No cruzamento entre a arte culinária e o peso das escolhas humanas, três restaurantes brasileiros abriram suas cozinhas para as câmeras da Apple TV — e para o julgamento silencioso do Guia Michelin. O Evvai, em São Paulo, tornou-se um dos dois únicos restaurantes da América Latina a ostentar três estrelas, enquanto o Madame Olympe, no Rio, recebeu sua primeira distinção apenas seis meses após abrir as portas. Entre conquistas e renúncias, a série 'Na Ponta da Faca' revela que a excelência gastronômica raramente vem sem custo — seja ele medido em sobremesas recusadas, planos familiares adiados
Chefs brasileiros revelam sacrifícios e alegrias na conquista de estrelas Michelin
Não mudaria o que estou fazendo só para ganhar uma estrela
Por que a série escolheu especificamente esses três restaurantes brasileiros?
Gordon Ramsay, que é produtor-executivo, viu neles um nível de dedicação e ambição que valia a pena documentar. O Evvai, em particular, tinha algo raro — a chance de ser o primeiro restaurante da América Latina com três estrelas.
Mas a série não sabe de antemão quem vai ganhar estrela, certo? Então Ramsay estava escolhendo baseado em intuição, não em informação confirmada.
Exatamente. Ele provou os pratos, sentiu o potencial, mas não tinha garantia. Depois que provou o Evvai, disse que tinha chance — mas era uma aposta.
E quanto ao custo pessoal? Luiz Filipe e Bianca adiaram ter filhos?
Sim. Eles reconhecem que foi um sacrifício consciente para se dedicar aos sonhos profissionais. Bianca até chorou durante a filmagem quando Luiz Filipe criticou um de seus pratos, porque sente o peso dessa busca por excelência.
Mas a série mostra isso como uma escolha deles ou como algo que o sistema das estrelas Michelin força?
Parece ser uma escolha deles, mas a série sugere que o sistema cria essas pressões. Luiz Filipe fala sobre confrontar o desconforto da equipe para crescer juntos — há uma cultura de sacrifício embutida.
E a dinâmica entre Claude e Thomas Troisgros? Eles têm visões diferentes sobre o que importa?
Muito diferentes. Claude vem de uma linhagem de chefs com três estrelas — seu pai revolucionou a culinária francesa. Ele quer a segunda e terceira estrela. Thomas, que ganhou uma em 2025, diz que a estrela é uma "side quest", um objetivo secundário.
Mas Thomas não ganhou a segunda estrela este ano. Ele realmente está relaxado ou está racionalizando uma decepção?
Ele diz que não ficou chateado, e que o número de reservas cresceu após a primeira estrela. Mas é difícil saber se é genuína despreocupação ou uma forma de lidar com a pressão familiar.
Exatamente. A série mostra o momento, mas não sabemos o que Thomas realmente sentia.
Qual é o ponto maior da série, então?
Que conquistar estrelas Michelin envolve sacrifícios pessoais reais — tempo, família, saúde mental — e que o significado dessas estrelas varia muito de pessoa para pessoa.
E que a série consegue capturar esses momentos emocionais, mas não pode nos dizer o que realmente importa para cada chef além do que eles escolhem revelar.
Der Puls
- O Evvai transformou seu menu-degustação inteiro durante as filmagens, destruindo o que já funcionava para reconstruir em busca de um padrão ainda mais alto — uma aposta arriscada às vésperas da cerimônia Michelin.
- Bianca Mirabili apresentou uma sobremesa ao marido e foi confrontada com a verdade de que o prato ainda não estava à altura de três estrelas — um momento de tensão profissional que trouxe lágrimas e, depois, um brownie de cupuaçu que acertou em cheio.
- Claude Troisgros e o filho Thomas vivem filosofias opostas: o pai acredita que ambiente e decoração elevam as chances de premiação, enquanto Thomas trata a estrela como uma 'side quest' — objetivo secundário diante da missão de evoluir na cozinha.
- O Evvai foi chamado por último ao palco no Rio de Janeiro e saiu com três estrelas, tornando-se símbolo de uma geração de chefs brasileiros que adiou sonhos pessoais para reescrever a história da gastronomia latino-americana.
No cruzamento entre a arte culinária e o peso das escolhas humanas, três restaurantes brasileiros abriram suas cozinhas para as câmeras da Apple TV — e para o julgamento silencioso do Guia Michelin. O Evvai, em São Paulo, tornou-se um dos dois únicos restaurantes da América Latina a ostentar três estrelas, enquanto o Madame Olympe, no Rio, recebeu sua primeira distinção apenas seis meses após abrir as portas. Entre conquistas e renúncias, a série 'Na Ponta da Faca' revela que a excelência gastronômica raramente vem sem custo — seja ele medido em sobremesas recusadas, planos familiares adiados ou gerações inteiras em busca de um paladar perfeito.
A segunda temporada de 'Na Ponta da Faca', série da Apple TV produzida por Gordon Ramsay, acompanhou três restaurantes brasileiros nas semanas que antecederam a cerimônia do Guia Michelin no Rio de Janeiro: o paulistano Evvai e os cariocas Oseille e Madame Olympe. Ramsay identificou no Evvai uma dedicação fora do comum, e o apresentador Jesse Burgess confessou ter ficado surpreso — e um pouco triste — ao descobrir que o casal à frente da casa, o chef Luiz Filipe Souza e a confeiteira Bianca Mirabili, havia adiado os planos de ter filhos para perseguir o sonho das três estrelas.
Durante as filmagens, o Evvai passou por uma reformulação radical do menu-degustação. Em uma cena marcante, Bianca apresentou uma sobremesa ao marido, que a devolveu com a avaliação de que ainda não estava no nível esperado. Com os olhos marejados, ela reconheceu que ele tinha razão. A tentativa seguinte — um brownie de chocolate com sorvete de cupuaçu — foi o acerto que faltava. No palco da cerimônia, os dois choraram ao ver o nome do Evvai anunciado com três estrelas, tornando o restaurante um dos dois únicos na América Latina com essa distinção.
A outra história central da série é a de Claude Troisgros, chef francês radicado no Brasil e herdeiro de uma das maiores dinastias da gastronomia mundial — seu pai, Pierre Troisgros, foi um dos criadores da nouvelle cuisine e mantém três estrelas há mais de 40 anos. Claude recebeu sua primeira estrela com o Madame Olympe apenas seis meses após a abertura, algo que ele mesmo não esperava tão cedo. Paralelamente, seu filho Thomas, à frente do Oseille, não conquistou a segunda estrela que almejava — mas afirmou não ter ficado chateado. Para Thomas, a estrela é uma 'side quest': o objetivo principal é evoluir na comida e deixar o cliente satisfeito. A tensão geracional entre os dois, temperada por um jantar em que Claude apontou a falta de acidez em um molho e Thomas, relutante, acabou concordando, resume bem o espírito da série: a perfeição no paladar é uma herança que pesa — e que, ao mesmo tempo, une.
A série "Na Ponta da Faca", que estreia seu episódio brasileiro nesta sexta-feira na Apple TV, oferece uma janela rara para os bastidores da premiação do Guia Michelin. Gordon Ramsay, que atua como produtor-executivo do programa, escolheu três restaurantes brasileiros para acompanhar nas semanas que antecederam a cerimônia de entrega de estrelas realizada no Rio de Janeiro em abril: o paulistano Evvai e os cariocas Oseille e Madame Olympe. A série, que retornou para sua segunda temporada em 25 de setembro com oito episódios, não sabe de antemão qual restaurante será premiado, mas Ramsay viu no Evvai "um nível de dedicação incrível para conquistar três estrelas".
O Evvai é liderado pelo chef Luiz Filipe Souza com o apoio da esposa, a chef Bianca Mirabili. Os dois vivem momentos de destaque profissional — possuem duas estrelas desde 2024 e Bianca foi reconhecida como melhor chef confeiteira da América Latina pelo ranking 50 Best em 2026. Mas esse sucesso teve um preço pessoal: adiaram seus planos de ter filhos para se dedicar integralmente aos sonhos profissionais. Jesse Burgess, apresentador do programa e um dos produtores, conta que ficou surpreso e até um pouco triste ao conhecer essa história. "Era uma ambição e tanto, já que ninguém tinha três estrelas na América Latina", diz. Após provar os pratos do Evvai, Jesse sentiu que o restaurante tinha chance real.
Durante a filmagem, o Evvai passa por uma transformação de seu menu-degustação. Luiz Filipe descreve o processo como pegar tudo que já estava sendo feito bem e destruir para reconstruir, visando servir melhor. Em uma cena particularmente reveladora, Bianca apresenta ao marido uma proposta de sobremesa para fechar a refeição. Luiz Filipe prova, mas afirma que o prato ainda não está no nível dela própria, nem de um restaurante três estrelas. Com os olhos marejados, Bianca diz às câmeras que sente o peso de buscar a excelência, mas reconhece que Luiz Filipe estava certo. "O momento com a Bianca mostra uma relação de confiança de um profissional com o outro", explica o chef. "Como líder, preciso confrontar o desconforto da equipe para que a gente possa crescer juntos". Em outra tentativa, Bianca prepara um brownie de chocolate com contornos delicados e sorvete de cupuaçu — um acerto. Essa excelência, construída por muitas mãos, foi premiada no Rio. Luiz Filipe e Bianca, os últimos a serem chamados ao palco, choraram bastante quando viram o nome do restaurante anunciado. O Evvai tornou-se um dos dois únicos restaurantes da América Latina com três estrelas Michelin — o outro é o Tuju, também em São Paulo.
Na mesma cerimônia, outro personagem da série estava emocionado: Claude Troisgros, chef francês radicado no Brasil, conhecido por programas de televisão. Ele está à frente do Madame Olympe, o único novo restaurante com uma estrela neste ano. "Chorei vendo o episódio", diz Claude. "Não imaginava que ia receber a estrela seis meses após a abertura. Sabia do potencial, mas acreditava que precisava de dois ou três anos". Sua busca pelo reconhecimento do Guia Michelin acontece simultaneamente à de seu filho, Thomas Troisgros, que almejava uma segunda estrela com o restaurante carioca Oseille.
A relação entre pai e filho marca um contraste de gerações e ideias sobre gastronomia. No Madame Olympe, Claude e a chef-executiva Jéssica Trindade apostam em um ambiente sofisticado com 24 lugares, misturando escolas culinárias da França, Japão e Brasil. No Oseille, Thomas criou um espaço mais informal e moderno, onde todos os clientes comem juntos em um balcão bem em frente à cozinha. Durante o episódio, Claude confessa ao filho que tem dúvidas sobre a chance do Oseille ganhar uma segunda estrela, argumentando que é preciso elevar o nível da decoração. Thomas discorda. "Não mudaria o que estou fazendo só para ganhar uma estrela Michelin", diz ele. Thomas ganhou sua primeira estrela em 2025 e viu crescer o número de reservas após o prêmio.
Este ano, porém, o Oseille não ganhou a segunda estrela. Thomas afirma não ter ficado chateado. "A estrela é uma side quest", diz, usando uma referência da linguagem gamer que significa um objetivo secundário. "A missão principal é evoluir na comida e deixar o cliente contente". A dinâmica entre os dois aparece em outro momento do episódio. Ao jantar no Oseille, Claude diz ao filho que falta acidez em um dos pratos. Meio desconfiado, Thomas escuta o pai e prova o molho, que de fato precisava de mais vinagre. "Nossa família tem um histórico de buscar perfeição no paladar, de sempre saber se algo está faltando", afirma Claude.
Essa família é uma dinastia na gastronomia. O pai de Claude, Pierre Troisgros, foi um dos criadores da nouvelle cuisine, movimento que revolucionou a cozinha nos anos 1960 e 1970. Pierre esteve à frente do Maison Troisgros, restaurante francês que mantém três estrelas há mais de 40 anos. É um histórico que gera pressão para conquistar estrelas, reconhece Claude. "Mas agora que ganhei a primeira, quero a segunda e a terceira". Thomas, ao contrário, afirma que o fato de a família ter estrelas por tantos anos lhe deu certo relaxamento em relação ao prêmio. "Quando fui entrevistado pela equipe da Apple TV, falei que era um chef bem relaxado em relação à estrela Michelin. Me importo, mas não vou morrer se não ganhar". Mas isso não impediu o chef de vibrar com a conquista do pai no dia da premiação.
Bemerkenswerte Zitate
Era uma ambição e tanto, já que ninguém tinha três estrelas na América Latina— Jesse Burgess, apresentador de 'Na Ponta da Faca'
A estrela é uma side quest. A missão principal é evoluir na comida e deixar o cliente contente— Thomas Troisgros, chef do Oseille