Cesariana aumenta em 45% risco de câncer de placenta, aponta estudo da UFRJ

Mulheres com histórico de cesariana enfrentam risco aumentado de desenvolver câncer gestacional raro, com potencial impacto na saúde reprodutiva e necessidade de vigilância intensificada.
A cicatriz é uma porta de entrada para a mola
Pesquisadora explica como a incisão uterina da cesariana facilita a invasão de células placentárias anômalas.
Mark

Por que esse achado importa agora, especificamente?

Mimi

Porque o Brasil faz cesarianas em uma taxa que é mais que o triplo do recomendado pela OMS. Se você tem uma população inteira de mulheres com cicatrizes uterinas, e agora descobre que essas cicatrizes aumentam o risco de um câncer raro, o impacto potencial é enorme.

Mark

A cicatriz do útero é realmente tão frágil assim?

Mimi

Segundo os pesquisadores, sim. Não é só uma marca. É uma área onde o tecido foi cortado e reconstruído, onde o sistema imunológico foi desregulado, onde os vasos sanguíneos precisaram se remodelar. Para uma mola gestacional — que já é uma estrutura anômala e invasiva — essa cicatriz é praticamente um convite.

Mark

E se uma mulher já teve cesariana? Ela deveria se preocupar?

Mimi

Não deveria entrar em pânico, mas deveria estar atenta. Se ela desenvolver uma mola gestacional, precisa de vigilância mais cuidadosa. O tratamento em si não muda, mas a atenção médica precisa ser mais rigorosa desde o diagnóstico.

Mark

Qual é o número que realmente chama atenção aqui?

Mimi

Que 177 casos de câncer por ano poderiam ser evitados se o Brasil reduzisse suas cesarianas de 55% para 35%. Isso não é um número abstrato — são 177 mulheres que não precisariam enfrentar um câncer raro.

Mark

Mas a cesariana salva vidas, certo?

Mimi

Absolutamente. Por isso os pesquisadores foram cuidadosos em dizer que ela deve ser feita de forma consciente, não que deveria ser evitada. O ponto é que muitas cesarianas no Brasil são feitas sem indicação médica clara. Se reduzíssemos os casos desnecessários, poderíamos manter as que realmente salvam vidas e ainda evitar esse risco adicional.

  • Mulheres com histórico de cesariana têm 45% mais risco de desenvolver neoplasia trofoblástica gestacional, um câncer raro que nasce das células da placenta dentro do útero.
  • A cicatriz uterina da cirurgia funciona como uma brecha que facilita a invasão da mola gestacional no tecido, enquanto o sistema imunológico e os vasos sanguíneos da mulher ficam permanentemente alterados.
  • O Brasil realiza cesarianas em 55% dos partos — quase quatro vezes o limite recomendado pela OMS —, tornando o país especialmente vulnerável ao impacto dessa correlação.
  • Estimativas indicam que reduzir a taxa de cesarianas em 20 pontos percentuais poderia evitar cerca de 177 casos de câncer por ano no país.
  • A orientação dos pesquisadores não é tratar mais agressivamente, mas vigiar mais de perto: mulheres com cesariana prévia que desenvolvam mola gestacional precisam de acompanhamento intensificado desde o diagnóstico.

Uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro revela que a cicatriz deixada por uma cesariana pode se tornar, anos depois, uma porta de entrada para um câncer raro da placenta. Em um país onde mais da metade dos partos são cirúrgicos — proporção quase quatro vezes acima do recomendado pela OMS —, o achado convida a uma reflexão urgente sobre os custos invisíveis de escolhas médicas que parecem rotineiras. A ciência não condena a cesariana, mas pede que ela seja praticada com consciência de que cada incisão carrega consequências que o tempo ainda está revelando.

Pesquisadores da Maternidade Escola da UFRJ identificaram que mulheres submetidas a cesariana têm risco 45% maior de desenvolver neoplasia trofoblástica gestacional — a forma mais grave da mola gestacional, um câncer raro que surge das células placentárias dentro do útero. O estudo analisou dados de quase três mil pacientes acompanhadas ao longo de duas décadas em centros do Brasil e dos Estados Unidos, e confirmou que a cirurgia prévia aumenta o risco de forma independente de outros fatores.

A mola gestacional ocorre quando uma fertilização anômala gera uma estrutura placentária defeituosa. Em até um quinto dos casos, as células dessa mola invadem o útero e evoluem para o câncer. A pesquisadora Gabriela Paiva explica que a incisão da cesariana deixa uma cicatriz que funciona como porta de entrada para essa invasão, além de desregular o sistema imunológico e provocar fibrose nos tecidos uterinos. Entre as mulheres com histórico de cesariana, 26,5% desenvolveram o câncer, contra 20,8% daquelas sem esse histórico.

O contexto brasileiro amplifica a relevância do achado. Enquanto a OMS recomenda que apenas 15% dos partos sejam cirúrgicos, o Brasil registra 55% — a maior taxa do mundo. O coordenador do estudo, Antônio Braga, ressalta que a cesariana salva vidas e é indispensável em situações de risco, mas deve ser realizada de forma consciente e justificada. As estimativas apontam que uma redução de 20 pontos percentuais na taxa nacional poderia evitar aproximadamente 177 casos de câncer por ano.

Os pesquisadores não recomendam tratamento mais agressivo para quem já tem esse histórico, mas enfatizam a necessidade de vigilância intensificada desde o diagnóstico da mola. O acompanhamento inclui esvaziamento uterino, quimioterapia e monitoramento do hormônio HCG — e a remoção do útero é indicada apenas em casos específicos. A neoplasia trofoblástica gestacional passa, assim, a integrar a lista de consequências de longo prazo associadas ao parto cesáreo, ao lado de complicações já conhecidas como ruptura uterina e placenta acreta.

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro descobriram que mulheres submetidas a cesariana enfrentam um risco 45% maior de desenvolver neoplasia trofoblástica gestacional, um câncer raro que emerge das células placentárias e se desenvolve dentro do útero. O achado, liderado pela Maternidade Escola da UFRJ, traz implicações significativas para o Brasil, país que realiza cesarianas em mais da metade de seus partos.

A neoplasia trofoblástica gestacional é a manifestação mais grave da doença trofoblástica, conhecida popularmente como mola gestacional. Essa condição surge quando a fertilização anômala entre óvulo e espermatozoide gera uma estrutura placentária defeituosa — às vezes sem qualquer feto presente, às vezes com um feto que não consegue se desenvolver. Em até um quinto dos casos, as células dessa mola anômala se alojam no útero e evoluem para o câncer. No Brasil, a doença trofoblástica afeta entre uma a cada 200 e uma a cada 400 gestantes, gerando aproximadamente 2,9 mil diagnósticos de neoplasia anualmente.

O estudo analisou dados de 2.904 pacientes acompanhadas entre 2002 e 2022 em dois centros: a Maternidade Escola da UFRJ e o Centro de Doença Trofoblástica da Nova Inglaterra, vinculado à Universidade de Harvard. Entre as mulheres com histórico de cesariana, 26,5% desenvolveram o câncer, comparado a 20,8% daquelas sem esse histórico. Os pesquisadores controlaram todos os demais fatores que pudessem influenciar o resultado, confirmando que a cirurgia prévia aumenta o risco de forma independente.

Gabriela Paiva, líder da pesquisa brasileira, explica o mecanismo por trás dessa correlação. A incisão do útero durante a cesariana deixa uma cicatriz — uma área frágil que funciona como uma porta de entrada para a mola gestacional, permitindo que ela invada o tecido uterino com maior facilidade e evolua para o câncer. Além disso, a cirurgia desregula o sistema imunológico da mulher, força o remodelamento dos vasos sanguíneos e provoca fibrose. A investigação dessa relação surgiu após a publicação de um estudo semelhante realizado na Coreia do Sul, mas com um número muito menor de pacientes. A Maternidade Escola da UFRJ, que abriga o terceiro maior centro de pesquisa e atendimento de mola do mundo, atende cerca de 80 pacientes com a doença a cada semana, oferecendo volume de dados sem precedentes.

O contexto brasileiro torna esse achado particularmente relevante. Enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda que 15% dos nascimentos ocorram por via cirúrgica, essa proporção atinge 55% no Brasil. Antônio Braga, coordenador do ambulatório e orientador do trabalho, enfatiza que esse é um tema que merece ser tratado como mais um risco agregado para mulheres submetidas a cesarianas. Embora a cesariana seja uma cirurgia que salva vidas e seja fundamental para garantir a segurança da mãe e do bebê, ela deve ser realizada de forma consciente e justificada.

Os autores do estudo argumentam que a neoplasia trofoblástica gestacional pós-molar deve ser considerada uma possível consequência de longo prazo do parto cesáreo anterior, ao lado de outros desfechos adversos já conhecidos, como risco de ruptura uterina, espectro da placenta acreta, parto prematuro e outras complicações. As estimativas sugerem que uma redução de 20 pontos percentuais na taxa de cesarianas do país — chegando a 35% — poderia evitar aproximadamente 177 casos de câncer por ano, representando uma redução de 6,1% na incidência anual estimada da doença.

Apesar da força dessa correlação, os pesquisadores não recomendam tratamento mais agressivo para mulheres com histórico de cesariana que desenvolvam a neoplasia. A principal orientação é que essas pacientes recebam acompanhamento com vigilância intensificada desde o diagnóstico da mola. O tratamento atual envolve esvaziamento do útero por aspiração, sessões de quimioterapia e monitoramento do hormônio HCG, produzido durante a gravidez e também nos casos de mola. A histerectomia, remoção cirúrgica do útero, é recomendada apenas em situações específicas.

A cicatriz da cesárea é uma área frágil dentro do útero, como se fosse uma porta de entrada para a mola
— Gabriela Paiva, líder da pesquisa
Cesariana é uma cirurgia salvadora de vidas, muito importante para garantir a segurança da mãe e do bebê, mas ela deve ser feita de forma consciente
— Antônio Braga, coordenador do ambulatório
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