Cancro do fígado: prioridade de saúde pública que exige prevenção e diagnóstico precoce

Em 2024, registaram-se 1.232 óbitos por cancro do fígado em Portugal (627 por carcinoma hepatocelular e 605 por colangiocarcinoma intra-hepático).
Sessenta por cento dos casos são evitáveis, mas menos de dez por cento fazem vigilância
A lacuna entre o que é possível prevenir e o que realmente se previne em Portugal e no mundo.
Mark

Porque é que o cancro do fígado está a crescer tão rapidamente se temos vacinas e tratamentos?

Mimi

A vacina contra a hepatite B existe, mas nem todos a recebem ou completam o esquema. E há um novo problema: a obesidade e a diabetes estão a criar uma epidemia de doença hepática gorda que ninguém vê vir. Não há sintomas até ser demasiado tarde.

Luke

Mas espera — o artigo diz que 60% dos casos são evitáveis. Isso significa que temos a solução? Ou significa que sabemos o que fazer, mas não o estamos a fazer?

Mimi

Sabemos o que fazer. O problema é que a prevenção é invisível e a doença é silenciosa. As pessoas não sentem nada até o fígado estar destruído.

Mark

E em Portugal, qual é o maior problema?

Mimi

O álcool. Em 2024, foi responsável por mais de 55% das mortes por doença hepática crónica. Mas isso está a mudar — a doença hepática gorda está a crescer mais depressa.

Luke

Quantas pessoas em risco fazem vigilância semestral como recomendado?

Mimi

Menos de 10% a nível mundial. É um fracasso do sistema.

Mark

Então o diagnóstico precoce é possível, mas não está a acontecer?

Mimi

Exatamente. Temos os instrumentos. Falta vontade política e acesso equitativo.

Luke

O artigo menciona que o estigma atrasa o diagnóstico. Como é que isso funciona?

Mimi

As pessoas com doença hepática sentem-se culpadas, como se fosse sua responsabilidade. Adiam a ida ao médico porque têm medo de serem julgadas. Isso mata mais do que a doença em si.

  • A taxa de mortalidade por cancro do fígado em Portugal subiu de forma contínua entre 2017 e 2024, sinalizando uma tendência que não se está a inverter por si mesma.
  • A doença progride sem sintomas durante anos, e quando finalmente se manifesta, as opções curativas estão muitas vezes fora de alcance — o silêncio é a sua arma mais letal.
  • O álcool é a principal causa de cirrose em Portugal, mas a obesidade e a diabetes emergem globalmente como os novos motores do cancro hepático, ligados a dietas desequilibradas e sedentarismo.
  • Menos de 10% dos doentes em risco cumpre a vigilância semestral recomendada, revelando uma falha crítica entre o que a medicina sabe fazer e o que o sistema efectivamente faz.
  • A resposta exige acção em múltiplas frentes: vacinação, rastreio, combate ao estigma, políticas públicas sobre álcool e alimentos ultraprocessados, e diagnóstico precoce nos cuidados primários.

Em 2024, mais de mil portugueses morreram de cancro do fígado — uma doença que avança em silêncio, frequentemente diagnosticada tarde demais para ser curada. A nível mundial, os números crescem há décadas e projectam-se ainda maiores até 2050, alimentados por estilos de vida contemporâneos e por sistemas de saúde que ainda não colocaram esta ameaça no centro das suas prioridades. O paradoxo perturbador é que a ciência estima que pelo menos 60% destes casos seriam evitáveis — o que transforma cada morte numa pergunta colectiva sobre escolhas, políticas e responsabilidades partilhadas.

O cancro do fígado matou mais de mil portugueses em 2024 — 627 por carcinoma hepatocelular e 605 por colangiocarcinoma intra-hepático. A taxa de mortalidade cresceu de forma consistente nos últimos anos, e a trajectória não é encorajadora. No plano global, a situação é ainda mais pesada: cerca de 843 mil novos casos por ano, terceira causa de morte por cancro no mundo, e projecções que apontam para 1,52 milhões de novos casos anuais em 2050.

O que torna esta doença especialmente difícil de combater é o seu silêncio. A doença hepática crónica que a precede desenvolve-se sem sintomas durante longos períodos, e quando o diagnóstico finalmente chega, as opções com intenção curativa estão frequentemente esgotadas. Em Portugal, o álcool é a principal causa de cirrose, responsável por mais de 55% da mortalidade por doenças crónicas do fígado. Globalmente, porém, a doença hepática associada à obesidade e à diabetes tipo 2 é a etiologia de crescimento mais rápido — reflexo directo dos estilos de vida contemporâneos.

A boa notícia, se assim se pode chamar, é que pelo menos 60% dos casos de carcinoma hepatocelular seriam evitáveis. A prevenção passa por hábitos saudáveis, vacinação contra a hepatite B, rastreio e tratamento das hepatites virais, e políticas públicas que regulem o álcool e os alimentos ultraprocessados. Mas exige também combater o estigma: a crença de que a doença é culpa do próprio doente afasta pessoas dos serviços de saúde quando ainda haveria tempo para agir.

O diagnóstico precoce é o factor que mais determina o acesso a tratamentos curativos — ablação, cirurgia ou transplante. Contudo, menos de 10% dos doentes em risco cumpre a vigilância semestral recomendada. Identificar activamente pessoas com cirrose, diabetes, obesidade ou consumo regular de álcool nos cuidados de saúde primários, e garantir acesso equitativo à vigilância em todo o território, são passos que Portugal pode e deve dar. O conhecimento existe. O que falta é a vontade colectiva de o aplicar.

O cancro do fígado matou mais de mil portugueses em 2024. Foram 627 mortes por carcinoma hepatocelular e 605 por colangiocarcinoma intra-hepático — dois tipos distintos de tumores malignos que juntos representam praticamente toda a carga desta doença no país. A taxa de mortalidade subiu de 11,91 para 13,22 óbitos por 100 mil habitantes entre 2017 e 2024, uma trajetória que aponta para uma realidade incómoda: o cancro do fígado está a ganhar terreno em Portugal, e a maioria dos casos poderia ter sido evitada.

A nível mundial, a situação é ainda mais grave. Segundo as estimativas mais recentes da Agência Internacional de Investigação em Cancro, o cancro do fígado é o sétimo mais diagnosticado globalmente e a terceira causa de morte por cancro, com cerca de 843 mil novos casos e 732 mil óbitos registados anualmente. Entre 2000 e 2023, o número absoluto de novos casos aumentou 59,4% e o de mortes 55,8%. Se nada mudar, projeta-se que em 2050 o número de novos casos atinja 1,52 milhões. O carcinoma hepatocelular, que representa cerca de 80% dos casos mundiais, surge habitualmente num fígado já danificado pela cirrose. O colangiocarcinoma intra-hepático corresponde a cerca de 15% dos casos, enquanto os restantes 5% incluem formas combinadas e tumores mais raros.

O que torna esta doença particularmente insidiosa é que evolui frequentemente sem sintomas durante longos períodos. A doença hepática crónica que a precede também se desenvolve em silêncio. Por isso, quando o diagnóstico é feito, numa proporção significativa de casos, as opções terapêuticas com intenção curativa já não são possíveis. O mês de sensibilização para o cancro do fígado serve para recordar uma verdade fundamental: grande parte destes casos é evitável, e o prognóstico depende em larga medida da precocidade da deteção.

Em Portugal, a doença hepática associada ao álcool permanece a primeira causa de cirrose hepática. Em 2024, foi responsável por 505 óbitos, mais de 55% da mortalidade por doenças crónicas do fígado e cirrose. Globalmente, porém, o panorama está a mudar. As infeções crónicas pelos vírus das hepatites B e C mantêm-se como as principais causas de cancro do fígado a nível mundial, mas o seu peso relativo está a diminuir. A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica — caracterizada pela acumulação de gordura no fígado e relacionada com a obesidade e a diabetes tipo 2 — é a etiologia com crescimento mais rápido em diferentes regiões. Este aumento acompanha a prevalência crescente destas condições, ligadas a estilos de vida contemporâneos: sedentarismo e alimentação desequilibrada. O cancro do fígado é duas a três vezes mais frequente nos homens do que nas mulheres na maioria das regiões.

Estima-se que pelo menos 60% dos casos de carcinoma hepatocelular sejam evitáveis através do controlo de fatores de risco modificáveis. A prevenção passa pela promoção de hábitos de vida saudáveis: abstinência ou redução significativa do consumo de álcool, cessação tabágica, controlo do peso, alimentação equilibrada com menor consumo de alimentos ultraprocessados e atividade física regular. A vacinação contra a hepatite B, o rastreio das infeções pelos vírus das hepatites B e C e o tratamento antiviral — curativo na hepatite C — permanecem instrumentos fundamentais. Mas a prevenção exige também combater o estigma associado à doença hepática. A ideia de que a doença é causada pelo próprio doente leva muitas pessoas a adiar a procura de ajuda médica. A responsabilidade não pode recair apenas sobre o indivíduo: políticas públicas sobre o preço, a publicidade e a rotulagem do álcool e dos alimentos ultraprocessados são intervenções com eficácia demonstrada.

O diagnóstico em estádio precoce é o principal determinante do acesso a terapêuticas com intenção curativa, como a ablação tumoral, a resseção cirúrgica ou o transplante hepático. Nos doentes com cirrose e em grupos selecionados com hepatite B crónica, recomenda-se vigilância por ecografia abdominal semestral. Contudo, a nível mundial, apenas cerca de metade dos doentes em risco realiza algum tipo de vigilância, e menos de 10% cumpre com a periodicidade semestral recomendada. A identificação ativa dos doentes com doença hepática crónica nos cuidados de saúde primários — em particular nos indivíduos com diabetes, obesidade ou consumo regular de álcool — e o acesso equitativo à vigilância em todo o território devem ser prioridades.

Não existe uma abordagem terapêutica única aplicável a todos os doentes. A etiologia da doença hepática, a função hepática, o estádio tumoral, as comorbilidades e as preferências do doente devem orientar a decisão terapêutica. A articulação entre diferentes especialidades permite selecionar a estratégia mais adequada a cada doente, entre as opções disponíveis: cirúrgicas, locorregionais e sistémicas. As estratégias de controlo do cancro do fígado devem colocar o doente no centro: informação clara, decisão partilhada, atenção à qualidade de vida, apoio aos cuidadores e equidade no acesso aos cuidados, independentemente da região de residência. O conhecimento e os instrumentos para inverter esta tendência estão ao alcance. Prevenir, diagnosticar precocemente e tratar de forma personalizada são os passos que, em conjunto, permitirão reduzir o impacto do cancro do fígado em Portugal.

Grande parte destes casos é evitável e o prognóstico depende em larga medida da precocidade do diagnóstico
— Joana Espírito Santo, médica especialista em Doenças do Fígado
Pelo menos 60% dos casos de carcinoma hepatocelular são evitáveis através do controlo de fatores de risco modificáveis
— Joana Espírito Santo
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