Antônio José Muller Júnior (Granada), preso em Brasília, é suspeito de dar ordens a sócios de empresas de ônibus através de sua esposa Carla de Paula Muller, também presa. Investigação encontrou transferências de R$ 153 mil para Carla e indícios de que sócios atuam como 'laranjas' para empresas que teriam ligações com o PCC.
Chefe do PCC preso em Brasília é suspeito de comandar empresas de ônibus de SP
Ele dá ordens de dentro da cadeia através de sua esposa
Como é que uma pessoa presa em Brasília consegue dar ordens para empresas de ônibus em São Paulo?
Segundo a investigação, através de sua esposa. Ela visitava o presídio e, em uma gravação de áudio, ela mesma relata estar passando informações codificadas sobre operações de empresas.
Mas espera — a defesa dele diz que as visitas são supervisionadas, gravadas, filmadas em tempo real. Se havia código sendo usado, por que os agentes não interromperam na hora?
A própria gravação que a polícia usa como prova mostra que foram interrompidos. Carla relata que os funcionários perceberam o código e pararam a conversa.
E quanto ao dinheiro? Quanto de evidência direta existe?
Comprovantes bancários mostram R$ 153 mil transferidos para Carla. Mas a defesa diz que não há imputação direta contra ela, que são terceiros falando sobre terceiros.
Exatamente. O sócio da Translider está foragido. O advogado dele está foragido. Ninguém está falando. Temos mensagens de celular, mas não temos o lado deles.
E Granada? Ele responde por isso?
A defesa não respondeu quando questionada sobre as acusações contra ele. Ele continua preso em Brasília.
Então o que temos é um padrão de comportamento — ele fez isso em 2002 com a Transmetro, extorquindo motoristas — e agora a polícia acredita que está fazendo novamente, mas de dentro da cadeia.
Qual é o próximo passo?
O processo segue em andamento. A defesa aguarda autorização judicial para acessar a íntegra do processo e apresentar sua versão.
E enquanto isso, as empresas continuam operando? Os ônibus continuam rodando nas ruas?
A investigação não deixa claro se houve intervenção nas operações das empresas.
The Pulse
- Antônio José Muller Júnior (Granada) preso na Penitenciária Federal de Brasília
- Esposa Carla de Paula Muller também presa; investigação indica que ela repassa ordens
- R$ 153 mil transferidos para Carla por sócio da Translider
- Granada começou infiltração no transporte em 2002, extorquindo motoristas em Diadema
- Sócios atuam como 'laranjas' para empresas com suspeitas de ligação ao PCC
Antônio José Muller Júnior (Granada), preso em Brasília, é suspeito de dar ordens a sócios de empresas de ônibus através de sua esposa Carla de Paula Muller, também presa. Investigação encontrou transferências de R$ 153 mil para Carla e indícios de que sócios atuam como 'laranjas' para empresas que teriam ligações com o PCC.
Investigação da Polícia Civil conecta integrante da alta cúpula do PCC a empresas de ônibus de SP através de sua esposa, indicando que ele mantém influência sobre o setor mesmo preso em penitenciária federal.
A prisão do ex-vereador Milton Leite na semana anterior abriu uma porta para investigadores da Polícia Civil que revelou algo mais amplo: uma rede de empresas de ônibus que operam no transporte público de São Paulo conectada a um dos nomes mais altos da facção criminosa PCC. O homem no centro dessa teia é Antônio José Muller Júnior, conhecido como Granada, atualmente encarcerado na Penitenciária Federal de Brasília sob segurança máxima. Segundo o inquérito, ele não apenas mantém influência sobre o setor de transporte mesmo de dentro da prisão — ele dá ordens através de sua esposa, Carla de Paula Muller, também presa na semana passada.
Granada não é um nome novo no transporte público paulistano. Sua história nesse setor começou em 2002, dois anos depois que fugiu de um presídio em Hortolândia. Usando um nome falso, ele assumiu a posição de diretor da Transmetro, uma cooperativa de transporte coletivo em Diadema, na região metropolitana. O que ele fez ali estabeleceu um padrão: segundo denúncia do Ministério Público estadual, ele extorquia motoristas, cobrando R$ 2 mil de cada um. Quem se recusava a pagar recebia ameaças de morte. Mesmo quando preso novamente em 2003, a investigação indica que ele continuou comandando a operação de fora da cadeia.
O inquérito sustenta que Carla funciona como intermediária entre Granada e os sócios das empresas. Uma gravação de áudio de janeiro de 2020 é central para essa conclusão. Nela, Carla relata a um sócio que, enquanto discutia operações de uma empresa, funcionários do presídio interromperam a conversa porque perceberam que ela estava usando código. O áudio foi enviado justamente para José Daniel Satilite, conhecido como Alemão, sócio da Translider, empresa que opera em Cubatão. A polícia conclui que Carla estava passando informações para seu marido, mas foi interrompida pela supervisão do presídio.
Satilite é a figura central na operação sobre ônibus em São Paulo — a quebra de sigilo de seu celular forneceu as principais evidências. Nos registros dele, investigadores encontraram uma conversa em que ele compartilha uma notícia sobre Granada com um advogado, depois indicando que Granada seria o "chefe". Satilite está foragido. Comprovantes bancários mostram que ele repassou ao menos R$ 153 mil para Carla. Seu sucesso financeiro repentino chamou atenção dos investigadores: um homem sem capacidade financeira para comprar uma empresa com capital social declarado de R$ 12 milhões, muito menos uma refinaria na Vila Prudente por R$ 40 milhões.
Nas mensagens de seu celular, Satilite se refere a si mesmo como "laranja" — alguém que empresta seu nome para o registro de empresas. Em um diálogo, ele fala sobre ter seu nome na Cooperlíder (antigo nome da A2 Transportes) e na Translider, dizendo que depois negaria conhecer as pessoas envolvidas para protegê-las. A A2 Transportes opera linhas municipais em bairros da zona sul de São Paulo e tem Paulo Sirqueira Korek Farias como proprietário. Korek, também preso, repassou a Translider a Satilite e outro sócio em 2017 — uma venda que a polícia suspeita ser fictícia, baseada em pagamentos mensais de R$ 10 mil que um funcionário de Korek fazia a Satilite.
Carla aparece também nas negociações sobre venda de ônibus da Translider para a A2 Transportes. Os veículos pertenciam ao patrimônio da Translider, mas o dinheiro da venda foi para a conta da A2, segundo a polícia. A investigação também encontrou conversas indicando que Carla, Satilite e um advogado compartilhariam 4% das ações da Otrantur Transporte e Turismo, que operava em São Vicente, na Baixada Santista. Um diretor dessa empresa foi alvo de operação contra a cúpula do PCC em 2020; a prefeitura rescindiu o contrato dois anos depois.
No celular de Satilite, investigadores encontraram comunicados do PCC conhecidos como "salves". Um deles, de junho de 2024, trata especificamente da situação de Granada dentro da organização. O comunicado informa que a situação de Granada havia sido revista e um decreto de morte contra ele havia sido retirado, reintegrando-o ao "comando". A mensagem é assinada com as iniciais SF: Sintonia Final, o nome pelo qual Granada é conhecido na hierarquia da facção.
Os advogados de Carla e Granada, Ana Paula e Eliseu Minichillo, negam as acusações. Afirmam que Carla é empresária e que as suspeitas de que ela repassa recados de Granada são "totalmente infundadas". Apontam que visitas em presídio federal ocorrem exclusivamente em parlatório com vidro blindado, sendo integralmente gravadas, filmadas e supervisionadas em tempo real, e que qualquer conversa que não seja de cunho familiar é interrompida imediatamente. Os advogados informam que não tiveram acesso à íntegra do processo e aguardam autorização judicial para demonstrar o que chamam de inconsistência das alegações. Questionados sobre as acusações contra Granada, não responderam.
Notable Quotes
Nós vamos ser pegos para sumariar nosso nome na antiga Cooperlíder, nosso nome na porra da Translider... Aí você vai negar, você vai falar que não conhece o cara, vai proteger o cara— José Daniel Satilite, em mensagem de celular
As suspeitas de que seria interlocutora entre o mundo externo e o seu marido são totalmente infundadas— Advogados Ana Paula e Eliseu Minichillo, sobre Carla de Paula Muller