Campanha eleitoral começa rala e mofada, com Lula e Flávio reciclando velhos temas

A campanha começou rala e mofada, esperando que tome jeito
Reflexão final sobre o estado vazio da disputa eleitoral brasileira de 2026, marcada por reciclagem de temas e ausência de propostas substantivas.
Mark

Por que você chama a campanha de mofada? Não é apenas que os temas sejam antigos?

Mimi

Mofo é quando algo fica guardado muito tempo e perde a vida. Lula voltando a 1979, Flávio repetindo o pai — não é só repetição, é falta de resposta para o que está acontecendo agora.

Mark

Mas as pesquisas mostram um empate. Isso não torna a campanha imprevisível?

Mimi

Imprevisível, sim, mas vazia. Um empate técnico significa que ninguém está convencendo ninguém. E enquanto isso, Americanas e Casas Bahia desaparecem, a taxa de juros sufoca, e os candidatos falam de urnas eletrônicas.

Mark

Você acha que o centrão declarar-se neutro é um sinal de fraqueza do governo?

Mimi

Não é fraqueza, é pragmatismo. O centrão está esperando para ver quem vence. Mas isso também significa que nenhum dos lados tem força suficiente para mobilizar.

Mark

E quanto a Trump e Milei? Por que eles importam tanto nessa campanha?

Mimi

Porque Lula começou acreditando que poderia resolver a guerra da Ucrânia. Chegou aqui encrencado com dois líderes que não quer e não consegue controlar. Flávio promete ser a solução, mas não tem ferramentas reais.

Mark

O que mais o preocupa nessa campanha?

Mimi

Que ninguém está falando sobre o que realmente machuca as pessoas. Desemprego real, juros que não caem, planos de saúde que ficam inviáveis. A campanha está em outro planeta.

  • A campanha começa com ambos os candidatos presos a narrativas do passado, sem propostas concretas para os desafios do presente.
  • As pesquisas Quaest apontam desaprovação de 48% contra aprovação de 46% do governo Lula, criando um equilíbrio instável que se replica no cenário de segundo turno.
  • Flávio Bolsonaro ressuscita o tema já desmentido das urnas eletrônicas venezuelanas, numa estratégia que revela escassez de pauta e não de convicção.
  • Americanas e Casas Bahia afundam em recuperação judicial enquanto a taxa de juros sufoca o varejo — e nenhum candidato menciona o assunto.
  • A Hapvida anuncia reajustes de dois dígitos nos planos de saúde e a campanha segue em silêncio, rala e sem forma, esperando que alguém faça a pergunta certa.

No Brasil de 2026, a campanha presidencial se abre não como um debate de ideias, mas como um ritual de memórias: Lula retorna às greves de 1979 em São Bernardo do Campo, e Flávio Bolsonaro ressuscita em Copacabana os fantasmas do governo paterno. As pesquisas revelam um empate que não é consenso, mas impasse — e enquanto os candidatos folheiam álbuns do passado, a economia real, com seus juros estratosféricos e gigantes do varejo em recuperação judicial, aguarda em silêncio que alguém se digne a olhar para ela.

A campanha eleitoral brasileira de 2026 abriu com um sabor de déjà vu. Lula viajou a São Bernardo do Campo para evocar as greves de 1979, marco fundador de sua trajetória política há quase meio século. Flávio Bolsonaro, em Copacabana, reproduziu o discurso errático que caracterizou o governo de seu pai. Os dois pareciam buscar combustível em batalhas antigas, como se o presente não oferecesse matéria suficiente.

As pesquisas da Quaest pintam um cenário de equilíbrio frágil: 48% desaprovam o governo, 46% aprovam. Num eventual segundo turno, Lula aparece com 43% e Flávio com 40% — uma diferença que cabe dentro da margem de incerteza. O destino dos votos dos demais candidatos permanece uma incógnita que pode definir tudo.

O contexto de 2026 difere profundamente de 2018. O centrão se declarou neutro, o antipetismo perdeu sua amplitude difusa e se tornou mais concentrado e menos mobilizador. Lula, que iniciou o terceiro mandato com ambições de mediador internacional, chegou ao meio da campanha em atrito com Trump e Milei. Flávio se apresenta como solução para esses atritos — mas a promessa é mais retórica do que real.

Enquanto isso, a economia real segue ignorada. Americanas e Casas Bahia recorreram à recuperação judicial, vítimas de fraude, obsolescência e de uma taxa de juros que sufoca qualquer operação. O governo alega que a taxa é responsabilidade do Banco Central — o que é verdade, mas incompleto. A Hapvida anunciou reajustes de dois dígitos nos planos de saúde, e nenhum candidato sequer perguntou onde foi parar o estudo sobre a composição desses aumentos. A campanha começou rala, mofada, e por ora segue assim.

A campanha eleitoral brasileira começou com um ar de repetição cansada. Lula viajou até São Bernardo do Campo para evocar as greves de 1979, aquele momento fundador de sua trajetória pública quarenta e sete anos atrás. Flávio Bolsonaro, por sua vez, retomou em Copacabana o discurso errático que marcou a gestão de seu pai. Ambos pareciam folhear um álbum de fotografias antigas, buscando inspiração em batalhas já vencidas ou perdidas.

Os números das pesquisas revelam um cenário de equilíbrio precário. Segundo levantamento da Quaest, quarenta e oito por cento dos entrevistados desaprovam o governo, enquanto quarenta e seis por cento aprovam — uma diferença tão pequena que funciona como empate. Num eventual segundo turno, o padrão se repete: Lula aparece com quarenta e três por cento, Flávio com quarenta por cento. As entrelinhas desses números guardam uma incerteza incômoda: ninguém sabe com precisão para onde irão as preferências dos demais candidatos numa eventual disputa final.

O contexto de 2026 é radicalmente diferente de 2018. Naquela época, o antipetismo era difuso, Lula estava preso, e o establishment bolsonarista enfrentava a adversidade com uma soberba quase olímpica. Hoje, o centrão declarou-se neutro — um gesto que só poderá ser plenamente interpretado quando as urnas forem computadas na noite de quatro de outubro. O antipetismo perdeu seu caráter nebuloso e se concentrou num horror visceral, mais restrito, menos mobilizador.

Enquanto isso, a economia segue seu próprio drama, invisível nas falas de campanha. Gigantes do varejo tradicional — Americanas e Casas Bahia — recorreram à recuperação judicial. As causas variam: fraude nas Americanas, obsolescência tecnológica nas Casas Bahia. Mas há um fator comum e brutal: a taxa de juros lunar que sufoca qualquer operação. Essas crises desempregam mais gente do que qualquer tarifa de Trump poderia fazer. O governo, como todos os seus antecessores, insiste em dizer que nada tem a ver com o problema, já que a taxa vem do Banco Central. É verdade, mas quem expande os gastos públicos é ele mesmo.

Lula iniciou seu terceiro mandato acreditando que poderia ajudar a encerrar a guerra na Ucrânia. Chegou ao meio da campanha encrencado com dois personagens incômodos: Donald Trump e Javier Milei. Flávio Bolsonaro se apresenta como remédio para esses males — pura promessa de campanha. A Trump não pode e não deve dar o que ele quer. A Milei pode oferecer discursos e pouco mais.

Sem plataforma consistente, o segundo Bolsonaro foi ao arquivo e desenterrou o tema mofado das urnas eletrônicas, supostamente produzidas por uma empresa venezuelana chavista. Essa narrativa já foi desmentida inúmeras vezes. O sistema eleitoral brasileiro, instalado há trinta anos, é defendido hoje pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques — o mesmo que Bolsonaro colocou no Supremo em 2020 através de uma articulação de Flávio. A desconfiança recente nas urnas é apenas falta de assunto.

O mofo da campanha vira tóxico quando a operadora de planos de saúde Hapvida anuncia aumentos de dois dígitos em suas mensalidades e nenhum candidato pergunta onde foi parar o estudo que pretendia desvendar a composição desses reajustes. Ninguém questiona. Ninguém propõe. A campanha começou rala e mofada, e por enquanto segue assim, esperando que tome alguma forma.

O antipetismo perdeu seu caráter difuso e se concentrou num horror visceral, mais restrito, menos mobilizador
— análise da coluna
A desconfiança recente nas urnas é apenas falta de assunto
— análise da coluna
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