— Lotte Bjerre Knudsen
Levou muito tempo para gerar toda essa evidência. Espero que com o passar do tempo, mais pessoas tenham acesso— Lotte Bjerre Knudsen