A cada ciclo eleitoral, o Brasil reescreve, em pequenas doses, a geometria do poder. Nas eleições de outubro de 2026, 218 mulheres conquistaram assentos nas Assembleias estaduais e na Câmara Distrital — o maior número já registrado, representando 21% das vagas disponíveis. O avanço é real, mas desigual: enquanto o Ceará celebra uma bancada feminina de 30%, o Acre encerra o pleito sem eleger nenhuma mulher, lembrando que progresso coletivo raramente é uniforme.
Ceará terá Assembleia mais feminina do país; Acre elegeu apenas homens
Acre elegeu três deputadas em 2022 e nenhuma em 2026
Como explicar que o Ceará tenha chegado a 30% de representação feminina enquanto o Acre caiu para zero?
O Ceará tem uma história recente de mobilização em torno da candidatura de mulheres, e isso se reflete nos números. O Acre é um caso extremo que merece investigação — não sabemos ainda se houve menos candidatas, menos votação em candidatas, ou mudanças nas coligações que afetaram mulheres especificamente.
Exatamente. O artigo nos diz o que aconteceu, mas não explica por quê. Sabemos que o Acre tinha três deputadas e agora tem zero, mas não temos informação sobre quantas mulheres se candidataram, qual foi a votação delas, ou se houve alguma mudança estrutural nas eleições que as prejudicou.
É verdade. O que podemos afirmar é que a tendência nacional é de crescimento — 218 mulheres agora contra 191 em 2022 — mas há bolsões de resistência ou retrocesso que merecem aprofundamento.
E quanto a Eduarda Campopiano ser a mais votada do país? Isso muda algo?
Muda a conversa sobre quem são essas mulheres eleitas. Não é um bloco monolítico. Campopiano se elegeu contra o feminismo, enquanto Sofia Favero se elegeu pela esquerda. São trajetórias políticas completamente diferentes.
Mas o artigo não nos diz se Campopiano é exceção ou tendência. Ela foi a mais votada em São Paulo, mas quantas mulheres de direita foram eleitas no país todo? Sabemos que 13 das 28 em São Paulo são de esquerda, mas não temos esse recorte para os outros estados.
Então o crescimento é real, mas ainda há muito que não entendemos sobre as dinâmicas por trás dele.
Sim. O que temos é um retrato — mulheres estão chegando em maior número — mas o filme completo, as razões, as estratégias, as barreiras que ainda existem, isso fica para investigações futuras.
Der Puls
- O número de deputadas estaduais saltou de 191 para 218 em relação a 2022, consolidando uma tendência ascendente que dura mais de uma década.
- O Acre protagonizou o retrocesso mais simbólico: passou de três deputadas eleitas para zero, expondo a fragilidade da representação feminina em estados menores.
- Ceará, São Paulo e Rio Grande do Norte lideram o país em percentual de mulheres eleitas, com índices acima de 29% — mais que o dobro da média nacional de 2014.
- A candidata mais votada de São Paulo, Eduarda Campopiano, construiu sua campanha contra o feminismo, revelando que o avanço numérico das mulheres no poder não implica convergência ideológica.
- A esquerda concentra a maioria das deputadas eleitas em São Paulo, mas a direita amplia sua presença feminina, com o Partido Liberal elegendo cinco mulheres no estado.
A cada ciclo eleitoral, o Brasil reescreve, em pequenas doses, a geometria do poder. Nas eleições de outubro de 2026, 218 mulheres conquistaram assentos nas Assembleias estaduais e na Câmara Distrital — o maior número já registrado, representando 21% das vagas disponíveis. O avanço é real, mas desigual: enquanto o Ceará celebra uma bancada feminina de 30%, o Acre encerra o pleito sem eleger nenhuma mulher, lembrando que progresso coletivo raramente é uniforme.
Nas eleições de 4 de outubro, as mulheres alcançaram um marco histórico nas Assembleias estaduais brasileiras: 218 cadeiras conquistadas em um universo de 1.059, chegando a 21% do total. O número supera todos os registros anteriores e representa 27 vagas a mais do que em 2022.
A trajetória não foi linear. Em 2014, o país chegou a eleger apenas 119 mulheres para os Legislativos estaduais — um recuo em relação a 2010. Desde então, a curva inverteu-se e não parou de subir: 163 em 2018, 191 em 2022, 218 agora. O ritmo é modesto, mas consistente.
O Ceará lidera o país com 30,4% de representação feminina — 14 das 46 vagas —, seguido por São Paulo, com 29,8%, e Rio Grande do Norte, com 29,2%. Quinze estados registraram crescimento. No sentido oposto, sete estados recuaram, com destaque para o Acre, que saiu de três deputadas eleitas para nenhuma, a queda mais dramática em termos absolutos.
Em São Paulo, a candidata mais votada foi Eduarda Campopiano, do Partido Liberal, com quase dois milhões de votos. Ela se apresentou como adversária do feminismo e símbolo da oposição à esquerda. Sua eleição coexiste com a de Sofia Favero, integrante da bancada trans pelo PSOL, e de outras 26 deputadas com perfis políticos os mais diversos.
No total, 13 das 28 deputadas paulistas são de esquerda, com o PSOL elegendo oito mulheres. A direita elegeu 11, liderada pelo Partido Liberal com cinco cadeiras. O retrato final é o de um Legislativo que se feminiza gradualmente, mas ainda carrega profundas assimetrias regionais e ideológicas.
Nas eleições de domingo, 4 de outubro, as mulheres conquistaram o maior número de cadeiras em Assembleias estaduais e na Câmara do Distrito Federal desde que esses registros começaram a ser sistematicamente acompanhados. Das 1.059 vagas que serão preenchidas em todo o país, 218 serão ocupadas por mulheres — um aumento de 27 cadeiras em relação à eleição anterior, em 2022. Em termos percentuais, isso representa 21% do total de assentos disponíveis.
O crescimento não é acidental nem isolado. Em 2010, apenas 138 mulheres foram eleitas para os Legislativos estaduais. Quatro anos depois, em 2014, esse número caiu para 119, marcando um recuo preocupante. Desde então, porém, a trajetória tem sido consistentemente ascendente: 163 em 2018, 191 em 2022, e agora 218 em 2026. A tendência revela uma mudança estrutural na política brasileira, ainda que o ritmo de avanço permaneça modesto quando comparado à população total.
O Ceará emergiu como o estado mais feminino do país em termos de representação legislativa. Das 46 vagas na Assembleia Estadual, 14 serão ocupadas por mulheres, o que corresponde a 30,4% do total — um crescimento de 19,6% em relação a 2022. São Paulo vem em segundo lugar, com 29,8% de representação feminina (28 deputadas eleitas, um aumento de duas cadeiras em relação ao pleito anterior), e Rio Grande do Norte fecha o pódio com 29,2%. Quinze estados registraram crescimento no percentual de mulheres eleitas: Pará, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Roraima, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraíba, Santa Catarina, Pernambuco, Mato Grosso, Bahia, Goiás, São Paulo e Rio de Janeiro, além do Distrito Federal.
O cenário oposto é igualmente revelador. Sete estados viram o percentual de mulheres nas Assembleias diminuir em relação a 2022: Amazonas, Acre, Rondônia, Amapá, Sergipe, Alagoas e Paraná. O Amazonas e o Acre registraram as quedas mais drásticas, ambos com redução de 12,5%. No caso do Acre, a queda foi catastrófica em termos absolutos: o estado elegeu três deputadas em 2022 e nenhuma em 2026. Quatro estados mantiveram a mesma quantidade de mulheres eleitas: Maranhão (12 deputadas, 28,6% do total), Piauí (4 deputadas, 13,3%), Tocantins (3 deputadas, 12,5%) e Mato Grosso do Sul (2 deputadas, 8,3%).
Em São Paulo, o estado mais populoso do país, a mulher mais votada em toda a eleição foi Eduarda Campopiano, do Partido Liberal, que recebeu 1.956.238 votos. Campopiano construiu sua campanha em uma plataforma explicitamente contrária ao feminismo, apresentando-se como "uma pedra no sapato da esquerda". Antes de se candidatar à Assembleia Legislativa, ela foi vereadora de Praia Grande. Sua eleição como a candidata mais votada do estado ilustra a diversidade de posições políticas entre as mulheres que chegam ao Legislativo.
A esquerda paulista elegeu a maioria das deputadas estaduais em São Paulo. O PSOL conquistou oito cadeiras femininas: Sofia Favero, Paula da Bancada Feminista, Ediane Maria, Luiza Erundina, Monica das Pretas, Mariana Conti, Débora Camilo e Keit Lima. Sofia Favero integra a bancada trans, juntando-se a Dani Balbi, do Partido Comunista do Brasil (Rio de Janeiro), Linda Brasil, do PSOL (Sergipe), e Natasha Ferreira, do PT (Rio Grande do Sul), que se reelegeram. O PT elegeu quatro mulheres entre seus 16 eleitos: Duda Hidalgo, Ana Perugini, Professora Bebel e Thainara Faria. O PSB elegeu Marina Bragante. No total, 13 das 28 deputadas eleitas em São Paulo são de esquerda.
A direita elegeu 11 mulheres na Assembleia paulista. O Partido Liberal, sozinho, conquistou cinco cadeiras: além de Eduarda Campopiano, foram eleitas Fabiana Bolsonaro, Dani Alonso, Delegada Graciela e Letícia Aguiar. O Republicanos elegeu Bruna Furlan e Ely Santos. O PSDB elegeu Ana Carolina Serra. O União Brasil conquistou três cadeiras: Solange Freitas, Camila Godoi e Renata Sene. Pelo centro, o PSD elegeu Marta Costa, Analice Fernandes e Carla Morando, enquanto o MDB elegeu Regina Nunes. Essa distribuição reflete uma tendência nacional: a esquerda concentra a maioria das mulheres eleitas para os Legislativos estaduais, enquanto a direita e o centro têm participação menor, embora crescente.
Bemerkenswerte Zitate
Eduarda Campopiano, do Partido Liberal, foi a mulher mais votada em São Paulo com 1.956.238 votos, construindo sua campanha em plataforma contrária ao feminismo— Folha de S.Paulo
Das 28 deputadas eleitas em São Paulo, 13 são de esquerda, contra 11 da direita e 4 do centro— Folha de S.Paulo