Celina e Grass apresentam propostas para preparar DF contra desastres climáticos

Onde deveria haver preservação, o que se vê é o oposto
Especialista em urbanismo critica a ocupação desenfreada das bacias hídricas do Distrito Federal.
Mark

Por que 23 localidades específicas sofrem mais com esses riscos? É uma questão de geografia ou de como a cidade foi construída?

Mimi

Ambas as coisas. Algumas áreas estão em bacias naturalmente mais vulneráveis, mas a ocupação desordenada — sem plano de manejo, sem preservação de vegetação — piorou tudo. O rio Melchior é um exemplo perfeito: está poluído porque o saneamento é imperfeito e não planejado.

Luke

Mas o relatório da SSP que menciona as 23 localidades — ele detalha quais são? Porque os planos de governo falam em termos gerais. Grass cita cinco periferias específicas, Celina fala em "pontos históricos". Não sabemos se estão falando dos mesmos lugares.

Mark

Os dois candidatos propõem segurança hídrica, mas de formas diferentes. Qual abordagem é mais realista?

Mimi

Grass pensa em 30 anos — é ambicioso, estrutural. Celina foca em sistemas imediatos de captação e distribuição. Não são excludentes, mas refletem visões diferentes de urgência.

Luke

O problema é que nenhum deles menciona o rio Melchior, que é o mais poluído e está no sistema do Descoberto. Se não está no plano, como será resolvido? Isso é um vazio real nos dois programas.

Mark

E quanto aos refúgios climáticos que Grass propõe? Isso é algo que já existe em outras cidades?

Mimi

A ideia é criar espaços públicos com arborização, água, sombra — lugares onde as pessoas possam ir durante ondas de calor extremo. Grass quer começar por São Sebastião, que é uma região administrativa.

Luke

Mas qual é o custo? Quantos refúgios? Qual a capacidade? O plano diz "implementação", mas não diz escala. É uma proposta ou um compromisso mensurável?

Mark

Flósculo fala que Brasília dependerá cada vez mais de Goiás para água. Isso significa que nenhum plano local resolve o problema?

Mimi

Não completamente. Por isso a segurança hídrica passa por proteger as bacias locais — Descoberto, Paranoá, São Bartolomeu — e por usar a água de forma mais eficiente. Cisternas, permeabilização, arborização. Reduz a dependência.

Luke

Mas se Goiás não fizer sua parte — se não proteger suas bacias, se continuar a ocupação desordenada lá — Brasília fica vulnerável mesmo assim. Os planos não mencionam coordenação com o estado vizinho. Isso é um risco que ninguém está nomeando.

  • Vinte e três localidades do DF já convivem com riscos reais de enxurradas, erosão e alagamentos — a urgência climática não é cenário futuro, é presente.
  • O rio Melchior, o mais poluído do DF e parte do sistema de abastecimento do Descoberto, segue sem plano de manejo — e nenhum dos candidatos o menciona pelo nome.
  • A dependência crescente de Goiás para o abastecimento de água expõe Brasília a vulnerabilidades que vão além de suas próprias fronteiras administrativas.
  • Grass aposta em um plano hídrico de 30 anos, refúgios climáticos e um fundo distrital de resiliência; Celina prioriza captação, distribuição e integração operacional entre Defesa Civil e o CIOB.
  • Ambos reconhecem as 'soluções baseadas na natureza', mas divergem em quais territórios proteger primeiro — Celina fala em 'pontos históricos', Grass nomeia periferias específicas como Sol Nascente e Estrutural.

No segundo turno das eleições do Distrito Federal, Celina Leão e Leandro Grass apresentam visões distintas para preparar Brasília diante de uma crise climática que já afeta 23 localidades com alagamentos, queimadas e escassez hídrica. Especialistas alertam que o problema é estrutural — fruto de décadas de expansão urbana que ignorou bacias hidrográficas, permeabilidade do solo e a lógica da água. O que está em jogo não é apenas uma disputa de propostas técnicas, mas uma escolha coletiva sobre quem será protegido e em que tempo.

No segundo turno das eleições para o governo do Distrito Federal, Celina Leão e Leandro Grass apresentam caminhos distintos para um desafio que já é realidade: 23 localidades da região enfrentam riscos de alagamentos, enxurradas, erosão e queimadas. Os planos depositados no TSE reconhecem a urgência, mas divergem nas prioridades e na escala das intervenções.

Especialistas ouvidos pela reportagem são enfáticos: a solução vai além de alertas meteorológicos. José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais, defende planejamento urbano com arborização, permeabilização e repensar da expansão das cidades. Frederico Flósculo, da UnB, alerta que a ocupação desordenada das bacias do São Bartolomeu, Descoberto e Paranoá compromete padrões de drenagem milenares — onde deveria haver vegetação densa e filtragem, avança o asfalto.

Um caso emblemático da negligência é o rio Melchior, entre Ceilândia e Samambaia: o mais poluído do DF, parte do sistema do Descoberto, e sem qualquer plano de manejo. Nenhum dos dois candidatos o menciona em seus programas.

Grass propõe um plano de segurança hídrica para os próximos 30 anos, com recuperação das bacias, expansão de cisternas rurais, pagamento por serviços ambientais e criação de um Fundo Distrital de Resiliência. Prevê ainda refúgios climáticos e adaptação térmica das escolas com perspectiva de justiça climática. Celina aposta em investimentos em captação, reservação e distribuição de água, com destaque para os programas Água Legal e Tarifa Social, além de integração entre Defesa Civil e o Centro Integrado de Operações de Brasília.

Ambos defendem a ampliação da drenagem pluvial e as chamadas 'soluções baseadas na natureza', como jardins de chuva. A diferença mais reveladora está em quem proteger primeiro: Celina fala em 'pontos históricos de alagamento'; Grass nomeia periferias como Sol Nascente, Estrutural e Vila São José. O que os planos revelam, no fundo, é que preparar Brasília para o clima que vem é uma decisão política — sobre quem é protegido, como os recursos são distribuídos e se a cidade finalmente crescerá em torno da água, e não apesar dela.

No segundo turno das eleições para o governo do Distrito Federal, Celina Leão e Leandro Grass apresentam caminhos distintos para enfrentar um desafio que já atinge 23 localidades da região: alagamentos, enxurradas, erosão e queimadas cada vez mais frequentes. Os planos de governo dos dois candidatos, depositados no Tribunal Superior Eleitoral, reconhecem a urgência de preparar Brasília para eventos climáticos extremos. Mas enquanto compartilham preocupações comuns, divergem nas prioridades e na escala das intervenções propostas.

O cenário que ambos enfrentam é grave. Segundo dados de 2026 da Secretaria de Segurança Pública, quase duas dezenas de localidades sofrem com riscos climáticos diversos. Especialistas consultados pela reportagem apontam que a solução vai além de alertas meteorológicos. José Marengo, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, enfatiza que o planejamento urbano e a arborização são cruciais — é preciso criar espaços verdes, usar materiais que permitam a permeabilização da água, repensar como as cidades se expandem. Não se reconstrói uma cidade do zero, mas é possível reimaginar seus espaços.

Os desafios específicos do Distrito Federal revelam vulnerabilidades profundas. A crise hídrica é central: Brasília dependerá cada vez mais de Goiás para abastecimento de água, o que significa que qualquer desequilíbrio ambiental no estado vizinho terá impactos dramáticos. As bacias do São Bartolomeu e do Descoberto enfrentam ocupação desordenada e grilagem de terras. A bacia do Paranoá convive com expansão imobiliária sem plano de manejo adequado. Frederico Flósculo, professor de arquitetura e urbanismo da UnB, alerta que essa ocupação desenfreada compromete os padrões de drenagem natural milenares, alterando como a água é absorvida e levando aos rios água contaminada por asfalto e usos urbanos. Onde deveria haver áreas de filtragem, preservação e vegetação densa, o que se vê é o oposto.

Um caso específico ilustra a negligência: o rio Melchior, entre Ceilândia e Samabaia, é o mais poluído do Distrito Federal e integra o sistema do Descoberto, uma das principais fontes de abastecimento. Flósculo chama de vergonha o fato de não haver plano de manejo para o rio, apesar de sua importância crítica. Notavelmente, nenhum dos dois candidatos menciona nominalmente o Melchior em seus planos de governo.

Para enfrentar a seca e as queimadas que atingem o cerrado com frequência crescente, Leandro Grass propõe um plano de garantia da segurança hídrica pelos próximos 30 anos, com recuperação e proteção das bacias do Descoberto, Paranoá e São Bartolomeu. Seu programa inclui expansão de cisternas em áreas rurais e pagamento por serviços ambientais a produtores que conservam água e vegetação nativa. Grass também prevê implementação de refúgios climáticos, começando por São Sebastião. Celina Leão, por sua vez, propõe fortalecer a segurança hídrica através de investimentos em sistemas de captação, produção, reservação e distribuição de água, com prioridade para comunidades rurais, áreas de expansão urbana e territórios em regularização. Ela destaca os programas Água Legal e Tarifa Social.

Ambos os candidatos reconhecem a necessidade de ampliar programas de drenagem pluvial. O Drenar-DF já reduz impactos de alagamentos no Plano Piloto, mas sua abrangência territorial é insuficiente. As "soluções baseadas na natureza" aparecem em ambos os planos, incluindo jardins de chuva — estruturas que combinam absorção de plantas com camadas de drenagem para retenção de água. Uma diferença emerge nas prioridades geográficas: enquanto Celina menciona "pontos históricos de alagamento", Grass especifica periferias como Sol Nascente, Pôr do Sol, Estrutural, Vicente Pires e Vila São José. Celina também propõe integração entre Defesa Civil e o Centro Integrado de Operações de Brasília para respostas rápidas a fenômenos extremos, além de implementar critérios de adaptação, resiliência e redução de emissões no planejamento urbano. Grass vai além, focando em financiamento climático com a criação de um Fundo Distrital de Resiliência e Resposta a Desastres, além de adaptação térmica das escolas sob perspectiva de justiça climática e gênero.

O que ambos os planos revelam é que a preparação de Brasília para o clima que vem não é apenas técnica — é política. Envolve escolhas sobre quem é protegido primeiro, como os recursos são alocados, e se a expansão urbana será finalmente planejada em torno da realidade hídrica e ambiental da região, em vez de apesar dela.

Não dá para reconstruir ou destruir uma cidade e construir de novo, mas dá para colocar espaços verdes, utilizar material que permita permeabilizar a água
— José Marengo, pesquisador do Cemaden
A expansão urbana sobre as bacias compromete os padrões de drenagem natural milenares, porque vai alterar totalmente o padrão de absorção e vai levar ao rio uma água contaminada
— Frederico Flósculo, professor de arquitetura e urbanismo da UnB
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