Sessenta expositores apresentam pratos caipiras elaborados na Feira Gosto.Sa nos dias 26 e 27 de setembro, no Unibes Cultural, região oeste de São Paulo. A cozinha caipira foi historicamente apagada pela busca de modernidade paulista, embora seus pratos sejam bem aceitos quando identificados como mineiros.
Chefs elevam cozinha caipira a preparos sofisticados em São Paulo
A cozinha caipira sobrevive envergonhada de suas próprias características
Por que um evento sobre cozinha caipira em 2026? Isso não deveria ser óbvio?
Porque durante décadas São Paulo tentou se reinventar como metrópole moderna e enterrou suas próprias raízes. A cozinha caipira era vista como coisa de roça, de gente sem instrução. Os chefs estão dizendo: não, isso é sofisticado, isso é nosso.
Mas a fonte deixa claro que esses pratos já existem em restaurantes caros há tempo. O que muda agora?
A diferença é que agora há uma curadoria, uma narrativa, uma celebração coletiva. Não é mais um chef isolado tentando elevar a comida caipira. É sessenta expositores dizendo que isso importa.
E as pessoas estão comprando essa ideia?
A Feira Gosto.Sa está em sua sétima edição, então há demanda. Mas a historiadora Viviane Aguiar deixa claro que essa relação nunca foi bem resolvida. É um processo.
Espera—a fonte diz que pratos caipiras são bem aceitos quando chamados de mineiros. Isso não sugere que o problema não é a comida, mas o rótulo?
Exatamente. É um problema de identidade e classe. O termo caipira carrega uma carga pejorativa que a comida mineira não carrega. É sobre como a cidade se vê a si mesma.
Os chefs mencionados—Mara Salles, Marcelo Corrêa Bastos, Jefferson Rueda—eles estão ganhando dinheiro com isso?
Sim, claramente. Os preços são altos. Mas também estão fazendo um trabalho de resgate cultural.
A fonte não diz se a Feira Gosto.Sa vai mudar a percepção pública sobre cozinha caipira. Ela apenas documenta que o evento acontece e que alguns chefs estão interessados. Não sabemos o resultado.
Verdade. Mas o fato de que Patrícia Moll, uma pesquisadora, está curando isso, e que chefs de renome estão participando, sugere que há uma intenção séria de mudar a narrativa.
Então é um começo?
É um começo.
The Pulse
- Sessenta expositores na 7ª Feira Gosto.Sa, 26 e 27 de setembro, Unibes Cultural, região oeste de São Paulo
- Cozinha caipira foi historicamente apagada pela busca de modernidade paulista
- Pratos caipiras são bem aceitos quando identificados como mineiros
- Chefs como Mara Salles (Tordesilhas desde 1990) e Jefferson Rueda (Casa do Porco) elevam cozinha caipira à mesa urbana
Sessenta expositores apresentam pratos caipiras elaborados na Feira Gosto.Sa nos dias 26 e 27 de setembro, no Unibes Cultural, região oeste de São Paulo. A cozinha caipira foi historicamente apagada pela busca de modernidade paulista, embora seus pratos sejam bem aceitos quando identificados como mineiros.
A 7ª Feira Gosto.Sa celebra a cozinha caipira de São Paulo com 60 expositores e chefs renomados, buscando resgatar e valorizar uma tradição culinária historicamente marginalizada na metrópole.
No fim de setembro, a região oeste de São Paulo recebe um evento que tenta resolver uma contradição que assombra a cidade há décadas: como uma metrópole moderna pode ter vergonha de sua própria comida. A 7ª Feira Gosto.Sa, nos dias 26 e 27, no Unibes Cultural, coloca a cozinha caipira no centro do palco com sessenta expositores e chefs que transformaram pratos rústicos em preparações sofisticadas.
O cardápio do evento revela essa transformação. Haverá bolinhos de quirera do Bar Sardosa, pastéis de angu do Celeiro Arimbá, broas de fubá do café Quente da Boca. A chef Heloísa Bacellar conduzirá uma oficina de paçoca de pilão. Mas o evento também traz criações novas: a Mission apresentará chocolates de pamonha, a Pinguina oferecerá sorvete de milho. Tudo sob a curadoria da pesquisadora Patrícia Moll, que defende uma tese simples e poderosa: foi essa cozinha, construída a partir da roça e transformada por diferentes povos, que alimentou São Paulo antes dela virar metrópole.
O problema é que ninguém quer admitir isso. O termo caipira carrega um peso histórico que os próprios chefs precisam carregar. Francisco Montans, dono do Quente da Boca, pensou muitas vezes antes de rotular seu estabelecimento dessa forma. "O termo ainda tem um quê pejorativo. Tem gente que o associa a algo grosseiro", diz. Mara Salles, à frente do restaurante Tordesilhas desde 1990, concorda: "O termo assusta. Ainda está no lugar da comida bruta e malfeita. Sempre lutei muito para levar uma cozinha caipira elaborada à mesa urbana."
Essa rejeição não é acidental. A historiadora Viviane Soares Aguiar, autora de "Cozinha Caipira, Cozinha Esquecida", explica que São Paulo optou deliberadamente por se distanciar de sua história para se firmar como metrópole. "Muitos autores mencionam o apagamento da cultura caipira, por ser a antítese da imagem de modernidade que São Paulo queria para si", afirma. O resultado é uma inversão curiosa: pratos como feijão tropeiro, canjiquinha com costelinha suína e frango com quiabo são bem assimilados pelos paulistanos quando identificados como comida mineira.
O chef Marcelo Corrêa Bastos, coautor do livro "A Culinária Caipira da Paulistânia", aponta que esses pratos vêm de uma mesma cultura alimentar que se estende do sul de Minas Gerais ao norte e oeste do Paraná, incluindo Mato Grosso e Goiás. Mas enquanto outras culturas regionais se manifestam de forma orgulhosa e deliberada—como a do sertanejo e do gaúcho—a cultura caipira sobrevive envergonhada de suas próprias características, de maneira dissimulada.
A resposta dos chefs tem sido transformar essa vergonha em sofisticação. Na Casa do Porco, Jefferson Rueda reverencia suas origens com arroz de suã a R$ 120 e cabeça de porco assada a R$ 498 para quatro pessoas. No Dalva e Dito, Alex Atala abre espaço para caipirices como macarrão com feijão e ragú de linguiça. No Jiquitaia, Marcelo Corrêa Bastos oferece meia bochecha suína com pamonha. No Tordesilhas, Mara Salles serve costelinha de porco confitada com arroz de feijoada e couve. Esses não são pratos baratos nem simples—são reinterpretações que exigem técnica, ingredientes de qualidade e uma decisão consciente de honrar uma tradição que a cidade tentou esquecer.
A Feira Gosto.Sa representa um ponto de virada nessa narrativa. Ao colocar sessenta expositores lado a lado, ao convidar chefs renomados para celebrar em vez de esconder suas origens, o evento testa se São Paulo finalmente está pronta para reconhecer que sua modernidade foi construída sobre uma base que ela mesma tentou apagar. Os próximos dois dias dirão se essa reconciliação é possível ou se, mais uma vez, a cozinha caipira será consumida e esquecida.
Notable Quotes
O termo ainda tem um quê pejorativo. Tem gente que o associa a algo grosseiro.— Francisco Montans, dono do Quente da Boca
Sempre lutei muito para levar uma cozinha caipira elaborada à mesa urbana.— Mara Salles, chef do Tordesilhas
Enquanto outras culturas regionais se manifestam de forma orgulhosa, organizada e deliberada, a cultura caipira, envergonhada de suas próprias características, sobrevive de maneira dissimulada.— Marcelo Corrêa Bastos, coautor de 'A Culinária Caipira da Paulistânia'