Caos em SP expõe despreparo contra temporais que tendem a se intensificar

Moradores ficaram sem energia, elevadores e acesso a residências; idosa de 96 anos não pôde sair de casa; famílias com bebês precisaram se deslocar para casas de parentes.
A cidade precisa de um plano que seja preventivo, não emergencial
Especialista aponta que São Paulo carece de estratégia integrada de manejo de árvores.
Mark

Por que as árvores caem tanto em São Paulo? Parece que deveria ser um problema resolvido.

Mimi

Porque a cidade não tem um plano integrado de manejo. As árvores são podadas de forma inadequada, especialmente pelas empresas de energia que cortam os galhos do meio para passar fiação. As raízes ficam estranguladas por cimento. Ninguém cuida da saúde delas de forma preventiva.

Luke

Mas a prefeitura disse que podou 112 mil árvores desde janeiro. Isso não é alguma coisa?

Mimi

É alguma coisa, sim. Mas é reativo, não preventivo. Um levantamento encontrou 531 árvores em condições precárias só em Perdizes. Se você está podando 112 mil mas não tem um departamento dedicado à saúde das árvores, você está apagando incêndios.

Mark

E quanto às enchentes? Também é falta de planejamento?

Mimi

Também. A prefeitura investiu 8,4 bilhões em drenagem desde 2021, tem 420 jardins de chuva. Mas os especialistas dizem que faltam bacias de retenção espalhadas pela cidade, armazenamento de água em locais apropriados.

Luke

Espera. Oito bilhões e meio é muito dinheiro. Como ainda falta planejamento?

Mimi

Porque dinheiro não é a mesma coisa que estratégia integrada. Você pode gastar muito em obras emergenciais e ainda não ter um plano que previna o problema.

Mark

E os cientistas dizem que vai piorar?

Mimi

Sim. A transição do inverno para a primavera, que é agora, favorece a formação de tempestades. Com mudanças climáticas, esses eventos extremos devem ficar mais frequentes.

Luke

Mas ninguém sabe exatamente por quê o vento tem sido tão determinante nos últimos três anos?

Mimi

Não. Ainda não há uma explicação específica para a repetição com tanta frequência. É um padrão que os cientistas estão observando mas ainda não entendem completamente.

Mark

Então São Paulo vai enfrentar isso novamente sem estar pronta?

Mimi

Sim. A menos que mude alguma coisa nos próximos meses.

  • Em poucas horas, 83 chamadas ao Corpo de Bombeiros por quedas de árvores revelaram que o problema não era a chuva, mas décadas de abandono na gestão da arborização urbana.
  • Moradores sem energia, idosa de 96 anos presa em casa, famílias com bebês desalojadas e quinze árvores derrubadas em noventa segundos — o temporal transformou bairros nobres em cenários de colapso.
  • Pesquisadores identificaram podas mutilantes feitas por empresas de energia como causa central das quedas, criando desequilíbrios estruturais que deixam as árvores prontas para ceder ao primeiro vendaval.
  • A prefeitura cita R$ 8,4 bilhões investidos em drenagem e 420 jardins de chuva, mas especialistas alertam que faltam planos preventivos integrados — o que existe ainda é resposta, não antecipação.
  • Cientistas climáticos são diretos: eventos extremos com chuvas intensas e ventos fortes devem se repetir com crescente frequência, e São Paulo, por ora, não está preparada para recebê-los.

São Paulo, uma das maiores metrópoles do mundo, revelou na última semana uma vulnerabilidade antiga diante de um temporal que derrubou árvores, cortou energia e deslocou famílias inteiras. O que a tempestade expôs não foi apenas o poder da natureza, mas a fragilidade de uma cidade que cresceu sem políticas integradas de manejo arbóreo e drenagem. Com as mudanças climáticas intensificando eventos extremos na transição das estações, o que hoje parece excepcional ameaça tornar-se rotina — e São Paulo ainda não encontrou o caminho entre a emergência e a prevenção.

Na segunda-feira passada, 83 chamadas ao Corpo de Bombeiros por quedas de árvores em poucas horas deixaram claro que o temporal que varreu São Paulo não era apenas uma tempestade ruim. Era o retrato de uma cidade desarmada diante de um problema que tende a piorar.

Na Rua Tefé, no Pacaembu, duas árvores caíram sobre a fiação logo no início do vendaval. Vanessa Matarazzo, que mora ali desde os 6 anos, ficou sem energia até o início da noite seguinte e não conseguiu trabalhar. O que a frustrou foi saber que moradores já haviam pedido a poda daquelas mesmas árvores. Em Perdizes, o presidente da associação de moradores subiu onze andares a pé; sua vizinha de 96 anos não conseguiu sair de casa. Em Higienópolis, quinze árvores de um quintal caíram em um minuto e meio, e oitocentas telhas foram arrancadas do telhado.

O botânico Ricardo Cardim é direto: São Paulo não tem um departamento dedicado à saúde das árvores. As existentes acumulam raízes estranguladas por cimento, infestações de cupins e podas mutilantes — especialmente as feitas em V pelas empresas de energia, que cortam galhos centrais para a passagem de fiação e criam desequilíbrios estruturais fatais. Uma pesquisa de 2024 analisou 456 quedas com auxílio de inteligência artificial e confirmou essas podas como causa principal. Um levantamento em Perdizes encontrou 531 árvores em condições precárias em apenas um bairro.

O professor Giuliano Locosselli, da USP, defende um plano integrado e preventivo de manejo — não emergencial. Um projeto piloto com sensores em cem árvores está em andamento, mas ainda é futuro. A prefeitura cita 420 jardins de chuva, R$ 8,4 bilhões investidos em drenagem desde 2021 e mais de 112 mil árvores podadas neste ano. Especialistas, porém, alertam que faltam soluções mais amplas, como bacias de retenção sob praças e armazenamento estratégico de água.

O que torna tudo mais urgente é o que os cientistas climáticos apontam: eventos extremos com chuvas intensas e ventos fortes devem se repetir com maior frequência na transição das estações, agravados pelas mudanças climáticas. Nos últimos três anos, o vento foi mais determinante na destruição do que o volume de chuva. São Paulo vai enfrentar isso de novo — e ainda não está pronta.

Na segunda-feira passada, o Corpo de Bombeiros de São Paulo registrou 83 chamadas para quedas de árvores na capital em poucas horas. Não foi um número isolado. O temporal que varreu a cidade deixou ruas inteiras interditadas, casas sem energia, edifícios sem elevadores, e famílias inteiras deslocadas para casas de parentes. O que os especialistas veem nesse caos não é apenas uma tempestade ruim, mas a exposição de uma cidade profundamente desarmada diante de um problema que tende a piorar.

Na Rua Tefé, no Pacaembu, duas árvores caíram sobre a fiação logo no início do vendaval. Vanessa Cristina Matarazzo, produtora de eventos de 53 anos que vive ali desde os 6 anos, ficou sem energia até o início da noite seguinte. A rua inteira foi interditada. Ela não conseguiu trabalhar. Vizinhos com bebês e crianças saíram de casa. O que a deixou particularmente frustrada foi simples: moradores já haviam pedido podas naquelas mesmas árvores que caíram. A poucos quilômetros dali, em Perdizes, Antonio Castelo Branco, presidente da Associação de Moradores, precisou subir onze andares a pé porque o elevador não funcionava. Sua vizinha de porta, com 96 anos, não conseguiu sair de casa. Em Higienópolis, Ricardo Gonschior viu quinze árvores do seu quintal caírem em um minuto e meio de chuva. Não sobrou nenhuma. Oitocentas telhas foram arrancadas do telhado.

O problema, segundo os especialistas, não é a chuva em si. É que São Paulo não tem uma política de manejo de árvores adequada. Ricardo Cardim, botânico e paisagista que trabalhou em projetos de reflorestamento na cidade, é direto: a prefeitura não tem um departamento próprio dedicado exclusivamente à saúde das árvores. As que existem estão abandonadas, com raízes estranguladas por cimento, infestadas de cupins, podadas de forma mutiladora. Uma pesquisa publicada em 2024 na revista Urban Forestry & Urban Greening analisou dados da prefeitura sobre 456 árvores que caíram entre 2016 e 2018. Com ajuda de inteligência artificial, os pesquisadores identificaram as principais causas: podas inadequadas, especialmente as feitas por empresas de energia. Essas empresas fazem o que chamam de podas em V, cortando os galhos do meio da árvore para a passagem de fiação. O resultado é um desequilíbrio estrutural que deixa a árvore vulnerável.

Giuliano Locosselli, professor da USP e um dos autores do estudo, é claro sobre o que falta: a cidade precisa de um plano integrado de manejo da arborização que seja preventivo, não emergencial. Ele coordena um projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, em parceria com a secretaria municipal do verde, que monitora cem árvores da cidade com sensores para ajudar na elaboração de um plano mais eficiente. Mas isso ainda é piloto, ainda é futuro. Um levantamento feito pela Associação de Moradores de Perdizes no primeiro semestre deste ano encontrou 531 árvores em condições precárias apenas naquele bairro: 261 estranguladas por fiações, 63 doentes ou mortas, 16 em risco de tombamento.

A prefeitura de São Paulo respondeu que possui uma secretaria dedicada às mudanças climáticas e dois planos específicos para o tema. Disse que existem 420 jardins de chuva na cidade, com mais cem previstos. Desde 2021, foram aplicados 8,4 bilhões de reais em obras, serviços, manutenções e intervenções no sistema de drenagem — um aumento de 111% em relação ao período de 2013 a 2020. Cento e vinte e duas equipes podaram mais de 112 mil árvores desde janeiro. A Enel São Paulo, por sua vez, informou que investiu na manutenção da rede, na poda de árvores e no desenvolvimento de sistemas de automação e telecontrole. Contratou mais 1.200 eletricistas e reforçou o centro de controle e treinamento. Mas Antonio Giansante, engenheiro civil e professor da Universidade Mackenzie, aponta que as soluções precisam ir além. Não basta apenas lidar com árvores. As enchentes são outro fator que demanda inovação: bacias de retenção espalhadas embaixo de praças, armazenamento de água em locais apropriados como os lagos do Parque da Aclimação ou do Ibirapuera.

O que torna tudo isso mais urgente é o que os cientistas climáticos estão dizendo. Glauber Ferreira, do Instituto Nacional de Meteorologia, explica que chuvas a partir de setembro ou outubro sempre foram normais no Sudeste. Mas eventos extremos são outra questão. Em um cenário de mudanças climáticas, esse tipo de evento tende a ficar mais frequente. Caroline Vidal, meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, frisa que a mudança climática afeta o clima brasileiro o ano todo, mas a transição do inverno para a primavera — justamente agora — merece mais atenção. O aumento de umidade e a elevação de temperaturas nessa transição favorecem um padrão que contribui para a formação dessas tempestades. Nos últimos três anos, o vento teve um papel mais determinante na perda de patrimônio do que o volume de chuva em si. Ainda não há uma explicação específica para a repetição do fenômeno com tanta frequência. O que está claro é que São Paulo vai enfrentar isso novamente, e novamente, e novamente — e a cidade ainda não está pronta.

Precisamos urgentemente de um departamento próprio da prefeitura dedicado exclusivamente a cuidar da saúde das árvores
— Ricardo Cardim, botânico e paisagista
A cidade precisa de um plano integrado de manejo da arborização. Um plano que seja preventivo, e não emergencial
— Giuliano Locosselli, professor da USP
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