Celular pode reduzir nossa tolerância à incerteza, e aprender a conviver com o 'não sei' faz bem

Aceitar a incerteza não significa ignorar o perigo
Especialistas defendem acolher o "não sei" sem negar riscos nem suprimir a decepção.
Mark

O que chama mais atenção nessa história?

Mimi

O dado dos 137 estudos. Desde os anos 1990, as pontuações de intolerância à incerteza entre universitários subiram de forma substancial.

Mark

E o celular entra como explicação?

Mimi

Entra como teoria. Van Baar diz que saber quase tudo na hora nos deu menos chances de praticar o "não sei".

Luke

Vale separar as coisas: o aumento nas pontuações é o achado. A ligação com os smartphones é uma hipótese, e o texto não traz prova de causa.

Mark

E o recorte é só de universitários, certo?

Luke

Certo. Não dá para dizer que o resto da população segue o mesmo caminho.

Mimi

O método terapêutico é concreto: a paciente de Dugas esperou 48 horas para ver a nota, e o sofrimento caiu no segundo dia.

Luke

Mas é um caso relatado pelo próprio terapeuta, não um resultado de estudo.

Mark

Então qual é o conselho prático?

Mimi

Limitar as opções a três ou quatro, decidir sem ficar remoendo e, se não há o que fazer, aceitar.

Luke

E aceitar não é negar o perigo nem fingir que todo revés é bom, o texto deixa isso claro.

  • Uma análise de 137 pesquisas revela aumento substancial da intolerância à incerteza entre universitários desde a década de 1990.
  • Smartphones eliminam os pequenos momentos cotidianos em que as pessoas precisavam esperar, se perder ou não saber, e isso treina menos a paciência diante do desconhecido.
  • Terapeutas recomendam exposição gradual ao desconforto, como adiar a checagem de um resultado por 48 horas, e aceitação quando nada mais pode ser feito.
  • A ansiedade que interfere na rotina já pede ajuda profissional, enquanto a pesquisa sobre a causa dessa tendência ainda é uma hipótese em aberto.

Toda vida carrega perguntas sem resposta imediata: o emprego, o exame, o e-mail ambíguo do chefe. Uma reportagem do Estadão reúne pesquisadores e terapeutas para lembrar que aprender a conviver com o não saber é uma habilidade humana antiga, que se molda pela prática. Ao mesmo tempo, estudos sugerem que, entre universitários, a capacidade de suportar o desconhecido vem diminuindo desde os anos 1990, e os celulares aparecem como uma possível explicação para esse recuo.

Você vai conseguir o emprego? O que dirão os exames? O que significa aquele e-mail vago do chefe? Perguntas assim fazem parte da vida, e o desconforto que trazem é o mesmo: a falta de resposta imediata. Pesquisadores e terapeutas ouvidos pelo Estadão defendem que aprender a conviver com o "não sei" é uma habilidade que merece atenção, pois a incerteza está presente em relacionamentos, na saúde e nas finanças.

O desconforto, porém, varia conforme a situação. Uma caixa fechada parece instigante numa festa e inquietante numa estação de metrô. Alguma cautela tem sentido evolutivo, mas há sinais de que o equilíbrio pende para o medo. Um estudo de 137 pesquisas, conduzido por Jeroen van Baar e colegas da Universidade de Boston, mostrou que as pontuações de intolerância à incerteza entre universitários subiram de forma substancial desde os anos 1990.

Uma explicação possível são os smartphones, que tornaram quase tudo instantâneo e reduziram as ocasiões de praticar o não saber. Trata-se de uma hipótese, não de uma relação comprovada.

Quando o desconforto vira ansiedade e atrapalha a rotina, a orientação é buscar ajuda profissional. Um paciente de Dugas, muito preocupado com notas, foi incentivado a esperar 48 horas antes de conferir um resultado. O sofrimento foi grande no início, mas diminuiu no segundo dia. Para decisões, a sugestão é reduzir as opções a três ou quatro, escolher e não voltar atrás a cada dúvida. Quando nada mais pode ser feito, a aceitação, apoiada na atenção plena ou em atividades envolventes, ajuda a trazer a mente de volta ao presente.

Aceitar a incerteza não significa ignorar o perigo nem fingir que todo revés é positivo. Como lembra Pema Chodron, o não saber faz parte da aventura de viver.

Você vai conseguir o emprego? O que vão dizer os exames médicos? E o que quer dizer aquele e-mail vago e ameaçador que o chefe mandou? São perguntas comuns, e o que há de comum entre elas é a falta de resposta imediata. É sobre esse desconforto que trata um conjunto de pesquisadores e terapeutas ouvidos pelo Estadão, que defendem que aprender a conviver com o "não sei" é uma habilidade que merece atenção.

A tese é apresentada por Dugas, citado na reportagem apenas pelo sobrenome. Para ele, a incerteza faz parte da vida nos relacionamentos, na saúde e nas finanças, e saber lidar com ela é fundamental para a qualidade de vida. Com esforço, diz, ela pode não só ser tolerada, mas acolhida. Ele provoca: não seria meio chato saber sempre o que vai acontecer?

O desconforto, porém, não é igual para todos nem em todas as situações. Nick Carleton, professor de psicologia da Universidade de Regina, em Saskatchewan, no Canadá, explica que ele se distribui num espectro contínuo e muda conforme as circunstâncias. Uma caixa fechada parece interessante quando está cercada de balões, amigos e cheiro de bolo, mas a sensação é outra se ela estiver abandonada numa estação de metrô. Alguma cautela, lembra ele, faz sentido do ponto de vista evolutivo: quem adorava a incerteza provavelmente entrou em cavernas onde não devia, e quem nunca saiu da zona de conforto provavelmente morreu de fome.

Há, no entanto, indícios de que o equilíbrio pende para o lado do medo. Jeroen van Baar, pesquisador de epidemiologia psiquiátrica da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston, e colegas examinaram 137 estudos que, desde a década de 1990, usaram a mesma escala para medir a "intolerância à incerteza" entre universitários. O termo descreve quem reage ao desconhecido com intensidade muito maior do que a situação justificaria. As pontuações médias aumentaram substancialmente.

Uma das teorias para isso são os smartphones, que eliminaram muitas oportunidades cotidianas de praticar o "não sei". Hoje é possível nunca mais se perder, avisar alguém sobre um atraso e resolver na hora qualquer discussão de bar sobre fatos triviais. Van Baar afirma que ter o celular no bolso permite saber quase tudo instantaneamente, o que pode ter dado às pessoas menos chances de se acostumar com a incerteza e de sentir que está tudo bem quando não se sabe o que virá. É uma hipótese, não uma relação comprovada.

Quando o desconforto vira ansiedade e atrapalha a rotina, Dugas orienta procurar ajuda profissional. Os tratamentos podem incluir a exposição segura à incerteza. Uma paciente dele, extremamente preocupada com notas, foi orientada a esperar 48 horas antes de consultar na internet o resultado de uma prova. O sofrimento foi intenso no início, conta o professor, mas diminuiu bastante no segundo dia. Segundo ele, só se aprende de verdade vivenciando aquilo que se teme.

Para decisões, a sugestão é reduzir as possibilidades a três ou quatro opções razoáveis, pesar vantagens e desvantagens, escolher e resistir à tentação de reconsiderar, já que provavelmente não existe escolha perfeita. Quando nada mais pode ser feito, Ryan, outra especialista ouvida, recomenda trocar a resolução de problemas pela aceitação. A atenção plena ou uma atividade envolvente ajudam a tirar o foco de pensamentos repetitivos e trazê-lo ao presente. Carleton sugere reconhecer as emoções negativas e perguntar se algo valioso pode nascer da preocupação, sem presumir que nascerá. Ryan propõe lembrar da infância, quando as surpresas empolgavam.

Aceitar a incerteza, ressalva a reportagem, não significa ignorar o perigo, suprimir a decepção nem insistir que todo revés é positivo. Como escreve a budista americana Pema Chodron em "Confortável com a Incerteza", a incerteza nunca pode ser evitada, e esse não saber faz parte da aventura. Para Dugas, quem não consegue lidar com um universo incerto terá muita dificuldade de ser feliz.

A aprendizagem só acontece de verdade quando você vivencia aquilo que teme.
— Dugas, especialista citado pela reportagem
Ter celulares nos bolsos nos permite saber quase tudo instantaneamente, o que pode ter dado menos oportunidades de se acostumar com a incerteza.
— Jeroen van Baar, Universidade de Boston (paráfrase)
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