Carla Madeira transforma luto em criação no romance 'Quando', que enfrenta homofobia

O romance aborda violência homofóbica brutal cometida por adolescente contra menino afeminado, resultando em prisão e trauma geracional; personagem idoso também sofre agressão por moleques do bairro.
Todo corpo perturbado quer produzir sentido
Madeira reflete sobre como o luto se transformou em processo criativo para seu novo romance.
Mark

Como você transforma anos de luto em um livro que não é apenas sobre tristeza, mas sobre violência, culpa, espera?

Mimi

O luto não é um tema. É uma condição. Quando você está dentro dele, tudo que você escreve passa por aquele filtro. Mas eu não queria fazer um livro sobre minha dor. Queria fazer um livro sobre como a dor se move através das pessoas, das gerações.

Mark

Você passou meses apenas ouvindo antes de escrever. Por quê?

Mimi

Porque as vozes já estavam lá. Eu precisava ouvi-las de verdade. Não inventadas. A voz de um menino que sabe que algo está errado em sua família mas não tem palavras para isso—aquilo era real. Eu precisava daquele som.

Mark

Viridiana espera 20 anos pelo filho. Você sabia desde o início que seria Homero?

Mimi

Não. Descobri depois. Mas a espera já estava ali, aquela coisa de tecer e desmanchar, de não poder seguir em frente. Quando li Homero de novo, vi que ele já estava no livro.

Mark

A violência homofóbica é brutal no romance. Por que não suavizar?

Mimi

Porque suavizar seria mentir. A violência é real. Mas o que me interessava era entender por que ela acontece, como ela se reproduz. Não é sobre condenar o menino que comete o ato. É sobre a engrenagem que o faz cometer.

Mark

Sua filha Ana se relaciona com mulheres. Isso mudou como você escreve sobre homoafetividade?

Mimi

Completamente. Antes era algo que eu observava de fora. Agora é algo que eu vivo, que eu amo. Mas também é algo que me assusta, porque sei da violência que pode vir. O romance traz as duas coisas: a ternura e o medo.

Mark

Você diz que ninguém quer essa violência, mas ela continua acontecendo. O livro responde por quê?

Mimi

Não responde. Pergunta. Porque eu também não sei. Mas acho que tem a ver com o que não foi aprendido, com o que as pessoas carregam sem saber que carregam.

  • Enquanto vendia mais de um milhão de livros, Madeira perdia, em sequência, as pessoas mais próximas — e o silêncio criativo ameaçava engoli-la.
  • O romance 'Quando' nasceu de um impulso caótico: ela chegou de uma visita à sócia em quimioterapia e simplesmente começou a escrever, sem plano, sem equilíbrio.
  • No centro da trama, uma mãe espera há 20 anos o retorno do filho que ela própria entregou à polícia após um ato brutal de violência homofóbica — e o tempo da espera ecoa a Penélope de Homero.
  • A violência no livro não poupa ninguém: um vizinho idoso que veste as roupas da esposa morta é agredido por moleques, e duas meninas que se amam vivem sob a sombra constante do patriarcalismo.
  • Madeira transforma a pergunta política em pergunta filosófica: se ninguém quer o preconceito, por que ele persiste — e o romance recusa oferecer respostas fáceis, preferindo multiplicar as vozes.

No ápice de sua fama literária, a escritora mineira Carla Madeira se viu mergulhada em perdas consecutivas — a mãe, o psicanalista, uma sócia querida — e foi desse caos que nasceu 'Quando', seu romance mais ousado. O livro polifônico investiga como a violência homofóbica e o preconceito de gênero se perpetuam entre gerações, mesmo quando ninguém, individualmente, os deseja. É uma obra que nasce do luto e pergunta, com urgência e ternura, por que a sociedade continua a destruir aquilo que diz não querer destruir.

Carla Madeira havia se tornado a ficcionista mais vendida do Brasil em 2023, com mais de 1,4 milhão de exemplares em circulação. Mas enquanto seu nome subia nas listas, sua vida pessoal desmoronava: perdeu a mãe, o psicanalista e Simone Moreira, sócia e amiga, morta por câncer no pâncreas. Foram anos de perturbação profunda. Em Madeira, em vez de silêncio, provocaram um processo criativo caótico e urgente.

Foi voltando de uma visita à Simone durante a quimioterapia que ela abriu o computador e começou a escrever. Desse impulso nasceu 'Quando', seu quarto romance e o mais experimental até agora. Polifônico, com vozes que saltam entre personagens e tempos sem aviso, o livro foi construído a partir de meses de escuta ativa: rádio-patrulha, rodas de crianças, a voz angustiada de um menino que sente que algo está errado mas não tem palavras para nomear.

No coração do romance está Viridiana, mãe à beira da morte que aguarda o retorno do filho Tito há duas décadas. Na adolescência, ele cometeu um ato brutal de violência homofóbica contra um menino afeminado. A própria mãe o denunciou. Preso, Tito sofreu a brutalidade dos outros detentos e se afastou da família. Madeira encontrou a medida dessa espera ao reler a 'Odisseia': como Penélope, Viridiana tece e desfaz o tempo enquanto aguarda.

A violência no livro tem raiz profunda. Um vizinho idoso, seu Barros, começa a vestir as roupas da esposa morta para sentir menos saudade — e é agredido por moleques numa ida ao mercado. A homoafetividade aparece com delicadeza em uma relação entre duas meninas do passado familiar, inspirada, confessa Madeira, pelo convívio com a filha Ana e suas amigas. 'Como mãe, sinto um certo temor da violência que pode vir com isso', diz ela.

Madeira não oferece respostas, mas insiste na pergunta: se ninguém, individualmente, quer o preconceito e a brutalidade, por que eles persistem coletivamente? O romance termina onde começou — no caos do luto, mas também na teimosia da felicidade, essa intrusa que insiste em aparecer entre as perdas.

Carla Madeira estava no topo. A mineira de 61 anos havia se tornado a ficcionista mais vendida do Brasil em 2023, com 1,4 milhão de exemplares circulando pela editora Record. Seu romance "Tudo É Rio" sozinho havia movido 784 mil cópias. Mas enquanto seu nome subia nas listas, sua vida pessoal descia em espiral. Perdeu a mãe. Perdeu seu psicanalista. Perdeu Simone Moreira, sua sócia na agência de publicidade que haviam aberto juntas, morta por câncer no pâncreas três anos antes. Foram anos de perturbação profunda, o tipo que paralisa ou silencia. Em Madeira, provocaram algo diferente: um novo processo criativo que ela decidiu enfrentar de frente.

Foi voltando de uma visita à Simone durante a quimioterapia que tudo começou. Madeira chegou em casa, abriu o computador e começou a escrever. "Cheguei em casa no meio daquela loucura toda", conta em entrevista de sua casa em Belo Horizonte. "E o processo foi assim, por muito tempo, muito caótico." Esse caos se transformou em "Quando", seu quarto romance, publicado agora após anos de silêncio criativo. "Todo corpo perturbado quer produzir sentido", diz ela. "O processo de encontro com a linguagem é um mecanismo de retomar uma certa regularidade, certo equilíbrio."

O livro é seu mais experimental até agora. Polifônico, como ela o descreve. As vozes saltam entre personagens, entre tempos, entre perspectivas. Uma narração começa na boca de uma personagem e termina na de outra. Os capítulos fluem do presente ao passado sem aviso. Para construir essa multiplicidade, Madeira passou meses apenas ouvindo. Escutava rádio-patrulha para captar a embocadura policial. Montou rodas de crianças para observar como se comunicavam. Um dos primeiros sons que germinaram o romance foi a voz angustiada de um menino que sabia que algo estava errado em sua família, mas não tinha palavras para decodificar aquilo.

No coração do livro está Viridiana, uma mãe à beira da morte que aguarda o retorno do filho Tito. Ela tem certeza de que não lhe resta muito tempo, mas acredita que o reencontro mudaria o sentido de tudo o que viveu. Quando ele voltar, diz ela, "sua vida terá sido outra, porque há momentos capazes de mudar o que foi vivido". Mas Tito não está simplesmente longe. Na adolescência, cometeu um ato brutal de violência homofóbica contra um menino afeminado. A mãe o denunciou à polícia. Preso, ele experimentou a brutalidade dos outros detentos. Chocado e furioso, se afastou da família. Viridiana passou os 20 anos seguintes esperando.

Madeira descobriu a origem desse período de tempo ao se reaproximar da "Odisseia" de Homero. A espera interminável de Viridiana pelo filho ecoa a de Penélope por Ulisses, que também durou duas décadas. A matriarca vai "tecendo e desmanchando a longa espera", assim como a personagem grega com seus tecidos. Mas o romance não é apenas sobre perda pessoal. Madeira quer examinar como a engrenagem da violência se reproduz através das gerações, como o preconceito e a brutalidade se perpetuam apesar de ninguém querer isso individualmente. "Coletivamente, estamos numa coisa muito destrutiva no nível do preconceito, do racismo, da violência de gênero, do clima, das guerras", diz ela. "Individualmente, a gente está querendo outras coisas. Se ninguém quer, por que tantos brigam?"

Viridiana confessa sua culpa ancestral a seu Barros, um vizinho idoso. Em uma das passagens mais tocantes do romance, Barros revela que começou a vestir as roupas da esposa morta para sentir menos saudade dela. Isso não o protegeu: foi agredido por moleques do bairro numa ida ao mercado. A violência que permeia o livro tem raiz profunda, diz Madeira. Tem a ver com o quanto "a nossa sociedade não admite que o feminino se misture, se borre, que as coisas deixem de ser ou do homem ou da mulher". Viridiana pergunta a Barros por que os rapazes sentem tanta raiva, por que se sentem tão agredidos. "Não sei ao certo", responde ele, "mas alguma coisa eles não aprenderam".

A homoafetividade também aparece no romance com esmero e delicadeza, em uma relação entre duas meninas do passado familiar. Madeira diz que isso vem de uma questão íntima sua: o carinho por sua filha Ana, que se relaciona com mulheres. "Nos últimos anos, conviver mais com isso, com as amigas, com a namorada dela trouxe para mim [a lesbianidade] de uma maneira muito mais bonita, mais comovente, mais explícita. E também, como mãe, um certo temor da violência que pode vir com isso." No romance, a homossexualidade traz consigo um perigo constante, fruto de patriarcalismo intransigente. Mas aparece também na ternura de garotas que se apaixonam entre canções e melodias, com os dedos na viola, contemplando a lua cheia.

Madeira um dia se aventurou como cantora, coisa de juventude, diz ela, meio tímida. De vez em quando ainda se arrisca, flagrada em vídeos nas redes sociais com violão na mão. Se o processo de escrever "Quando" se alimentou da confusão do luto, também se nutriu de lembranças afetivas como essa, com o vinil riscando uma vida de acordes simples. A tragédia daquilo que foi perdido parece sempre engolir tudo. Mas Madeira se mostra atenta à felicidade—essa intrusa que insiste em aparecer.

Cheguei em casa no meio daquela loucura toda, abri o computador e comecei o que seriam as primeiras palavras do livro novo. E o processo foi assim, por muito tempo, muito caótico.
— Carla Madeira, sobre como começou a escrever "Quando"
Coletivamente, estamos numa coisa muito destrutiva no nível do preconceito, do racismo, da violência de gênero, do clima, das guerras. Individualmente, a gente está querendo outras coisas. Se ninguém quer, por que tantos brigam?
— Carla Madeira, sobre o paradoxo da violência coletiva
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