Em maio de 2022, quando as pesquisas colocavam Lula 21 pontos à frente de Bolsonaro, a campanha do ex-presidente escolheu a contenção em vez da celebração. Há uma sabedoria antiga nesse gesto: saber que os números refletem um momento, não um destino. A história brasileira desde 1989 sugeria que líderes nessa posição costumam vencer — mas a campanha sabia que pesquisas não votam, e que a euforia prematura já enterrou muitas candidaturas promissoras.
Campanha de Lula pede humildade e pé no chão diante de vantagem no Datafolha
Calçar as sandálias da humildade diante de uma vantagem histórica
Por que a campanha de Lula pediria humildade justamente quando estava ganhando por 21 pontos? Não faz sentido estratégico.
Faz, na verdade. Mercadante tinha um dado histórico importante: desde 1989, quem liderava as pesquisas cinco meses antes vencia. Isso significa que a vantagem era real, consolidada. Mas justamente por isso, o risco era a acomodação.
Espera. Mercadante disse que quem liderava cinco meses antes vencia—mas ele estava pedindo contenção mesmo assim? Isso sugere que ele achava que havia algo que poderia dar errado.
Exatamente. Bolsonaro tinha demonstrado "desequilíbrio", nas palavras de Mercadante. A campanha esperava que ele intensificasse discursos golpistas, provocações contra a democracia. Se a campanha de Lula caísse nessas provocações, poderia perder o foco.
Então o medo era que Bolsonaro conseguisse mudar o tema da eleição?
Sim. Guimarães falava em ampliar alianças, levar a campanha para as ruas, tratar de desemprego, fome, desnutrição. O crescimento de Lula estava vindo de comparações entre os dois governos, de questões econômicas e sociais. Se Bolsonaro conseguisse puxar o debate para golpe e democracia, o terreno mudava.
Mas a pesquisa tinha margem de erro de dois pontos. Lula estava em 48%, Bolsonaro em 27%. Mesmo com erro, a vantagem era enorme. Por que tanta cautela?
Porque pesquisa não é eleição. Guimarães dizia que seria uma campanha "dura, difícil". Eles sabiam que havia cinco meses de campanha pela frente, muito tempo para as coisas mudarem.
E a celebração nas ruas? Como a campanha controlava isso?
Não controlava. Mas os coordenadores estavam sinalizando para a militância que o trabalho não estava feito. Que a euforia era prematura.
Isso é especulação. O que sabemos é que a campanha pediu humildade. Não sabemos se a militância ouviu.
Der Puls
- O Datafolha de 26 de maio revelou uma vantagem esmagadora: 48% para Lula contra 27% para Bolsonaro no primeiro turno, números que fizeram a militância respirar aliviada.
- Mesmo diante dos dados favoráveis, coordenadores da campanha emitiram um alerta interno — a euforia pública poderia mobilizar o adversário e adormecer os próprios aliados.
- Líderes como José Guimarães e Aloizio Mercadante pediram 'sandálias da humildade', temendo que Bolsonaro intensificasse discursos golpistas para mudar o eixo do debate.
- A estratégia definida foi clara: ampliar alianças, ir às ruas e manter o foco na comparação entre os dois governos — especialmente em economia, fome e desemprego.
- A campanha apostava que quanto mais o debate girasse em torno das realizações concretas, mais o crescimento nas pesquisas se consolidaria até outubro.
Em maio de 2022, quando as pesquisas colocavam Lula 21 pontos à frente de Bolsonaro, a campanha do ex-presidente escolheu a contenção em vez da celebração. Há uma sabedoria antiga nesse gesto: saber que os números refletem um momento, não um destino. A história brasileira desde 1989 sugeria que líderes nessa posição costumam vencer — mas a campanha sabia que pesquisas não votam, e que a euforia prematura já enterrou muitas candidaturas promissoras.
São Paulo acordou naquela quinta-feira de maio de 2022 com números que pareciam definitivos. O Datafolha mostrava Lula com 48% das intenções de voto no primeiro turno contra 27% de Bolsonaro — uma vantagem de 21 pontos. No cenário de votos válidos, o ex-presidente chegava a 54%. A pesquisa, realizada com 2.556 eleitores em 181 cidades, tinha margem de erro de dois pontos.
Mas enquanto apoiadores celebravam, a campanha fazia o movimento oposto: pedia silêncio. José Guimarães, vice-presidente nacional do PT, falava em 'calçar as sandálias da humildade'. Não era hora de descansar, dizia — era hora de ampliar alianças, ir às ruas e enfrentar os problemas reais do povo: desemprego, fome, desnutrição.
Aloizio Mercadante trouxe um dado histórico: em todas as eleições presidenciais desde 1989, quem liderava as pesquisas cinco meses antes havia vencido. A vantagem de Lula era, portanto, historicamente significativa. Ainda assim, Mercadante insistia na contenção. 'Quanto mais compararmos os governos Lula com o de Bolsonaro, mais vamos crescer', afirmava.
O que a coordenação antecipava era uma mudança de tática do adversário: Bolsonaro tenderia a intensificar discursos golpistas e provocações à democracia. A resposta da campanha seria não aceitar a armadilha — manter o foco na economia e nas questões sociais, onde o crescimento estava acontecendo. A lição reaprendida era simples: pesquisas não ganham eleições. Campanhas ganham — quando mantêm os pés no chão e não confundem vantagem com vitória.
São Paulo acordou nesta quinta-feira com números que fizeram a militância de Lula respirar fundo. O Datafolha divulgado no dia 26 de maio de 2022 mostrava o ex-presidente com 48% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Jair Bolsonaro ficava em 27%—uma vantagem de 21 pontos percentuais que, em qualquer leitura, era esmagadora. No cenário de votos válidos, aquele que a Justiça Eleitoral usa para declarar o resultado final, Lula chegava a 54% contra 30% do presidente. A pesquisa havia sido realizada com 2.556 eleitores acima de 16 anos espalhados por 181 cidades, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou menos.
Mas enquanto apoiadores celebravam nas ruas e nas redes, a campanha de Lula fazia algo que parecia contracultural: pedia silêncio. Não o silêncio da derrota, mas o da prudência. José Guimarães, deputado federal pelo Ceará e vice-presidente nacional do PT, foi um dos primeiros a levantar a voz. Ele falava em "calçar as sandálias da humildade", uma imagem que capturava bem o tom que a coordenação queria estabelecer. Não era hora de dormir em berço esplêndido, dizia. A campanha seria dura, difícil, mas também esperançosa—e exigia que o partido ampliasse alianças, levasse a campanha para as ruas e tratasse dos problemas concretos do povo: desemprego, fome, desnutrição.
Aloizio Mercadante, ex-ministro e coordenador do programa de governo de Lula, foi além. Ele trouxe um dado histórico que merecia ser ouvido: em todas as campanhas presidenciais desde 1989, aqueles que lideravam as pesquisas cinco meses antes da eleição tinham vencido. Ou seja, a vantagem de Lula não era apenas grande—era historicamente decisiva. Mesmo assim, Mercadante pedia contenção. "Está consolidada a polarização. Estamos crescendo de forma consistente e generalizada. Quanto mais compararmos os governos Lula com o de Bolsonaro, mais vamos crescer", afirmava.
O que Mercadante e Guimarães viam à frente era uma mudança de tática do adversário. Bolsonaro, na avaliação deles, intensificaria os discursos golpistas, as provocações contra a democracia. A campanha de Lula não deveria cair nessa armadilha. Não deveria aceitar as provocações. Deveria manter o foco onde o crescimento estava acontecendo: na economia, nas questões sociais, na comparação entre os dois governos. "Este é o caminho que explica o nosso crescimento e que nos levará à vitória", concluía Mercadante.
O que se via, portanto, era uma campanha que tinha números para comemorar mas escolhia, deliberadamente, não fazê-lo em público. A pesquisa estava registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-05166/2022, contratada pelo jornal Folha de S.Paulo, e seus números eram sólidos. Mas a lição que a coordenação de Lula havia aprendido—ou reaprendido—era que pesquisas não ganham eleições. Campanhas ganham. E campanhas ganham quando mantêm os pés no chão, ampliam o diálogo, e não confundem vantagem com vitória.
Bemerkenswerte Zitate
Está consolidada a polarização. Estamos crescendo de forma consistente e generalizada. Quanto mais compararmos os governos Lula com o de Bolsonaro, mais vamos crescer.— Aloizio Mercadante, coordenador do programa de governo de Lula
Será uma campanha dura, difícil, mas também muito esperançosa. Precisamos ampliar alianças, colocar cada vez mais a campanha na rua e tratar dos problemas do povo.— José Guimarães, vice-presidente nacional do PT