BB debitou R$ 422 mi da conta da Casas Bahia para se reembolsar após honrar garantias contratuais acionadas por fornecedores Apple e Mapfre Seguros. Empresa também enfrenta bloqueios de R$ 18 mi em recebíveis de cartão por Getnet, Cielo e Redecard, além de travamento de contas pelo BTG Pactual.
Casas Bahia pede à Justiça devolução de R$ 422 mi do BB e tenta frear saída de recursos
Você sangra a empresa antes mesmo do início da recuperação
Por que o Banco do Brasil agiu dessa forma, debitando o dinheiro sem avisar?
O banco estava protegendo a si mesmo. Ele havia honrado as garantias que a Casas Bahia havia contratado com a Apple e a Mapfre, então se reembolsou pegando o dinheiro de volta. Do ponto de vista do banco, era uma transação simples: ele pagou, agora cobra. Mas a Casas Bahia diz que isso viola as regras de um processo de recuperação judicial, onde todos os credores deveriam estar no mesmo nível.
E os outros bloqueios — do BTG, das empresas de pagamento — isso é a mesma lógica?
Parcialmente. O BTG travou as contas por precaução. As empresas de pagamento como Getnet estão retendo dinheiro porque temem que os consumidores façam chargebacks — cancelem compras por medo da recuperação. Elas estão se protegendo contra um risco que elas mesmas criaram em suas cabeças.
Qual é o perigo real aqui para a Casas Bahia?
O perigo é que se o caixa desaparecer antes do plano de recuperação ser aprovado, não há recuperação possível. A empresa precisa de dinheiro para operar, para pagar fornecedores, para manter as lojas abertas. Se R$ 422 milhões somados a R$ 18 milhões em bloqueios de cartão saem da conta antes que o juiz diga que tudo isso deveria estar protegido, a empresa pode quebrar antes mesmo de ter a chance de se reestruturar.
O stay period resolveria isso?
Sim. O stay period é uma proteção de 180 dias que suspende todas essas ações — execuções, penhoras, bloqueios. Mas o juiz ainda não concedeu isso. Ele concedeu apenas uma tutela de urgência menor. Se a perícia que o juiz vai fazer levar 30 dias, e a empresa continuar sangrando caixa nesse tempo, pode não haver empresa para reestruturar.
E os fornecedores? Eles vão continuar mandando produtos?
Provavelmente não. Quando um fornecedor como a Apple vê que o caixa está sendo disputado por bancos e credores, ele fica assustado. A tendência é reduzir o crédito, exigir pagamento à vista. Isso piora tudo — sem produtos, a loja não vende, sem vendas, não há caixa. É um círculo vicioso.
Quantas pessoas estão envolvidas nessa disputa?
Milhares. A Casas Bahia tem 29 mil reclamações trabalhistas em andamento. Há fornecedores, bancos, empresas de pagamento, consumidores que podem fazer chargebacks. Todos estão tentando proteger seu próprio interesse. Mas se todos fizerem isso ao mesmo tempo, a empresa inteira desaparece.
The Pulse
- Banco do Brasil debitou R$ 422 milhões das contas da Casas Bahia em 21 de agosto para se reembolsar de garantias honradas
- Getnet, Cielo e Redecard retêm R$ 18 milhões em recebíveis de cartão; Getnet sozinha retém R$ 14 milhões
- Casas Bahia tem 29 mil reclamações trabalhistas em andamento com exposição de R$ 1,4 bilhão em contingências prováveis
- Empresa projeta aumento de 70% em demandas trabalhistas nos próximos meses
- Dívida total declarada na recuperação judicial: R$ 17,3 bilhões
BB debitou R$ 422 mi da conta da Casas Bahia para se reembolsar após honrar garantias contratuais acionadas por fornecedores Apple e Mapfre Seguros. Empresa também enfrenta bloqueios de R$ 18 mi em recebíveis de cartão por Getnet, Cielo e Redecard, além de travamento de contas pelo BTG Pactual.
Casas Bahia pede à Justiça que Banco do Brasil devolva R$ 422 milhões debitados unilateralmente após acionamento de garantias por fornecedores Apple e Mapfre, em meio a recuperação judicial com dívida de R$ 17,3 bilhões.
Na segunda-feira, 24 de agosto, a Casas Bahia entrou com uma petição na Justiça de São Paulo pedindo que o Banco do Brasil devolvesse R$ 422 milhões debitados unilateralmente de suas contas. O banco havia atuado como fiador em garantias que a varejista havia contratado com dois fornecedores: a Apple e a Mapfre Seguros. Quando esses fornecedores acionaram as garantias após a empresa protocolar seu pedido de recuperação judicial, o BB honrou os pagamentos e depois se reembolsou debitando o valor diretamente das contas da Casas Bahia, na última sexta-feira.
A Casas Bahia contesta essa retenção argumentando que o banco deveria ter seguido as regras do processo de recuperação judicial em vez de agir por conta própria. Segundo a empresa, o crédito do BB deveria estar sujeito às mesmas regras que todos os outros credores enfrentam nesse tipo de processo. A varejista entrou com o pedido de recuperação em 16 de agosto, declarando uma dívida total de R$ 17,3 bilhões. Na visão da companhia, o que o banco fez viola o princípio fundamental de que todos os credores devem ser tratados com paridade. Os advogados da Casas Bahia sustentam que o BB deveria ter apresentado questionamentos judiciais sobre os valores a que tem direito, em vez de simplesmente tomar o dinheiro de volta.
Mas o problema vai muito além do Banco do Brasil. A petição apresentada à 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo lista uma série de bloqueios e retenções que estão drenando o caixa da empresa. O BTG Pactual travou movimentações e consultas de saldo nas contas bancárias. As empresas de pagamento Cielo, Getnet e Redecard retiveram recebíveis de cartão — um mecanismo vital para o fluxo de caixa de qualquer varejista. De acordo com os cálculos da Casas Bahia, esses bloqueios ultrapassam R$ 18 milhões, com a Getnet retendo sozinha pelo menos R$ 14 milhões. A justificativa delas é se proteger contra possíveis chargebacks, aqueles cancelamentos de compra que os consumidores solicitam diretamente ao banco emissor do cartão. Nos últimos seis dias, cerca de R$ 9 milhões adicionais foram bloqueados em causas relacionadas ao pagamento de créditos.
O timing dessa sangria de recursos é crítico. Para empresas em recuperação judicial, a disputa pelo caixa nos primeiros dias após o protocolo do pedido é comum e pode determinar se há um caminho possível de reestruturação. Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores e especialista em varejo, explica que o processo inteiro é construído sobre uma premissa de geração de caixa. A empresa projeta quanto conseguirá gerar, quanto precisa para financiar a operação e, a partir daí, quanto poderá destinar aos credores. Se uma parte relevante desse caixa desaparece antes que o plano seja estruturado, o panorama inteiro muda. A Casas Bahia pode precisar de mais financiamento, vender ativos, cortar ainda mais custos, fechar outras lojas ou renegociar novamente com fornecedores. Você sangra a empresa antes mesmo do início da recuperação.
Há também a questão do abastecimento. Um dos principais riscos para a operação agora é manter o fluxo de produtos de alto giro e desejo, como os da Apple. Quando um fornecedor vê que o caixa está sendo disputado por bancos e outros credores, naturalmente aumenta sua percepção de risco. A tendência é reduzir limite de crédito e exigir pagamento à vista e antecipado. Isso pode criar um círculo vicioso em que a falta de confiança dos fornecedores piora ainda mais a situação de caixa.
A Casas Bahia pediu que os efeitos do chamado stay period fossem antecipados — uma proteção que normalmente dura 180 dias e suspende execuções de dívidas, penhoras e bloqueios enquanto a recuperação judicial não é aceita em definitivo pelo juiz. Em 19 de agosto, a juíza Tainá Maria Leonardo de Oliveira concedeu uma tutela de urgência que proibiu o registro de declarações de vencimento antecipado apenas em razão do pedido de recuperação, mas a empresa argumenta que isso não é suficiente. A tutela visa apenas manter as lojas em funcionamento, sem a proteção completa do stay period. Em recuperações com muitos credores e dívidas, juízes costumam determinar perícia antes de decidir sobre o pedido, uma etapa que pode levar 30 dias. Se a Justiça demorar um pouco mais, a empresa pode quebrar antes mesmo da aprovação do plano de recuperação.
A situação trabalhista adiciona outra camada de pressão. A Casas Bahia contabiliza 29 mil reclamações trabalhistas em andamento e uma exposição de R$ 1,4 bilhão em contingências prováveis, além de mais de R$ 2,8 bilhões em pagamentos possíveis. A empresa estima um aumento de até 70% no volume de novas demandas nos próximos meses. Credores trabalhistas já estão protocolando pedidos urgentes para obter pagamentos. Se essas ações não forem suspensas de imediato, a empresa afirma que os efeitos serão catastróficos.
Para especialistas como Ronaldo Vasconcelos, advogado e professor do Mackenzie, há uma longa discussão judicial à frente sobre se os débitos são concursais — aqueles feitos na data do pedido de recuperação — ou extraconcursais, tudo o que é devido depois do pedido. O juiz costuma pedir para devolver o dinheiro ou colocá-lo nos autos do processo até definir essa questão, e isso será discutido durante todo o processo. A Casas Bahia está em uma corrida contra o tempo para estancar a saída de recursos enquanto tenta estruturar um plano que permita sua reestruturação.
Notable Quotes
Se parte relevante desse caixa desaparece antes que o plano seja estruturado, muda o panorama inteiro. A Casas Bahia pode precisar de mais financiamento, vender ativos, cortar ainda mais custos, fechar outras lojas ou renegociar novamente com fornecedores.— Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores e especialista em varejo
Se a Justiça demorar um pouco mais, a empresa pode quebrar antes mesmo da aprovação do plano de recuperação— Ana Paula Tozzi