Chagos: a disputa geopolítica que divide Londres, Washington e Maurícia

Habitantes do arquipélago foram desalojados pelos britânicos e norte-americanos no final da década de 1960 para estabelecer base militar.
Estrategicamente é muito importante. É incrível como é estratégico.
Trump explicando por que se opõe ao acordo que transferiria soberania das Chagos para Maurícia.
Mark

Porque é que Trump se importa tanto com estas ilhas? Não são apenas um punhado de atóis no meio do oceano?

Mimi

Porque Diego Garcia não é apenas uma ilha. É uma base militar que os EUA usou no Iraque, no Afeganistão, e agora quer usar contra o Irão. Trump vê-a como insubstituível.

Luke

Mas espera — o Reino Unido já tinha recusado usar a base para operações contra o Irão. Portanto, o que Trump está realmente a proteger?

Mimi

A possibilidade futura. Se Maurícia ganhar soberania, Trump teme que a influência chinesa sobre a ilha possa limitar o acesso americano.

Mark

E o Reino Unido? Porque é que Starmer concordou com isto em primeiro lugar?

Mimi

Porque o Tribunal Internacional de Justiça disse que era o certo a fazer, e porque Maurícia pediu isto durante décadas. Mas Trump mudou o jogo quando voltou.

Luke

Portanto, o acordo estava fechado, mas Trump simplesmente disse não. Tem poder para fazer isto?

Mimi

Não formalmente. Mas o Reino Unido depende dos EUA para segurança. Burnham não pode ignorar Trump.

Mark

E os habitantes originais das ilhas? Foram desalojados nos anos 1960.

Mimi

Sim, e ninguém está realmente a falar deles agora. O acordo com Maurícia não os traz de volta.

Luke

Portanto, o que Burnham pode fazer? Não pode ratificar sem Trump, mas também não pode ignorar Maurícia.

Mimi

Precisa encontrar uma solução que mantenha Diego Garcia sob controlo britânico-americano mas que de alguma forma satisfaça Maurícia.

Mark

Isso parece impossível.

Mimi

Talvez. Mas é o que Burnham disse que vai tentar fazer.

  • Trump classificou o acordo UK-Maurícia como 'ridículo' e 'horrível' durante a Assembleia Geral da ONU em setembro de 2026
  • Diego Garcia foi usada em operações no Iraque e Afeganistão; Reino Unido recusou recentemente seu uso contra o Irão
  • Acordo assinado em maio de 2025 previa transferência de soberania para Maurícia em troca de 35 mil milhões de libras e controlo britânico por 99 anos
  • Habitantes do arquipélago foram desalojados nos anos 1960 para estabelecer a base militar

Trump classificou o acordo UK-Maurícia como 'ridículo' e 'horrível', argumentando que Diego Garcia é estrategicamente vital para os EUA. Base militar em Diego Garcia foi usada em guerras do Iraque e Afeganistão; Reino Unido recusou recentemente seu uso em operações contra o Irão.

Donald Trump bloqueou acordo entre Reino Unido e Maurícia sobre soberania das ilhas Chagos, citando importância estratégica de Diego Garcia. Decisão reabre tensões diplomáticas e impede ratificação no Parlamento britânico.

Na Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro de 2026, enquanto líderes mundiais discursavam sobre questões globais, um arquipélago no Oceano Índico — cujos habitantes somam menos de 0,0009% da população mundial — tornou-se o centro de uma disputa geopolítica que envolve Londres, Washington e Maurícia.

O acordo que acendeu a controvérsia foi assinado em maio de 2025 entre o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e seu homólogo mauriciano. Após décadas de negociações iniciadas ainda sob o governo conservador de Rishi Sunak, o Reino Unido concordou em transferir a soberania das ilhas Chagos para Maurícia — um país que fica a uma distância maior do arquipélago do que Lisboa dista de Paris. A decisão britânica foi apoiada por uma sentença de 2019 do Tribunal Internacional de Justiça, embora não vinculativa. Em troca, Londres receberia um contrato de 35 mil milhões de libras, equivalente a 40,6 mil milhões de euros, e manteria o controlo de Diego Garcia, a maior ilha do arquipélago, por 99 anos.

Mas quando Donald Trump regressou à Casa Branca, o acordo entrou em turbulência. Questionado por um jornalista durante a Assembleia Geral da ONU sobre o pacto entre Reino Unido e Maurícia, o presidente norte-americano foi direto: classificou-o de "ridículo", "horrível" e "um acordo terrível". Depois acrescentou o argumento que realmente o preocupava. "Estrategicamente é muito importante. É incrível como é estratégico", disse Trump, sugerindo que o primeiro-ministro britânico deveria reconsiderar. A posição do presidente bloqueou efetivamente a ratificação do acordo na Câmara dos Comuns britânica.

A razão da insistência de Trump é clara: Diego Garcia. Desde o final dos anos 1960, quando britânicos e norte-americanos desalojaram os habitantes locais, a ilha funciona como uma base militar estratégica dos EUA. Foi usada em operações nas guerras do Iraque e do Afeganistão. Mais recentemente, tornou-se crucial nas tensões com o Irão. Quando Washington quis usar a base para operações contra Teerão, o governo trabalhista britânico recusou, limitando o uso das instalações britânicas apenas a operações defensivas. Trump reclamou que a recusa o obrigou a enviar bombardeiros B-2 de volta para casa no Missouri, onde teriam de voar por períodos prolongados em vez de decolarem de um ponto mais próximo. Starmer justificou-se aos deputados: "Não vou envolver o nosso pessoal militar em ações ilegais".

Antes da Assembleia Geral, Trump havia dito ao primeiro-ministro britânico que estava "inclinado em concordar" com os termos do acordo. Mas a situação mudou com o agravamento das tensões com o Irão e a recusa britânica de usar as bases aéreas para operações contra Teerão. Quando Andy Burnham, o novo primeiro-ministro britânico, encontrou-se com Trump, o tema das Chagos emergiu como uma questão sensível. Burnham disse ter herdado o dossiê e que este precisa de resolução. "É fundamental proteger o futuro da base, o que nos preocupa por razões de segurança, mas também é claramente importante para os Estados Unidos", afirmou, comprometendo-se a trabalhar para encontrar uma solução entre as diferentes partes.

No Parlamento britânico, a oposição conservadora e populista já se mobiliza contra o acordo. Os críticos argumentam que a proximidade política de Maurícia com a China torna a transferência de soberania problemática do ponto de vista da segurança ocidental. Segundo relatos, Nigel Farage contactou a administração Trump na semana anterior à Assembleia Geral para pressionar o presidente a manter a sua oposição ao pacto. O acordo, que ainda aguarda ratificação, encontra-se agora suspenso entre a determinação de Trump em manter Diego Garcia sob controlo britânico-americano e a necessidade política de Burnham de encontrar uma saída que satisfaça Washington, Maurícia e o seu próprio Parlamento.

Não vou envolver o nosso pessoal militar em ações ilegais
— Keir Starmer, justificando a recusa de usar bases britânicas para operações contra o Irão
É fundamental proteger o futuro da base, o que nos preocupa por razões de segurança, mas também é claramente importante para os Estados Unidos
— Andy Burnham, novo primeiro-ministro britânico, sobre a necessidade de resolver a questão das Chagos
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