Câncer em jovens cresce globalmente; obesidade e alimentação ultraprocessada são fatores

O câncer colorretal é o único que está crescendo entre jovens enquanto diminui entre idosos
Descoberta que distingue esse tipo de câncer dos demais e sugere um crescimento real, não apenas diagnóstico precoce.
Mark

Por que estamos vendo mais câncer em pessoas jovens agora? É realmente mais câncer, ou estamos apenas detectando melhor?

Mimi

Essa é a pergunta central. Para alguns cânceres, como o de pâncreas, o crescimento parece ser principalmente diagnóstico precoce — os casos iniciais aumentaram, mas a mortalidade não. Para o câncer colorretal, porém, os dados sugerem algo real acontecendo, porque o aumento aparece também em estágios avançados.

Luke

Então temos dois fenômenos diferentes acontecendo simultaneamente? Como sabemos qual é qual?

Mimi

Exatamente. E é por isso que os pesquisadores ainda estão cautelosos. Berrington de Gonzalez aponta que o câncer colorretal é único — está crescendo em jovens enquanto diminui em idosos. Isso não é apenas diagnóstico precoce.

Mark

E as causas? Obesidade, alimentação ultraprocessada — quanto disso é confirmado?

Mimi

A obesidade é estabelecida como causa de 13 tipos de câncer. Jovens com obesidade têm o dobro de risco de câncer colorretal. Isso é sólido. Mas ultraprocessados e microplásticos? Gunter diz que as evidências ainda são inconclusivas.

Luke

Então estamos culpando a alimentação ultraprocessada sem ter dados suficientes?

Mimi

Não exatamente. Sabemos que as dietas mudaram. Sabemos que a obesidade quadruplicou entre adolescentes. Mas qual papel específico cada fator desempenha — isso ainda é incerto.

Mark

Qual é a mensagem para alguém de 30 anos lendo isso?

Mimi

Que o câncer em jovens continua raro. Mas que hábitos simples — atividade física, mais fibras, menos carnes processadas — reduzem o risco.

Luke

E quanto às políticas públicas? Gunter menciona que mudanças duradouras dependem delas, não apenas de escolhas individuais.

Mimi

Sim. Ele é claro: não se deve culpar pessoas por viverem em sociedades estruturadas em torno de alimentos práticos e trabalho sedentário. Isso é um problema sistêmico, não individual.

  • Câncer colorretal em menores de 50 anos dobrou na Inglaterra em 20 anos: de 1 em 26 mil (2001) para 1 em 12 mil (2023)
  • Seis tipos de câncer (tireoide, mama, colorretal, rim, útero e leucemia) aumentaram entre jovens adultos em maioria dos 42 países analisados
  • Brasil estima 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028
  • Obesidade quadruplicou entre adolescentes desde os anos 1990
  • Jovens adultos com obesidade têm quase o dobro de probabilidade de desenvolver câncer colorretal antes dos 50 anos

Câncer colorretal em menores de 50 anos dobrou na Inglaterra em 20 anos, passando de 1 em 26 mil para 1 em 12 mil pessoas. Seis tipos de câncer (tireoide, mama, colorretal, rim, útero e leucemia) aumentaram entre jovens adultos em maioria dos países analisados.

Estudos internacionais indicam aumento de diagnósticos de câncer em pessoas menores de 50 anos, principalmente colorretal. Obesidade, alimentação ultraprocessada e estilo sedentário são apontados como possíveis causas.

Nos últimos vinte anos, o câncer deixou de ser uma doença predominantemente associada à velhice. Pesquisadores em todo o mundo estão documentando um fenômeno perturbador: pessoas com menos de 50 anos estão recebendo diagnósticos de câncer com frequência crescente, e o padrão é global. O câncer colorretal lidera essa tendência preocupante. Na Inglaterra, a taxa de diagnóstico em menores de 50 anos praticamente dobrou entre 2001 e 2023 — passou de aproximadamente uma em cada 26 mil pessoas para uma em cada 12 mil. Esses números vêm do Fundo Mundial de Pesquisa do Câncer, uma rede internacional que analisou registros da Inglaterra, Estados Unidos e Holanda, identificando aumentos em sete tipos de câncer apenas no território inglês.

Mas há uma questão que os pesquisadores ainda não conseguem responder com certeza: estamos vendo mais casos reais de câncer, ou estamos simplesmente detectando mais casos em estágios iniciais graças a maior conscientização e diagnóstico precoce? Amy Berrington de Gonzalez, professora de epidemiologia clínica do Instituto de Pesquisa do Câncer em Londres, oferece uma perspectiva tranquilizadora, ainda que com ressalvas. O câncer permanece raro entre jovens, ela observa — triplicar um número pequeno continua sendo um número pequeno. Ainda assim, o padrão merece atenção. Um estudo de 2025 que analisou dados de 50 países e territórios até 2017 encontrou aumento de câncer colorretal de início precoce em 27 deles. Na América Latina, o crescimento foi documentado no Chile, Argentina, Equador, Costa Rica e Porto Rico, com o Chile registrando um aumento anual de quase 4%, entre os mais altos observados.

O Brasil não fica fora dessa realidade. O Instituto Nacional do Câncer estima 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028, com destaque particular para câncer de colo do útero e colorretal — ambos com grande potencial de prevenção e detecção precoce. Marc Gunter, professor de epidemiologia do câncer no Imperial College London, aponta para mudanças no padrão alimentar na América Latina como possível explicação: cada vez mais alimentos ultraprocessados, combinados com um estilo de vida mais sedentário. Um estudo de 2025 envolvendo 42 países ofereceu mais clareza sobre quais tipos de câncer estão avançando entre os jovens. Seis deles — tireoide, mama, colorretal, rim, útero e leucemia — apresentaram aumento entre pessoas de 20 a 49 anos na maioria dos países analisados entre 2003 e 2017. O que torna o câncer colorretal único é que, em aproximadamente um terço dos países estudados, ele aumentou mais rapidamente entre adultos jovens do que entre os mais velhos. É o único câncer que parece estar crescendo entre os jovens enquanto diminui entre os idosos.

A questão do diagnóstico precoce versus aumento real ganhou evidência em um estudo americano sobre câncer de pâncreas em pessoas de 15 a 39 anos. O crescimento ocorreu quase exclusivamente em tumores diagnosticados em estágio inicial, enquanto as taxas de mortalidade permaneceram inalteradas. Isso sugere que, pelo menos para alguns cânceres, estamos detectando mais casos cedo, não necessariamente vivenciando uma epidemia. Mas os dados sobre câncer colorretal contam uma história diferente: alguns estudos americanos mostram aumento também nos estágios avançados da doença, indicando um crescimento real do número de casos, não apenas dos diagnósticos.

A obesidade emerge como um fator central nessa conversa. A Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer, vinculada à Organização Mundial da Saúde, reconhece a obesidade como causa comprovada de pelo menos 13 tipos de câncer. Uma revisão de estudos de 2021 descobriu que jovens adultos com obesidade tinham quase o dobro de probabilidade de desenvolver câncer colorretal antes dos 50 anos. E a obesidade tem crescido rapidamente entre os jovens — as taxas dobraram entre adultos desde os anos 1990 e quadruplicaram entre adolescentes. A alimentação também importa. Carnes processadas são classificadas como cancerígenas. O álcool é um fator de risco estabelecido. Uma dieta rica em fibras — presentes em vegetais, grãos integrais e leguminosas — reduz o risco. Alguns pesquisadores argumentam que alimentos ultraprocessados e microplásticos causam câncer, mas Gunter adverte que as evidências ainda são inconclusivas. "Há muito exagero em torno do tema", disse ele, enfatizando a necessidade de mais pesquisa. Berrington de Gonzalez concorda: as dietas mudaram, mas ainda não sabemos qual papel exato isso desempenha.

Gunter ressalta que não se deve culpar indivíduos por viverem em sociedades estruturadas em torno de alimentos práticos e trabalho sedentário — mudanças duradouras dependem de políticas públicas de saúde. Mas ele também oferece orientações práticas: manter um peso saudável, praticar mais atividade física, consumir mais fibras e reduzir carnes processadas. "Fazer uma caminhada, ser fisicamente mais ativo, comer mais frutas e verduras. Talvez essas coisas não estejam tão na moda, mas são realmente importantes." Para uma pessoa de 30 anos lendo esta reportagem, Berrington de Gonzalez deixa uma mensagem reconfortante: o câncer entre jovens continua sendo relativamente raro. O que está mudando é nossa capacidade de detectá-lo e, potencialmente, nossa exposição aos fatores que o causam.

O câncer ainda é muito incomum entre os jovens. Três vezes um número pequeno continua sendo um número pequeno.
— Amy Berrington de Gonzalez, professora de epidemiologia clínica do Instituto de Pesquisa do Câncer, Londres
É o único câncer que parece estar aumentando entre os jovens enquanto diminui entre as pessoas mais velhas.
— Amy Berrington de Gonzalez, sobre o câncer colorretal
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