Nos dias finais de uma disputa presidencial acirrada, a campanha de Lula escolheu não apenas atacar o adversário com argumentos programáticos, mas invocar o peso moral de crimes não resolvidos — a morte de uma vereadora, o assassinato de uma criança. Ao associar Flávio Bolsonaro a milicianos e à defesa de um policial acusado, o PT transforma dor humana concreta em instrumento eleitoral, revelando até onde chegam as apostas quando o poder está em jogo.
Campanha de Lula usa reportagens sobre Flávio e milícias em peça eleitoral
Saber que uma pessoa que concorre à presidência está defendendo um monstro
Por que a campanha escolheu exatamente esses dois casos agora, nesta fase final?
São casos que têm documentação forte. As reportagens já existem, a condenação do Supremo é pública, e há uma mãe disposta a falar. Não é especulação — são fatos que podem ser verificados.
Mas precisamos ser claros: o que a campanha está fazendo é seleção. Há muitos casos envolvendo políticos. Por que esses dois? Porque servem à narrativa que querem contar.
A defesa de Flávio ao policial — isso é ilegal ou apenas politicamente ruim?
Legalmente, um advogado tem o direito de defender qualquer pessoa. O que a campanha está argumentando é que a escolha de defendê-lo, combinada com outras ações, revela algo sobre os valores ou as alianças de Flávio.
Exato. E isso é um argumento político legítimo, mas não é uma acusação de crime. Precisamos manter essa distinção clara para o leitor.
Quanto à mãe da menina — ela está sendo usada, ou ela escolheu falar?
Segundo o material, ela deu um depoimento. Mas a campanha é quem o selecionou, editou e distribuiu. Há uma diferença entre alguém escolher falar e alguém ser escolhido para falar.
E não sabemos se ela foi procurada pela campanha ou se ofereceu espontaneamente. Isso importa para entender a dinâmica.
Isso muda o resultado eleitoral?
Ninguém sabe. Mas a campanha claramente acredita que sim, ou não estaria investindo recursos nisso agora.
E há evidência de que funciona? Não temos dados sobre isso ainda. É uma aposta.
El Pulso
- A campanha petista lança peça que reúne reportagens investigativas para retratar Flávio Bolsonaro como 'o candidato das milícias', elevando o tom do ataque nas semanas decisivas antes da votação.
- O material expõe emendas parlamentares enviadas por Flávio a um miliciano condenado pelo STF por envolvimento no assassinato de Marielle Franco, com indícios de desvios identificados pela Polícia Federal.
- Um segundo caso — o assassinato da menina Ana Clara, de cinco anos — é incorporado à ofensiva, explorando a atuação de Flávio na defesa do policial acusado pelo crime.
- A mãe da vítima aparece em depoimento na peça eleitoral, declarando que uma vitória de Flávio significaria perder 'total esperança' de justiça para sua filha.
- O timing calculado do lançamento sinaliza que o PT aposta nessa abordagem emocional e moral para mover eleitores indecisos e mobilizar sua base na reta final.
Nos dias finais de uma disputa presidencial acirrada, a campanha de Lula escolheu não apenas atacar o adversário com argumentos programáticos, mas invocar o peso moral de crimes não resolvidos — a morte de uma vereadora, o assassinato de uma criança. Ao associar Flávio Bolsonaro a milicianos e à defesa de um policial acusado, o PT transforma dor humana concreta em instrumento eleitoral, revelando até onde chegam as apostas quando o poder está em jogo.
A campanha do presidente Lula lançou uma peça eleitoral que reúne reportagens investigativas para associar Flávio Bolsonaro, candidato do PL, a milicianos do Rio de Janeiro. O material estrutura seu argumento em torno de dois casos escolhidos pela equipe petista para os dias finais da disputa.
O primeiro envolve emendas parlamentares enviadas por Flávio, na condição de senador, a Robson Calixto — um miliciano condenado pelo Supremo Tribunal Federal por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco. A Polícia Federal identificou indícios de desvios nesses repasses, e a campanha compilou trechos de reportagens sobre os vínculos para sustentar a tese de que Flávio é 'o candidato das milícias'.
O segundo caso, até então periférico na estratégia petista, é o assassinato de Ana Clara, menina de cinco anos morta em 2021. Flávio atuou na defesa de Bruno Delaroli, o policial acusado pelo crime. A campanha veiculou um depoimento de Cristiane Gomes da Silva, mãe da vítima, que disse que uma vitória do candidato significaria perder 'total esperança' de justiça.
A ofensiva, lançada em momento estratégico antes da votação, busca vincular o adversário a crimes graves por meio de investigações jornalísticas e testemunhos de pessoas diretamente afetadas — apostando que essa combinação de evidências e emoção pode mover eleitores indecisos na reta final.
A campanha do presidente Lula lançou nesta quinta-feira uma peça eleitoral que reúne reportagens investigativas para associar Flávio Bolsonaro, candidato do PL, a milicianos do Rio de Janeiro. O material, ao qual a Folha teve acesso, concentra-se em dois casos específicos que a equipe petista escolheu para estruturar seu ataque nos dias finais da disputa.
O primeiro diz respeito a emendas parlamentares. Flávio, na condição de senador, enviou recursos para Robson Calixto, um miliciano que foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco. A Polícia Federal identificou indícios de desvios nesses repasses. A campanha compilou trechos de reportagens sobre esses vínculos e os reforçou na peça, estruturando o argumento de que Flávio é "o candidato das milícias".
No mesmo período, a campanha começou a explorar um segundo caso que até então não havia sido central em sua estratégia: o assassinato de Ana Clara, uma menina de cinco anos, morta em 2021. Flávio atuou na defesa de Bruno Delaroli, o policial acusado pelo crime. Além de exibir reportagens sobre o caso, a campanha veiculou um depoimento de Cristiane Gomes da Silva, mãe da vítima. Em seu relato, ela expressou o impacto emocional de saber que um candidato à presidência estava defendendo quem ela considera responsável pela morte de sua filha, dizendo que uma vitória dele significaria perder "total esperança" de justiça.
Os dois materiais integram uma ofensiva que a campanha petista pretende intensificar na reta final da disputa. A estratégia busca vincular o candidato do PL a crimes graves e a personagens ligados ao crime organizado, utilizando para isso tanto investigações jornalísticas quanto depoimentos de pessoas diretamente afetadas pelos casos. O timing do lançamento — em semanas decisivas antes da votação — indica que a campanha vê nessa abordagem um caminho para influenciar eleitores indecisos ou mobilizar sua base.
Citas Notables
Saber que uma pessoa que concorre à presidência está defendendo um monstro que matou uma criança de 5 anos é surreal e assustador. Se ele ganhar, perco total esperança de um dia ter justiça pela minha filha.— Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara