O infarto pode enganar. Não é sempre aquela dor clássica.
O infarto, por muito tempo associado ao envelhecimento, começa a revelar uma face mais jovem e inquietante no Brasil. Em 24 anos, as internações por ataque cardíaco entre menores de 40 anos triplicaram — reflexo de um modo de vida que acumula riscos silenciosos: sedentarismo, ultraprocessados, substâncias estimulantes e doenças que avançam sem avisar. O que antes parecia distante da juventude tornou-se um espelho incômodo dos hábitos que a modernidade normalizou.
- Em duas décadas, o Brasil passou de dois para cinco infartos a cada 100 mil jovens — um salto de 150% que os cardiologistas descrevem como uma mudança perturbadora no perfil da doença.
- O estilo de vida contemporâneo funciona como um acumulador silencioso de danos: jornadas exaustivas, alimentação ultraprocessada, vape, cocaína e energéticos sobrecarregam corações que deveriam estar no auge.
- O uso de anabolizantes sem prescrição médica emerge como alerta crescente, com cardiologistas relatando pacientes jovens que sofreram infarto após buscar resultados estéticos rápidos por conta própria.
- Sintomas atípicos — náusea, cansaço inexplicado, tontura — fazem com que jovens demorem a buscar ajuda, tornando o diagnóstico tardio um fator agravante da mortalidade prematura.
- A prevenção existe e funciona: exercício regular combinado com alimentação equilibrada controla pressão, colesterol e circulação — mas exige abandono dos atalhos que a cultura contemporânea tanto oferece.
O infarto deixou de ser uma sentença reservada aos idosos. Dados do Ministério da Saúde e da Sociedade de Cardiologia de São Paulo mostram que, entre 2000 e 2024, o número de jovens com menos de 40 anos internados por ataque cardíaco no Brasil triplicou — de dois para cinco casos a cada 100 mil habitantes. A mudança no perfil da doença cardiovascular mais temida do país levanta uma pergunta incômoda: o que está acontecendo com a saúde do brasileiro jovem?
A cardiologista Beatriz Matheuz Zamuner, do Hospital Evangélico, aponta quatro pilares do problema. O primeiro é o estilo de vida moderno: jornadas de 12 horas, alimentação ultraprocessada, vape — que carrega carga tabágica maior do que se imagina —, cocaína e energéticos misturados com álcool. O segundo são as doenças silenciosas: pressão alta, colesterol elevado, resistência à insulina e síndrome metabólica avançam sem dar aviso, danificando o sistema cardiovascular por dentro. O terceiro é a genética — histórico familiar de infarto eleva significativamente o risco. O quarto, e crescente, é o uso de anabolizantes sem prescrição, buscados por resultados estéticos rápidos. Zamuner relata ter atendido vários pacientes jovens que sofreram infarto nesse contexto: as substâncias alteram o colesterol, aumentam a pressão, espessam o sangue e inflamam os vasos.
Outro fator de risco é a dificuldade de reconhecer os sintomas. Enquanto idosos sentem a dor clássica no peito irradiando para o braço, jovens podem apresentar náusea, dor de estômago, cansaço sem explicação ou tontura — sinais que facilmente passam por outra coisa e atrasam o diagnóstico.
A boa notícia é que o cenário é prevenível. Caminhadas diárias combinadas com musculação duas ou três vezes por semana controlam pressão, reduzem o colesterol ruim, melhoram a circulação e fortalecem o organismo. Mesmo quem já tem doença cardiovascular pode se exercitar, desde que com orientação médica. Não há atalho: treinar, comer bem e ter acompanhamento profissional continuam sendo o caminho mais seguro — e mais urgente do que nunca.
O infarto deixou de ser uma sentença reservada aos idosos. Nos últimos 24 anos, o número de pessoas com menos de 40 anos internadas por infarto no Brasil triplicou — passou de dois para cinco casos a cada 100 mil habitantes. Os dados compilados pelo Ministério da Saúde e pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo revelam uma mudança perturbadora no perfil da doença cardiovascular mais temida do país.
O infarto acontece quando o fluxo de sangue para o coração é interrompido ou drasticamente reduzido, geralmente por uma artéria entupida. Mas por que jovens, supostamente no auge da saúde, estão tendo ataques cardíacos? A resposta está em como vivemos agora. A cardiologista Beatriz Matheuz Zamuner, do Hospital Evangélico, identifica quatro pilares do problema: o estilo de vida moderno, o uso de drogas, doenças silenciosas e a genética.
O cotidiano contemporâneo é um acumulador de riscos. Muitos trabalham 12 horas por dia sem tempo para se mexer. A comida que comem vem pronta, ultraprocessada, cheia de sal e açúcar. O cigarro ainda mata, mas agora tem concorrência: o vape, que as pessoas acreditam ser mais seguro, quando na verdade carrega uma carga tabágica muito maior. Cocaína e bebidas energéticas misturadas com álcool completam o quadro de substâncias que sobrecarregam o coração jovem. A obesidade cresceu junto com tudo isso, assim como o estresse crônico que ninguém consegue escapar.
Há também os vilões invisíveis — pressão alta, colesterol elevado, resistência à insulina, síndrome metabólica — doenças que não dão aviso prévio mas vão danificando o sistema cardiovascular silenciosamente. Se a família tem histórico de infarto, o risco sobe ainda mais.
Os sintomas em jovens podem enganar. Enquanto um idoso sente aquela dor clássica no peito irradiando para o braço esquerdo, um jovem pode acordar com náusea, dor de estômago, cansaço que não faz sentido ou tontura estranha. Essa atipicidade é perigosa porque leva a demoras no diagnóstico. Qualquer alteração incomum merece uma consulta médica.
Um alerta específico vem ganhando importância: o uso de esteroides anabolizantes. Pessoas buscam resultados estéticos rápidos e compram essas substâncias por conta própria, sem prescrição. Zamuner relata ter recebido vários pacientes que sofreram infarto nesse grupo. Os anabolizantes mexem com o colesterol, aumentam a pressão, deixam o sangue mais espesso, sobrecarregam o coração e inflamam os vasos. Nenhum profissional de educação física deveria indicar essas drogas — quando necessárias, apenas um médico especialista pode prescrever, com exames e acompanhamento.
A boa notícia é que tudo isso é prevenível. Exercício físico regular e alimentação equilibrada funcionam. Caminhadas diárias combinadas com musculação duas ou três vezes por semana trazem benefícios reais: controlam a pressão, reduzem o colesterol ruim, aumentam o bom colesterol, melhoram a circulação, fortalecem os ossos e ajudam a controlar o açúcar no sangue. Até quem já tem doença cardiovascular pode se exercitar, desde que com orientação profissional e liberação médica. Não há atalho. O caminho seguro continua sendo o mesmo: treinar, comer bem e ter acompanhamento profissional.
Notable Quotes
O sedentarismo, a gente vê muitas pessoas trabalhando 12 horas ao dia sem tempo para fazer atividade física. Alimentação ruim, focada em comidas rápidas e ultraprocessadas.— Dra. Beatriz Matheuz Zamuner, cardiologista
Temos recebido muitos pacientes que utilizam esteroides anabolizantes por conta própria, com fins estéticos, e temos observado casos de infarto nesse grupo.— Dra. Beatriz Matheuz Zamuner, cardiologista
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que você acha que os jovens estão tendo infartos agora, quando antes isso era coisa de gente velha?
Porque a vida mudou completamente. Antes, as pessoas se movimentavam mais naturalmente. Agora passam 12 horas sentadas, comem comida pronta, fumam vape achando que é seguro, e muitos ainda usam anabolizantes para ficar grande rápido.
Mas nem todo jovem tem infarto. O que diferencia quem tem de quem não tem?
A genética conta, mas não é tudo. Se você herda predisposição, aí qualquer hábito ruim vira uma bomba. Mas mesmo sem histórico familiar, sedentarismo, estresse crônico e essas drogas — cocaína, vape, anabolizantes — conseguem danificar um coração jovem.
Os sintomas são iguais aos dos idosos?
Não. Um idoso sente aquela dor clássica no peito. Um jovem pode acordar com náusea, cansaço estranho, tontura. Por isso muitos não procuram médico a tempo. Acham que é gripe ou estresse.
E os anabolizantes? Por que isso está virando um problema tão grande?
Porque virou fácil comprar. Ninguém prescreve, ninguém acompanha. A pessoa quer ficar grande rápido e não pensa que está mexendo com colesterol, pressão, inflamação dos vasos. O coração não aguenta.
Então não tem jeito de prevenir?
Tem sim. Exercício regular, comida de verdade, sem atalhos. Caminhada todo dia, musculação algumas vezes por semana. Não é rápido, não é glamouroso, mas funciona.