CBO orienta cautela sem alarmismo sobre canetas emagrecedoras e saúde ocular

Cautela sem alarmismo, mas com monitoramento rigoroso
A recomendação do CBO equilibra a necessidade de vigilância com a realidade de que a doença permanece muito rara.
Mark

Por que o CBO está sendo tão cauteloso se a Anvisa está investigando esses casos?

Mimi

Porque a cautela é apropriada aqui. Existem 13 notificações, sim, mas quando você olha para os estudos que tentam provar a ligação, eles têm problemas reais de metodologia. Não são estudos controlados.

Luke

Qual é exatamente o tamanho do risco que estamos falando?

Mimi

Se você usar a caneta, o risco de Noiana sobe de 1 em 10 mil para talvez 1,5 ou 1,7 em 10 mil. É um aumento real, mas pequeno.

Mark

Então por que as pessoas deveriam se preocupar?

Mimi

Porque a Noiana causa perda visual aguda e súbita. É rara, mas quando acontece, é grave. Por isso o acompanhamento oftalmológico regular importa.

Luke

Mas como sabemos que esses 13 casos não são apenas coincidência? Essas pessoas já tinham diabetes, obesidade, hipertensão — fatores que já aumentam o risco ocular.

Mimi

Exatamente. Os bancos de dados não controlam bem para essas variáveis. O grupo que usava a caneta era mais doente para começar.

Mark

Então o CBO está dizendo que é seguro usar?

Mimi

Não. Está dizendo que toda medicação potente traz riscos, e você precisa conversar com seu médico sobre se os benefícios compensam. E você precisa fazer acompanhamento oftalmológico regular.

Luke

Qual é a lacuna maior aqui — o que ainda não sabemos?

Mimi

Se existe realmente uma relação causal ou se é apenas correlação em pessoas que já tinham mais fatores de risco. Um estudo controlado randomizado responderia isso, mas é difícil de fazer com medicações já em uso.

  • A Anvisa abriu investigação após 13 relatos de perda visual aguda em pacientes que usam medicamentos injetáveis para emagrecer, acendendo um alerta no campo da saúde ocular.
  • A doença investigada, a Noiana, age como um derrame no nervo óptico — silenciosa até o momento em que rouba a visão de um olho de forma súbita e irreversível.
  • Os estudos que tentam ligar as canetas à doença esbarram em falhas metodológicas sérias: grupos de pacientes não equivalentes, dados incompletos e ausência de ensaios controlados.
  • O risco real, se confirmado, seria modesto — de 1 para 10 mil pessoas para cerca de 1,5 a 1,7 por 10 mil —, longe de caracterizar uma epidemia.
  • O CBO orienta: quem sentir alteração visual deve buscar um oftalmologista imediatamente; quem não tem sintomas deve conversar com seu médico sobre monitoramento regular e a continuidade do tratamento.

Diante de 13 notificações investigadas pela Anvisa sobre uma rara doença ocular em usuários de canetas emagrecedoras, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia convoca a prudência sem ceder ao pânico. A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica — condição que priva subitamente a visão — permanece uma ocorrência excepcional, e os dados disponíveis sugerem uma associação possível, mas ainda inconclusiva. Como em tantos momentos da medicina, a sabedoria reside no equilíbrio: nem ignorar o sinal, nem amplificá-lo além do que a evidência sustenta.

A Anvisa investiga 13 casos de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica — a Noiana — em pessoas que utilizam canetas emagrecedoras. A doença, rara e grave, provoca perda visual aguda em geral em um olho por vez, funcionando de modo semelhante a um derrame, mas restrito ao nervo óptico. Diante do cenário, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia emitiu orientações pedindo cautela sem alarmismo.

O secretário-geral do CBO, Mauro Goldbaum, explica que qualquer paciente com sintomas visuais deve procurar um oftalmologista de imediato. Para quem não apresenta queixas, a recomendação é dialogar com o médico prescritor sobre a necessidade de acompanhamento ocular regular. A preocupação com uma possível ligação entre esses medicamentos e a Noiana ganhou força em 2024, quando um centro médico nos Estados Unidos registrou aumento de casos entre usuários dessas canetas.

Os estudos conduzidos desde então têm qualidade, mas carregam limitações importantes. A maioria é retrospectiva, baseada em bancos de dados existentes, sem o rigor de ensaios controlados. O grupo que usava a medicação já tendia a ser mais doente — com diabetes e obesidade —, fatores que por si só elevam o risco ocular e cardiovascular. Uma meta-análise publicada por oftalmologistas da Unifesp tentou reunir esses dados, mas o resultado depende da qualidade das pesquisas originais, que omitem informações como tabagismo e hipertensão.

O que os números indicam até agora é uma possibilidade real, porém limitada: o risco de Noiana subiria de 1 para cada 10 mil pessoas para cerca de 1,5 a 1,7 por 10 mil — um aumento modesto para uma doença já muito rara. A recomendação final do CBO é equilibrada: evitar automedicação, manter monitoramento médico rigoroso e discutir individualmente com o prescritor a continuidade do tratamento, pesando benefícios e riscos.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária está investigando 13 notificações de um tipo raro de doença ocular entre pessoas que usam canetas emagrecedoras — medicamentos injetáveis prescritos para perda de peso. A condição em questão, conhecida como neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noiana), causa perda visual aguda e súbita, geralmente afetando um olho de cada vez. Diante dessa investigação, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia divulgou uma orientação pedindo cautela, mas sem alarmismo.

Segundo Mauro Goldbaum, secretário-geral do CBO, qualquer paciente que experimente problemas visuais deve procurar um oftalmologista imediatamente. Para aqueles sem sintomas, a recomendação é conversar com o médico que prescreveu a caneta emagrecedora sobre a necessidade de acompanhamento oftalmológico regular. A orientação reforça que toda medicação potente traz riscos inerentes, e o tratamento deve ser avaliado considerando a relação entre benefícios e possíveis danos.

A preocupação com uma possível ligação entre essas canetas e a Noiana começou a ganhar força em 2024, quando um centro médico nos Estados Unidos reportou um aumento de casos da doença entre pessoas que utilizavam esses medicamentos. Desde então, pesquisas foram conduzidas para tentar estabelecer essa relação. Goldbaum reconhece que os estudos existentes têm qualidade, mas apresentam limitações metodológicas importantes. A maioria deles é retrospectiva, baseada na análise de bancos de dados já existentes, sem o rigor de um estudo controlado randomizado. Além disso, o grupo que usava a medicação naturalmente apresentava um perfil clínico mais complexo, com fatores como diabetes e obesidade que já elevam o risco cardiovascular e ocular por si só.

"Você pega um banco de dados e avalia os pacientes que usaram e os que não utilizaram a caneta. Não temos o controle se esses dois grupos são realmente equivalentes. Intuitivamente imaginamos que o grupo que usou a caneta provavelmente já era mais doente, com diabetes e obesidade, senão não usaria", explica o especialista. Recentemente, oftalmologistas da Universidade Federal de São Paulo publicaram uma meta-análise tentando reunir e homogeneizar esses dados para obter uma conclusão mais robusta. Porém, o resultado de uma meta-análise depende da qualidade das pesquisas que a compõem. Como os registros originais omitem informações importantes como tabagismo ou hipertensão, o cenário permanece inconclusivo.

O que os dados sugerem até agora é uma possibilidade real, mas com efeito limitado. Não há uma epidemia em desenvolvimento. O risco de Noiana aumentaria apenas de um caso a cada 10 mil pessoas para 1,5 ou 1,7 a cada 10 mil — um aumento modesto para uma doença que já é muito rara. Alguns estudos sugerem que o risco nem chega a dobrar. Goldbaum enfatiza que a doença é tão incomum que mesmo com essa possível correlação, ela permanece uma ocorrência excepcional.

A recomendação final do CBO é equilibrada: cautela sem alarmismo. Como esses pacientes já necessitam de acompanhamento oftalmológico regular para prevenir outras complicações como a retinopatia, a estratégia é evitar a automedicação, manter o monitoramento médico rigoroso e discutir individualmente com o prescritor a continuidade do tratamento. A Noiana funciona de maneira semelhante a um derrame cerebral, mas afeta especificamente o nervo óptico. Ocorre quando uma artéria sofre obstrução, interrompendo o fluxo sanguíneo que deveria abastecer essa estrutura. Geralmente acomete pessoas acima de 50 anos, tabagistas e com doenças crônicas. Alguns fatores oculares também aumentam o risco, como ter o disco óptico naturalmente pequeno, uma característica estrutural que deixa menos espaço para artérias e veias, aumentando a chance de entupimento.

Você pega um banco de dados e avalia os pacientes que usaram e os que não utilizaram a caneta. Não temos o controle se esses dois grupos são realmente equivalentes.
— Mauro Goldbaum, secretário-geral do CBO
Vemos que existe essa possibilidade, mas com efeito limitado. Não tem uma epidemia, não aumenta de uma forma expressiva o risco de Noiana.
— Mauro Goldbaum
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