Candidatos encerram propaganda com ataques e disputa pelo voto feminino

Com quem está com 40%, você pode ganhar muito pouco e perder muito
Cientista político explica por que candidatos líderes evitaram debates televisivos no primeiro turno.
Mark

Por que as mulheres foram tão centrais nessa reta final de campanha?

Mimi

Porque elas representam 52,4% dos chefes de família agora, e estão mais indecisos que os homens — 26% contra 14%. Quando você tem um bloco de eleitores grande e indeciso, todos os candidatos vão mirar ali.

Luke

Mas isso é uma escolha dos candidatos ou um reflexo real de que as mulheres se importam mais com esses temas?

Mimi

Provavelmente os dois. Segurança, saúde, emprego — são pautas que afetam as mulheres de forma específica. Mas também é verdade que os candidatos escolheram focar ali porque sabem que há votos a ganhar.

Mark

E quanto à ausência de debates? Isso muda alguma coisa?

Mimi

Muda bastante. Menos confronto direto significa que cada candidato controla sua narrativa. Lula atacou Flávio na TV, mas Flávio não precisou responder em tempo real.

Luke

Mas a gente sabe que Flávio respondeu, só que em outro formato — nas lives, no YouTube, na "TV Celular". Então talvez o debate tenha se descentralizado, não desaparecido.

Mark

Então a campanha virou mais digital mesmo?

Mimi

Sim. QR codes nos programas de TV levando para entrevistas no Flow, lives no YouTube, aplicativos de segurança. A TV aberta é só um dos lugares onde a campanha acontece.

Luke

Mas a gente não tem dados sobre alcance dessas plataformas digitais. Sabemos que Flávio fez uma "TV Celular", mas quantas pessoas realmente assistem?

Mimi

Boa pergunta. O que sabemos é que os candidatos estão apostando nessas plataformas porque acreditam que funcionam. Mas você está certo — falta transparência sobre o tamanho real desse alcance.

Mark

E o voto feminino? Vai decidir a eleição?

Mimi

Pode decidir. Se 26% das mulheres ainda estão indecisos, e elas são mais da metade dos chefes de família, quem ganhar esse voto tem uma vantagem real.

Luke

Mas também é importante notar que não há mulheres competitivas nas chapas presidencial e para o governo de São Paulo. Então essa disputa pelo voto feminino acontece sem mulheres liderando as campanhas.

  • Lula e Flávio Bolsonaro protagonizaram ataques cruzados no encerramento da propaganda do primeiro turno
  • 26% das mulheres ainda estão indecisos, contra 14% dos homens, segundo Datafolha
  • Mulheres representam 52,4% dos chefes de família no Brasil
  • Menor número de debates televisivos desde 1998 — nenhum debate no primeiro turno deste ano
  • Campanhas migraram para plataformas digitais com QR codes, lives e emissoras de YouTube

Lula atacou Flávio Bolsonaro associando-o à violência do governo anterior; Flávio criticou custo de vida e endividamento, tentando aflorar sentimentos antipetistas. Mulheres foram alvo central das campanhas em segurança, saúde e emprego; 26% das mulheres ainda estão indecisos, contra 14% dos homens, segundo Datafolha.

Candidatos à Presidência e Governo de São Paulo encerraram propaganda eleitoral do primeiro turno com ataques mútuos, promessas de segurança e disputa pelo eleitorado feminino, que representa 52,4% dos chefes de família.

Na quinta-feira que encerrou o primeiro turno de propaganda eleitoral televisiva, os candidatos à Presidência e ao Governo de São Paulo deixaram claro o que os move: o medo do crime, a promessa de proteger as mulheres, e a disposição de atacar o adversário sem trégua. Os programas que ocuparam o horário gratuito foram palco de acusações cruzadas, apelos ao eleitor endividado e uma disputa feroz pelo voto feminino — um eleitorado que representa 52,4% dos chefes de família no Brasil e que, segundo pesquisas, ainda está mais indeciso que os homens.

A campanha de Lula, candidato à reeleição, inverteu o script tradicional ao fazer do ataque seu eixo central de propaganda. Bordões como "Flávio, o pior dos Bolsonaros" e "falar é Flávio, fazer é Lula" se repetiram ao longo do horário eleitoral. As peças associaram o senador ao governo de seu pai, afirmando que a família Bolsonaro deixou o país mais violento e colocou mais de 1 milhão de armas nas ruas. Na reta final, a campanha reuniu trechos de telejornais sobre acusações contra Flávio, incluindo o caso "Dark Horse", no qual ele é apontado como interlocutor do ex-banqueiro Daniel Vorcaro na busca de recursos para um filme sobre Jair Bolsonaro, supostas ligações com milícias do Rio e acusações de participação em orgias. A peça terminava com o locutor dizendo "Bolsonaros, nunca mais".

Flávio respondeu combinando críticas ao governo Lula com a tentativa de se apresentar como alvo de uma ofensiva petista. Disse que a propaganda adversária fazia baixarias e editava suas falas, e que o eleitor não veria esse tipo de conteúdo da parte dele. Suas críticas se concentraram no custo de vida e no endividamento — temas que o professor Camilo Aggio, da Universidade Federal de Minas Gerais, considera centrais na eleição. Flávio também tentou aflorar sentimentos antipetistas e mirar os apoiadores de Ronaldo Caiado e Augusto Cury.

Na disputa pelo Governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas, candidato à reeleição com possibilidade de vencer em primeiro turno, não mencionou o adversário nem as privatizações da Sabesp e da CPTM. Suas peças, com mais do que o dobro do tempo das de Fernando Haddad, apresentaram programas do governo para cada fase da vida, do nascimento à velhice. Destacou ações para mães de crianças atípicas, como os Centros TEA, para jovens, como o Provão Paulista, para idosos e mulheres. Contou que foi cuidado pela esposa quando teve câncer e exibiu o aplicativo SP Mulher Segura, usado para registrar ocorrências e acionar a polícia. Haddad, que enfrenta rejeição de 48% do eleitorado paulista segundo o Datafolha, encerrou programas pedindo que o eleitor deixe de lado as "paixões políticas" e lhe dê uma chance. Outras peças listaram políticas federais associadas a ele, como o Prouni e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.

O olhar central sobre o eleitorado feminino foi um denominador comum nas campanhas. Quando o assunto era segurança, Haddad usava a figura de uma mulher voltando para casa à noite. Quando era renda e carga tributária, Flávio Bolsonaro ilustrava com uma dramatização de uma mãe e sua filha no mercado. Quando a pauta era capacitação profissional, Tarcísio trazia exemplos reais de mulheres, da manicure à soldadora. Ambos, Flávio e Tarcísio, trouxeram suas esposas para a TV. A figura da mulher negra também povoou o horário eleitoral — apresentadoras dos programas de Lula, Flávio, Caiado, Haddad e Tarcísio eram negras, em uma eleição sem chapas com mulheres competitivas para a Presidência e para o Governo de São Paulo. Para cargos no Legislativo, o PL de São Paulo também colocou o holofote sobre candidaturas femininas, com dias em que apenas mulheres foram anunciadas.

Os dados revelam por que essa disputa importa: 26% das mulheres ainda não decidiram em quem votar, contra 14% dos homens — na média, 21% do eleitorado total se diz indeciso. Para o Senado, em especial, as candidaturas competitivas de Marina Silva e Simone Tebet foram tratadas como forasteiras por adversários. A campanha também se deslocou para plataformas digitais. Caiado, por exemplo, exibiu trechos de entrevista ao Flow e encerrou com um QR code que levava ao vídeo completo — estratégia que o professor Camilo Aggio avalia como característica de uma campanha com menos recursos. Cury também colocou um QR code em sua propaganda. Flávio reproduziu a tradição de lives na internet criada pelo seu pai, além de ter criado o que chamou de "TV Celular", uma espécie de emissora digital com programação contínua de 24 horas por dia no YouTube.

A disputa ocorre em meio a uma campanha com o menor número de debates televisivos no primeiro turno desde 1998, quando não houve nenhum confronto entre candidatos na TV. Desde 2002, nenhuma eleição presidencial havia tido menos de três debates no primeiro turno. Para o cientista político Carlos Melo, professor do Insper, a ausência dos líderes segue um cálculo de risco: "Com quem está com 40%, você pode ganhar muito pouco e perder muito". Daniela Costanzo, pesquisadora do Cebrap, relaciona a redução dos debates a campanhas cada vez mais digitais e a um eleitorado mais cristalizado. Caso haja segundo turno, o horário eleitoral gratuito será retomado na próxima sexta e irá até 23 de outubro, desta vez somente com os dois candidatos que permanecem na disputa, cada um recebendo exatamente dez minutos de propaganda para cada cargo.

A propaganda adversária faz baixarias e edita minhas falas, e o eleitor não verá esse tipo de conteúdo da parte dele
— Flávio Bolsonaro, em resposta aos ataques de Lula
Com quem está com 40%, você pode ganhar muito pouco e perder muito
— Carlos Melo, cientista político do Insper, sobre a ausência de debates
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