Cashback da reforma tributária dará novo reajuste ao Bolsa Família em 2027

O programa beneficia 28 milhões de famílias de baixa renda, reduzindo a carga tributária que corresponde a 60% da renda dos 10% mais pobres.
Devolução que muda a lógica de quem paga mais do que pode
O cashback reduz a carga tributária que consome 60% da renda dos 10% mais pobres do Brasil.
Mark

Por que esse cashback importa agora? Parece um valor pequeno — R$ 350 por ano.

Mimi

Pequeno em termos absolutos, mas para quem vive com renda muito baixa, 3,8% é significativo. E não é só isso — o programa muda a lógica. Você está devolvendo dinheiro que foi cobrado no consumo.

Luke

Mas depende de formalizar as compras com CPF. Quantas famílias de baixa renda realmente fazem isso? O programa no RS tem 524 mil famílias, mas há 70 milhões elegíveis.

Mimi

Verdade. Por isso o programa no RS é importante — mostra que quando você oferece o incentivo, as pessoas começam a usar CPF. Aumentou bastante lá.

Mark

E o valor vai crescer? R$ 350 não parece ser o final da história.

Mimi

Não é. A partir de 2029 entra o IBS, e o governo projeta que pode dobrar até 2033. Mas isso depende de decisões políticas sobre alíquotas e isenções.

Luke

Que ainda não foram tomadas. O Congresso já reduziu o potencial do programa ao ampliar a cesta básica com alíquota zero. Não sabemos qual será a alíquota final da CBS.

Mark

Então o valor de R$ 350 é uma estimativa?

Mimi

É. O governo fez a conta após a aprovação da lei, ajustada pela inflação. Mas a Receita Federal vai definir o número exato.

Luke

E os limites de gastos por família também serão definidos pelo próximo presidente. Muita coisa ainda está em aberto.

Mark

Qual é o precedente que temos?

Mimi

O Rio Grande do Sul. Lá reduziu em 37% o peso do ICMS para os mais pobres. E descobriram que 90% do dinheiro devolvido é gasto com alimentação.

Luke

Mas aquilo é um programa menor, com 524 mil famílias. Escalar para 28 milhões é outra história.

  • 28 milhões de famílias do Cadastro Único receberão cashback a partir de 2027
  • 19 milhões beneficiários do Bolsa Família receberão média de R$ 350 anuais
  • Acréscimo de 3,8% na renda média do Bolsa Família, estimada em R$ 777 mensais
  • Custo anual de aproximadamente R$ 10 bilhões, sem impacto no arcabouço fiscal
  • Valor pode dobrar a partir de 2033 com inclusão do IBS

19 milhões de famílias do Bolsa Família receberão devolução média de R$ 350 por ano da CBS, a partir de janeiro de 2027, representando acréscimo de 3,8% na renda. O cashback aumentará progressivamente a partir de 2029 com inclusão do IBS, podendo dobrar de valor a partir de 2033, potencialmente chegando a mais de R$ 5 mil anuais para famílias com múltiplas fontes de renda.

A partir de 2027, 28 milhões de famílias inscritas no Cadastro Único receberão cashback da reforma tributária, com média de R$ 350 anuais. O benefício representa aumento de 3,8% na renda do Bolsa Família e deve custar cerca de R$ 10 bilhões por ano.

A partir de janeiro de 2027, quando entra em vigor a Contribuição sobre Bens e Serviços, 28 milhões de famílias inscritas no Cadastro Único começarão a receber uma devolução anual em dinheiro. Entre elas estão 19 milhões que dependem do Bolsa Família. O valor médio estimado é de R$ 350 por ano — uma quantia modesta, mas que representa um acréscimo de 3,8% sobre o benefício mensal que o governo anunciou reajustar em outubro para R$ 777.

Esse cashback é resultado da reforma tributária aprovada pelo Congresso. A CBS substitui o PIS, Cofins, IOF-Seguros e parte da arrecadação do IPI. O governo calcula que o programa custará aproximadamente R$ 10 bilhões anuais, mas a estrutura foi desenhada para não contar como gasto no arcabouço fiscal — o dinheiro será concedido por isenção ou restituição, deduzido da arrecadação. Giovani Padilha, subsecretário adjunto da Receita do Rio Grande do Sul e um dos responsáveis pelo programa de devolução que funciona no estado desde 2022, realizou cálculos independentes que apontam um cashback máximo de R$ 354 para uma família que recebe apenas o Bolsa Família, considerando uma alíquota de 10% para a CBS.

O programa não é estático. A partir de 2029, quando começar a substituição dos tributos estaduais e municipais sobre consumo pelo Imposto sobre Bens e Serviços, o cashback aumentará. O governo projeta que o valor pode dobrar a partir de 2033, após a transição completa. Padilha estima que, considerando também a devolução do IBS, o valor anual pode variar de R$ 248 a R$ 983 para quem está no Bolsa Família e possui apenas essa renda. Para famílias com múltiplas fontes de renda e mais integrantes, o benefício poderia ultrapassar R$ 5 mil anuais — mas isso depende de uma condição: que a família formalize 100% de suas compras incluindo o CPF na nota fiscal.

O regulamento estabelece que o governo, por meio da Receita Federal, fixará limites de gastos compatíveis com a renda de cada família, evitando fraudes como o uso do CPF de beneficiários por outras pessoas. Não haverá devolução para itens sujeitos ao Imposto Seletivo — veículos, fumo, bebidas alcoólicas e açucaradas. Para famílias em locais remotos, haverá uma fórmula compensatória pela falta de acesso ao comércio formal. O pagamento será feito em quatro parcelas trimestrais, começando em 25 de abril, em conta no nome do responsável pela unidade familiar. Para itens essenciais como energia, água, gás canalizado e telecomunicações, a devolução será de 100% da CBS; para os demais, 20%.

O Brasil já possui um programa similar funcionando. No Rio Grande do Sul, o Devolve ICMS paga R$ 100 por trimestre mais uma parcela variável conforme o consumo registrado com CPF, elevando o valor médio para R$ 127. Lá, o programa reduziu em 37% o peso do ICMS para os mais pobres e aumentou significativamente o número de notas com CPF. Cerca de 524 mil famílias participam do programa estadual, e dados mostram que quase 90% da restituição é gasta com alimentação, com o restante dividido entre itens farmacêuticos e de higiene.

O contexto que torna esse programa relevante é a desproporção na carga tributária brasileira. Segundo cálculos do Banco Mundial, os 10% mais pobres respondem por apenas 2,4% do total arrecadado na tributação sobre consumo, mas suportam uma carga que corresponde a 60% de sua renda. Entre os 10% mais ricos, o comprometimento de renda é de 13%. O governo chegou a estimar devoluções maiores, mas o Congresso optou por uma cesta básica com alíquota zero ampliada, reduzindo o potencial do cashback. Economistas como Sérgio Gobetti veem potencial futuro: "Talvez quando o cashback estiver funcionando, e se verificar que ele é mais eficiente, a gente consiga diminuir os casos de alíquotas reduzidas e ampliar a política de devolução".

Os limites financeiros exatos do programa serão definidos pelo próximo presidente. Entre os candidatos presidenciáveis, apenas Lula cita o programa em seu plano de governo, ao falar sobre os benefícios da reforma tributária. O valor exato que cada família receberá também dependerá da alíquota final que a Receita Federal estabelecer para a CBS — quanto maior o percentual, maior a devolução. Para os 70 milhões de brasileiros em famílias com renda mensal per capita de até meio salário mínimo, o programa representa uma mudança concreta na estrutura de como o sistema tributário os afeta.

Talvez quando o cashback estiver funcionando, e se verificar que ele é mais eficiente, a gente consiga diminuir os casos de alíquotas reduzidas e ampliar a política de devolução
— Sérgio Gobetti, economista
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